Livro do Mês:
Joaquim Manuel
Magalhães constitui hoje um dos nomes tutelares da poesia
portuguesa. Tendo estreado individualmente em 1974, com o livro
Consequência do lugar, participou da experiência
ousada de Cartucho em 1976. De lá para cá tem
publicado regularmente, alternando a produção poética
com uma atenta reflexão sobre a poesia portuguesa
contemporânea, como atestam três fundamentais livros de
crítica - Os dois crepúsculos (1981), Um
pouco da morte (1989) e Rima pobre (1999. É ainda
autor de um exaustivo ensaio sobre o poeta Dylan Thomas, como parte
de sua integração acadêmica. Em outra área
também tem se empenhado, com traduções
reconhecidas e premiadas de poesia grega e espanhola contemporâneas.
Personalidade polêmica, de convivência entre a aspereza e
o intratável, atualizou no contexto literário português
das últimas quatro décadas alguns lances típicos
de um “enfant terrible” da estirpe rara de um Jean Cocteau ou de
um Rimbaud. O leitor de antologias e recolhas de poesia dos últimos
trinta anos conhece um pouco de suas recusas e sonegações.
A poesia
estampada em Alta noite em alta fraga revela uma severa
vigilância sobre a expansão lírica, na busca de
um equilíbrio entre a dicção individual e o
grito asfixiante num repertório temático de amplas
dimensões. A recepção positiva a este livro em
Portugal, à época do lançamento, revelou-se
unânime, resenhas e comentários ressaltando a altíssima
tensão poética. Como se tratasse de uma obra única,
desconectada da produção anterior. O que é um
tanto falso: as recorrências a motivos de outros poemas são
várias; em especial duas, de forte impacto: a consciência
da escrita e do sujeito. Algumas posturas, disseminadas em torno da
contaminação da escrita pela experiência,
inscrevem-se, ainda que aparentemente desconexas ou refreadas:
“Escrevo para não esquecer:/ o silvo de um muro, uma chave
quebrada,/ tudo o que da alameda já não vejo/ e quando
descia do alto do adro/ para dentro das tuas mãos” (p.41),
reelaboração de um eixo nodal de Alguns livros
reunidos, através de
assertivas como “Prefiro a arte de esquecer à de
lembrar...” (“Contava-me das viagens nocturnas”). Reforçando
a intratextualidade, lemos “Detesto o esteticismo, os que seguem/ a
literatura, quero um corpo habitual/ adormecido na madrugada...”
(p.75), reverberando alguma atmosfera dilacerada e cética
presente no livro Uma luz com toldo vermelho - “Detesto a
poesia”. E o que dizer dos bares cuja música “atenuava um
pouco/ a pretérita euforia das ruas” (p.58) retomando as
caves suspeitas de livros anteriores? Ou como não aproximar
idiossincrasias nos modos de enunciação, tais como
“Tudo o que me dói enterra-se/ no pátio do detonador”
(p.71) em ressonância a modulações análogas:
“Começo onde a memória dói” de Alguns
livros reunidos ?
Como acontece nas grandes
intervenções no tecido cultural de uma nação,
o rescaldo assume proporções alarmantes, como se de uma
pós-guerra civil se tratasse. Ficam aparentemente em plano
secundário as postulações subjetivas e o
desespero diante da utopia desmantelada. Está em causa o
balanço de um país e de uma época, repensados
através de uma poderosa lucidez e de uma radical veemência:
“Os ruídos sobem de qualquer lugar,/ sintetizadores,
martelos, desabamentos / uma percussão alheia a qualquer
justiça./ Nenhuma janela que não fale/ da construção
administrativa dos piores instintos./ Todo o lixo do humano feito
sebo/ em qualquer lugar. Ainda que me digam/ que vivemos em
democracia eu digo/ que não sei” (p.78).
A cidade,
outrora espaço de civilizada vizinhança e conhecimento,
é revelada como lugar de devastação e bárbaro
consumismo: “Aos balcões de cafés de azulejo,/ com
telemóveis pendurados nos cintos/ e os cartões de
crédito em dente na carteira” (p.79). A consciência
de que o progresso aporta consigo a destruição e a
miséria é contígua à ideia de poesia como
linguagem de denúncia, não pactuada com a erosão:
“Cada próspera cidade tem no seu meio/ uma cidade de
subnutrição, crianças mortas,/ desalojados,
desemprego” (p. 9). E, sobretudo, no bojo do desencanto diante de
utopias globalizadas, a sucessão de logros e enganos corrói
a certeza de que o sistema urbano um dia representou a síntese
positiva do progresso e igualdade de oportunidades: “O ódio
étnico, o rodeio do nacionalismo,/ os padrões de
migração que mudam/ imensas cidades povoadas de
despovoamento”
(p.11-12).
A contrapartida subjetiva do
livro, atravessada pelo desejo, indicia, a seu modo, com a habitual
síntese de sutileza e contundência, também um
balanço, por sua vez irônico e amargo: “...O dia de
depois é inteiramente inútil/ e temos de nos bastar com
o prazer de estar só” (p. 61). A interface da demanda
erótica, menos prestigiada pela recepção, se
ressente de um confronto conturbado com o fluir do tempo,
configurando o poema como o espaço desamparado da memória,
aquilo que resiste ao apagamento: “Eu digo para mim que é
esta/ a utilidade da poesia,/ a lembrança” (p.60). O uso de
vocábulos raros e preciosos, em desuso no dia-a-dia, nos
títulos de alguns poemas (“Valvulina”, “Arandela”,
“Adiafa”, “Acendimento”, “Columbário”) constitui
mais um traço a apontar para a poesia como espaço
daquilo que não encontra eco no mundo real. A experiência
erótica, com aceno na intimidade e no afeto, surge como uma
das mais singulares aventuras do sujeito, ainda que em inusitadas
manifestações: “Esta noite dormi com os amantes/ que
tinham morrido. Ouvia-os/ no espaço por onde ondeia o nada. //
(...) Emprestam à minha mão o sexo/ que também
eles um dia prenderam” (p.44). O sujeito vê-se fragmentado e
terrivelmente devastado num presente sem horizontes e perspectivas,
assolado pela idéia do tempo que avança para toldar uma
sensibilidade prestes a despedir-se do mundo dos prazeres: “Ficarei
entregue à velhice que começa/ e em breve fugirá,
dado à assombração,/ gases, flatulência,
desaires” (p.64).
A dimensão trágica e impetuosa desta lírica
pós-moderna de certa forma parodia as íngremes
apóstrofes românticas, em que pesem a ênfase à
noite e referências mortuárias (“Com tanto túmulo
para visitar.” p.47), além das inúmeras alusões
à doença do século - “um vírus que nos
deixou entregues/ ao anjo sem guarda” (p.27); “Tenho medo das
manchas, dos lugares/ dos gânglios, da primeira impotência”
(p.74). Da altura dessa noite e dessa fraga
descortina-se o arejado espectro de um mundo em erosão, seja
na vertente maior (o país), seja na esfera menor (o sujeito):
“Teve o que todos tinham, em quantidade escassa,/ até
cobrir-se de desterro e de ilegais” (p.77). O azedume atinge
indiscriminadamente tanto as potestados do Olimpo, como os detentores
do poder. A devastação da cidade é metonímia
da devastação subjetiva, as experiências de ruína
se sucedem: “Ao alto dessas ruas que Lisboa já não
tem/ havia um andar quase arruinado/ (...) No vagar desse
desmoronamento/ essa ruína foi tua e foi minha,/ o seu reboco
de cal, a pele refém,/ a cisterna petrificada” (p.53). Por
mais que pareçam bizantinas as analogias, não há
como ignorar a matriz romântica: os cimos, as viagens na minha
terra, as relações com os mortos, o isolamento
inspirado do vate, os envios à tradição cultural
(Antunes/Esteves/ Garrett/Pessoa), a busca de identidade coletiva
diante de pinhais extintos.
Nessa escrita em ziguezague, cumpre recortar de “Arqueiro”
passagens emblemáticos de uma proposta poética radical
(na esteira do famoso poema “Princípio” de Os dias,
pequenos charcos, retomado num ensaio sobre Antônio Osório
incluído em Os dois crepúsculos): “Voltar ao
real, sim. Como o disse/ quando outros se refugiavam/ na linguagem da
linguagem” (p.69). A ideia retorna em “Mãe-da-lua”: “Mas
o poema fala, fala de si,/ apanha o real porque nele está /
quem o escreve, que sou eu...” (p.38). Os traços gerais da
poesia de Cartucho retornam modalizados em novo contexto: o regresso à subjetividade
discursiva, a revitalização da narratividade, o retorno
ao cotidiano asfixiado e a descoberta da dimensão erótica
do corpo. Desfeitos os laços de ruptura com a linguagem
poética tradicional e as ilusões eufóricas da
inovação, o poema se faz numa linha de diálogo
com o passado e de fluidez de limites entre o sujeito da escrita e o
sujeito empírico: “(...) tudo nos poemas é suposto/
excepto quem os escreve” (p.69).
Entre os pares antitéticos postos em tensão, os signos
apontam um arco dialético: os bairros periféricos,
vistos como “bairros malfazejos” à sobrevivência
(miséria, violência) desdobram-se em bairros benfazejos
para o exercício de uma sexualidade marginalizada (demanda,
prostituição), compreendida na máxima do tango -
“Mi suerte necesita de tu suerte” ou na ideia de que “A
sinceridade despedaçada não é/ uma ética
da devastação/ para o que de mim permanece em pé”
(p.67). Surpreendem o grito e a ousadia de rondar o abismo e
partilhar o vazio, a tentativa de vislumbrar estrelas caducas e
ilusórias, no rescaldo de um território minado, nos
flancos de uma visibilidade cada dia mais ameaçada, a
sexualidade errante vivida mais como prática discursiva do que
como paixão: “Outrora pude rir-me dos bairros malfazejos/
porque encontrei a blindagem do teu rosto/ encostada a cada ponte que
levava/ de um lado do mundo ao outro lado da desolação”
(p. 43). Correlações intertextuais à parte,
talvez seja oportuno perceber nessa difusa narratividade a noção
de poesia como escrita cultural incorporadora, de acordo com a
hermenêutica de Edwar Said, na tentativa de abarcar nos
escombros do país o espelho das turbulências do coração
e da sexualidade. Reescrita de Mensagem, de Pessoa? Sim, mas
por que não também reescrita de “Dois excertos de
ode” ou “Passagem das horas” do mesmo Pessoa, ou de Viagens
na minha terra, de Garret? Publicado há pouco mais de dez anos, parece ter saído do prelo, dada a veemência de sua atualidade.
MAGALHÃES, Joaquim Manuel. Alta noite em alta fraga. Lisboa: Relógio d’água, 2001.


Nenhum comentário:
Postar um comentário