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domingo, 9 de setembro de 2012

Mário de Andrade e os amigos mineiros

      Há sessenta e oito anos, por esses dias de setembro, Mário de Andrade (1893-1945) saltava na Gare da Central do Brasil em Belo Horizonte, após sacolejar mais de vinte horas de trem. Era o dia 4 de setembro de 1944. O escritor paulista visitava pela quarta e última vez a capital mineira, então uma provinciana cidade de quase trezentos mil habitantes, sob o pretexto de preparar um grupo de jovens escritores para um Congresso literário a se realizar, no ano seguinte, em São Paulo. Acima de tudo, ao que parece, Mário, à época um tanto decepcionado com a vida literária, pressentia que os novos amigos de Minas poderiam confortá-lo. As outras três viagens ocorreram por motivações várias, ainda que o signo da amizade esteja presente. Em 1919 viajou sozinho a Ouro Preto, para conhecer o poeta simbolista Alphonsus de Guimaraens, selando o início de uma amizade que coroava uma grande admiração. Em abril de 1924, integrou a famosa caravana de modernistas (Olívia Guedes Penteado, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, o pianista russo René Thiollier, o francês Blaise Cendrars) que visitou Minas Gerais, para estudar a arquitetura barroca colonial, passando por Belo Horizonte, Ouro Preto, Mariana, São João del Rey, Tiradentes. Conhece Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), com quem passaria a se corresponder, e alguns novos escritores.  A terceira viagem ocorreu em 1939, atendendo a convite do DCE (representado pelos irmãos Wilson e Carlos Castelo Branco na diretoria) para proferir conferência aos estudantes. Conhece os jovens escritores  Murilo Rubião (1916-1991), Paulo Mendes Campos (1922-1991), Otto Lara Resende (1922-1992), Hélio Pellegrino (1924-1988), Wilson Figueiredo (nascido capixaba em 1924, mas criado em Minas desde bebê),  Henriqueta Lisboa (1901-1985) e João Etienne Filho (1918-1997), dentre outros.

                                               (Imagem do Instituto Moreira Salles)

      A foto reúne os autodenominados quatro cavaleiros do apocalipse: Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino e Otto Lara Resende.

       Na última viagem, iniciada no dia 3 de setembro de 1944, Mário estreitou laços de amizade com escritores com os quais já se correspondia e fez novos contatos. Entre os amigos mais antigos, contavam  os conhecidos em 1924, como Emílio Moura (1902-1971), Abgar Renault (1901-1995), Pedro Nava (1903-1984), Rodrigo Melo Franco (1898-1969), com quem havia trabalhado, no Rio de Janeiro, como assessor no âmbito da implantação do SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), além dos intelectuais conhecidos em 1939. Um deles, Fernando Sabino (1923-2004), não se encontrava em Belo Horizonte, fora ao Rio de Janeiro resolver pendências familiares. Carlos Drummond de Andrade já se mudara, em 1934, para a capital federal, na função de chefe de gabinete do Ministro da Educação, Gustavo Capanema. O grupo de amigos mineiros ampliou-se e, à altura, compreendia também Sábato Magaldi (1927-2016), com menos de vinte anos e que se tornaria renomado crítico teatral. Todos mais tarde acabaram se impondo, unidos por laços de afeto e cumplicidade, em diversas áreas de atuação, de forma brilhante. Há registros de que, além dos quatro "cavaleiros do apocalipse", estiveram também no Cassino da Pampulha, nessa noite, os futuros cineastas e irmãos Renato e Geraldo Santos.

      Dentre as múltiplas atividades de Mário de Andrade, músico de formação, que num conhecido poema afirma ser "trezentos", coexistem o pesquisador, o folclorista, o poeta, o romancista, o crítico e o incentivador de novos talentos, tanto na literatura como em outras artes. Os jovens enviavam-lhe textos e livros, na expectativa de receber orientação e conselhos sobre o material produzido. O autor de Macunaíma, não se sabe como, encontrava tempo para responder a todos que a ele se dirigiam, numa peculiar relação de mentor intelectual. Dos mais distantes recantos do país, jovens endereçavam para a rua Lopes Chaves, em São Paulo, cartas, objetos de arte e recebiam resposta.

                                           (Imagem do IEB, USP)

      "Lhe escrevo. Por que lhe escrevo primeiro? 'Eu sou trezentos', e não consigo saber firme qual dos trezentos me move. Talvez eu esteja mais próximo do Hélio, mas talvez você esteja mais próximo de mim...(Não imaginei procurado esta sutileza: saiu sem eu querer e não a entendo bem! Apenas sei que é verdadeira.) Talvez porque seja a carta mais fácil. O Hélio me preocupa demais... O Paulo é o que mais me inquieta...Você nem me inquieta, nem me preocupa exatamente. A modos que você me 'ocupa'; a sua presença é menos insistente, mas é mais contante, me envolve com aquele silêncio quente das conivências. Nós já nos conhecemos desde o princípio do mundo".

      O fragmento acima faz parte de uma carta de Mário de Andrade a Otto Lara Resende, datada de 24 de setembro de 1944, uns quinze dias após a última viagem a Belo Horizonte. A aproximação do escritor paulista com os mineiros acentuou-se em 1943, através de um encontro em São Paulo com Hélio Pellegrino, João Etienne e o nadador Fernando Sabino, que participaria de uma Olimpíada Universitária. Os jovens mineiros causaram impressão no consagrado escritor, tendo incentivado a correspondência entre eles. Regressando a São Paulo, após a visita a Minas de 1944, Mário escreve em primeiro lugar a Otto Lara Resende. Por quê? Afinidades poéticas, na certa. Em Belo Horizonte, a 10 de setembro de 1944, houve uma esticada ao Cassino da Pampulha, recém inaugurado; ali beberam, conversaram e Otto, de madrugada, escreveu de um jato o "Poema para Mário de Andrade". Entre outras coisas, o poema diz: "Acima das dançarinas e das acrobacias,/ tua lucidez me espia/ complacente".

      A revista Serrote I, do Instituto Moreira Salles, publica a carta de Mário e o poema de Otto Lara Resende. Vale a pena ler na íntegra. Dentre os estudiosos da correspondência de Mário de Andrade, cabe citar os nomes de Antonio Candido, Marco Antônio de Moraes, Valdomiro Santana, Silviano Santiago e Eneida Maria de Sousa.

MORAES, Marco Antônio de. Mário e o pirotécnico aprendiz. (Org.) Belo Horizonte: Ed. UFMG; São Paulo: IEB-USP; São Paulo: Ed. Giordano, 1995.

(Este texto recebeu pequenas alterações em 18/08/2016.)

4 comentários:

  1. Muito bom... Nesse dia do nascimento 09 de Outubro...
    Parabéns Mario e seu Macunaima e outros..

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  2. Otto Lara Resende, é descendente de Helena Maria de Jesus(mãe do inconfidente José de Resende Costa), uma das "Três Ilhoas", com origem na Ilha de Açores, em Portugal. No livro "As Três Ilhoas" de José Guimarães, na página 56, faz referência aos seus parentes de Resende Costa/MG: Maria José de Rezende Lara casada com o Capitão Joaquim Pinto Rodrigues Lara.

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  3. Texto muito bom mesmo. Apenas um detalhe: o Paulo Mendes Campos nasceu em 1922 (não 1928). Já vi este pequeno erro em outros lugares. Um dia encontro a origem dele! Mas, com certeza absoluta: 1922.

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  4. Betina, você tem inteira razão. Acolho seu comentário, corrigindo a data de nascimento de Paulo Mendes Campos. Aproveitei para fazer outras breves alterações, inclusive no nascimento de Murilo Rubião, por descuido, estava mais novo dez anos. Este é um dos textos mais acessados desta página, beirando hoje 1500, mais precisamente 1 467.

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