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domingo, 2 de setembro de 2012

Joaquim Manuel Magalhães


Livro do Mês: 


         Joaquim Manuel Magalhães constitui hoje um dos nomes tutelares da poesia portuguesa. Tendo estreado individualmente em 1974, com o livro Consequência do lugar, participou da experiência ousada de Cartucho em 1976. De lá para cá tem publicado regularmente, alternando a produção poética com uma atenta reflexão sobre a poesia portuguesa contemporânea, como atestam três fundamentais livros de crítica - Os dois crepúsculos (1981), Um pouco da morte (1989) e Rima pobre (1999. É ainda autor de um exaustivo ensaio sobre o poeta Dylan Thomas, como parte de sua integração acadêmica. Em outra área também tem se empenhado, com traduções reconhecidas e premiadas de poesia grega e espanhola contemporâneas. Personalidade polêmica, de convivência entre a aspereza e o intratável, atualizou no contexto literário português das últimas quatro décadas alguns lances típicos de um “enfant terrible” da estirpe rara de um Jean Cocteau ou de um Rimbaud. O leitor de antologias e recolhas de poesia dos últimos trinta anos conhece um pouco de suas recusas e sonegações.
         A poesia estampada em Alta noite em alta fraga revela uma severa vigilância sobre a expansão lírica, na busca de um equilíbrio entre a dicção individual e o grito asfixiante num repertório temático de amplas dimensões. A recepção positiva a este livro em Portugal, à época do lançamento, revelou-se unânime, resenhas e comentários ressaltando a altíssima tensão poética. Como se tratasse de uma obra única, desconectada da produção anterior. O que é um tanto falso: as recorrências a motivos de outros poemas são várias; em especial duas, de forte impacto: a consciência da escrita e do sujeito. Algumas posturas, disseminadas em torno da contaminação da escrita pela experiência, inscrevem-se, ainda que aparentemente desconexas ou refreadas: “Escrevo para não esquecer:/ o silvo de um muro, uma chave quebrada,/ tudo o que da alameda já não vejo/ e quando descia do alto do adro/ para dentro das tuas mãos” (p.41), reelaboração de um eixo nodal de Alguns livros reunidos, através de assertivas como “Prefiro a arte de esquecer à de lembrar...” (“Contava-me das viagens nocturnas”). Reforçando a intratextualidade, lemos “Detesto o esteticismo, os que seguem/ a literatura, quero um corpo habitual/ adormecido na madrugada...” (p.75), reverberando alguma atmosfera dilacerada e cética presente no livro Uma luz com toldo vermelho - “Detesto a poesia”. E o que dizer dos bares cuja música “atenuava um pouco/ a pretérita euforia das ruas” (p.58) retomando as caves suspeitas de livros anteriores? Ou como não aproximar idiossincrasias nos modos de enunciação, tais como “Tudo o que me dói enterra-se/ no pátio do detonador” (p.71) em ressonância a modulações análogas: “Começo onde a memória dói” de Alguns livros reunidos ?

 Como acontece nas grandes intervenções no tecido cultural de uma nação, o rescaldo assume proporções alarmantes, como se de uma pós-guerra civil se tratasse. Ficam aparentemente em plano secundário as postulações subjetivas e o desespero diante da utopia desmantelada. Está em causa o balanço de um país e de uma época, repensados através de uma poderosa lucidez e de uma radical veemência: “Os ruídos sobem de qualquer lugar,/ sintetizadores, martelos, desabamentos / uma percussão alheia a qualquer justiça./ Nenhuma janela que não fale/ da construção administrativa dos piores instintos./ Todo o lixo do humano feito sebo/ em qualquer lugar. Ainda que me digam/ que vivemos em democracia eu digo/ que não sei” (p.78).

A cidade, outrora espaço de civilizada vizinhança e conhecimento, é revelada como lugar de devastação e bárbaro consumismo: “Aos balcões de cafés de azulejo,/ com telemóveis pendurados nos cintos/ e os cartões de crédito em dente na carteira” (p.79). A consciência de que o progresso aporta consigo a destruição e a miséria é contígua à ideia de poesia como linguagem de denúncia, não pactuada com a erosão: “Cada próspera cidade tem no seu meio/ uma cidade de subnutrição, crianças mortas,/ desalojados, desemprego” (p. 9). E, sobretudo, no bojo do desencanto diante de utopias globalizadas, a sucessão de logros e enganos corrói a certeza de que o sistema urbano um dia representou a síntese positiva do progresso e igualdade de oportunidades: “O ódio étnico, o rodeio do nacionalismo,/ os padrões de migração que mudam/ imensas cidades povoadas de despovoamento(p.11-12).
A contrapartida subjetiva do livro, atravessada pelo desejo, indicia, a seu modo, com a habitual síntese de sutileza e contundência, também um balanço, por sua vez irônico e amargo: “...O dia de depois é inteiramente inútil/ e temos de nos bastar com o prazer de estar só” (p. 61). A interface da demanda erótica, menos prestigiada pela recepção, se ressente de um confronto conturbado com o fluir do tempo, configurando o poema como o espaço desamparado da memória, aquilo que resiste ao apagamento: “Eu digo para mim que é esta/ a utilidade da poesia,/ a lembrança” (p.60). O uso de vocábulos raros e preciosos, em desuso no dia-a-dia, nos títulos de alguns poemas (“Valvulina”, “Arandela”, “Adiafa”, “Acendimento”, “Columbário”) constitui mais um traço a apontar para a poesia como espaço daquilo que não encontra eco no mundo real. A experiência erótica, com aceno na intimidade e no afeto, surge como uma das mais singulares aventuras do sujeito, ainda que em inusitadas manifestações: “Esta noite dormi com os amantes/ que tinham morrido. Ouvia-os/ no espaço por onde ondeia o nada. // (...) Emprestam à minha mão o sexo/ que também eles um dia prenderam” (p.44). O sujeito vê-se fragmentado e terrivelmente devastado num presente sem horizontes e perspectivas, assolado pela idéia do tempo que avança para toldar uma sensibilidade prestes a despedir-se do mundo dos prazeres: “Ficarei entregue à velhice que começa/ e em breve fugirá, dado à assombração,/ gases, flatulência, desaires” (p.64).
A dimensão trágica e impetuosa desta lírica pós-moderna de certa forma parodia as íngremes apóstrofes românticas, em que pesem a ênfase à noite e referências mortuárias (“Com tanto túmulo para visitar.” p.47), além das inúmeras alusões à doença do século - “um vírus que nos deixou entregues/ ao anjo sem guarda” (p.27); “Tenho medo das manchas, dos lugares/ dos gânglios, da primeira impotência” (p.74). Da altura dessa noite e dessa fraga descortina-se o arejado espectro de um mundo em erosão, seja na vertente maior (o país), seja na esfera menor (o sujeito): “Teve o que todos tinham, em quantidade escassa,/ até cobrir-se de desterro e de ilegais” (p.77). O azedume atinge indiscriminadamente tanto as potestados do Olimpo, como os detentores do poder. A devastação da cidade é metonímia da devastação subjetiva, as experiências de ruína se sucedem: “Ao alto dessas ruas que Lisboa já não tem/ havia um andar quase arruinado/ (...) No vagar desse desmoronamento/ essa ruína foi tua e foi minha,/ o seu reboco de cal, a pele refém,/ a cisterna petrificada” (p.53). Por mais que pareçam bizantinas as analogias, não há como ignorar a matriz romântica: os cimos, as viagens na minha terra, as relações com os mortos, o isolamento inspirado do vate, os envios à tradição cultural (Antunes/Esteves/ Garrett/Pessoa), a busca de identidade coletiva diante de pinhais extintos.
Nessa escrita em ziguezague, cumpre recortar de “Arqueiro” passagens emblemáticos de uma proposta poética radical (na esteira do famoso poema “Princípio” de Os dias, pequenos charcos, retomado num ensaio sobre Antônio Osório incluído em Os dois crepúsculos): “Voltar ao real, sim. Como o disse/ quando outros se refugiavam/ na linguagem da linguagem” (p.69). A ideia retorna em “Mãe-da-lua”: “Mas o poema fala, fala de si,/ apanha o real porque nele está / quem o escreve, que sou eu...” (p.38). Os traços gerais da poesia de Cartucho retornam modalizados em novo contexto: o regresso à subjetividade discursiva, a revitalização da narratividade, o retorno ao cotidiano asfixiado e a descoberta da dimensão erótica do corpo. Desfeitos os laços de ruptura com a linguagem poética tradicional e as ilusões eufóricas da inovação, o poema se faz numa linha de diálogo com o passado e de fluidez de limites entre o sujeito da escrita e o sujeito empírico: “(...) tudo nos poemas é suposto/ excepto quem os escreve” (p.69).
Entre os pares antitéticos postos em tensão, os signos apontam um arco dialético: os bairros periféricos, vistos como “bairros malfazejos” à sobrevivência (miséria, violência) desdobram-se em bairros benfazejos para o exercício de uma sexualidade marginalizada (demanda, prostituição), compreendida na máxima do tango - “Mi suerte necesita de tu suerte” ou na ideia de que “A sinceridade despedaçada não é/ uma ética da devastação/ para o que de mim permanece em pé” (p.67). Surpreendem o grito e a ousadia de rondar o abismo e partilhar o vazio, a tentativa de vislumbrar estrelas caducas e ilusórias, no rescaldo de um território minado, nos flancos de uma visibilidade cada dia mais ameaçada, a sexualidade errante vivida mais como prática discursiva do que como paixão: “Outrora pude rir-me dos bairros malfazejos/ porque encontrei a blindagem do teu rosto/ encostada a cada ponte que levava/ de um lado do mundo ao outro lado da desolação” (p. 43). Correlações intertextuais à parte, talvez seja oportuno perceber nessa difusa narratividade a noção de poesia como escrita cultural incorporadora, de acordo com a hermenêutica de Edwar Said, na tentativa de abarcar nos escombros do país o espelho das turbulências do coração e da sexualidade. Reescrita de Mensagem, de Pessoa? Sim, mas por que não também reescrita de “Dois excertos de ode” ou “Passagem das horas” do mesmo Pessoa, ou de Viagens na minha terra, de Garret? Publicado há pouco mais de dez anos, parece ter saído do prelo, dada a veemência de sua atualidade.

MAGALHÃES, Joaquim Manuel. Alta noite em alta fraga. Lisboa: Relógio d’água, 2001.



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