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segunda-feira, 6 de agosto de 2012

João Baptista Santiago Sobrinho

Livro do mês:

      Alguns livros instalam-se como artefatos estranhos ou herméticos, não alinhando-se às convenções do gênero. É o caso de Nimuendaju, pesado volume de 365 páginas, de autoria de João Baptista S. Sobrinho, sobre o qual nada se escreveu, relegado ao olvido imerecido. De forte impregnação regional, elaborado em linguagem retorcida e marcada por um epigonismo em relação ao legado de Guimarães Rosa, o romance beira as dimensões do realismo mágico, de mistura a ingredientes grotescos e burlescos. A influência linguística de Rosa, excessiva e um tanto despropositada, parece decorrer de admiração exacerbada pelo mestre de Cordisburgo: o acadêmico João Baptista assina diversos ensaios sobre temas rosianos. Assume, no livro enfocado, um estatuto de narrador ungido para criar uma nova linguagem, secundado por processos arcaicos ou de aglutinação, no encalço de corruptelas facilmente assimiláveis por conta do dialeto regional. Assim, o leitor depara-se a cada parágrafo com expressões saborosas, algumas obscuras, procedentes dos veios arcaizantes ou de neologismos, tais como: desgrenho, laravinto, polvorinho, fumaça de bironhas, amento, carirrostras caretas, escarabéus, gurugunha, esbodega, engriguilho, poça sanguina, coisa cavernuda, caruara. Não obstante a roupagem exuberante, não se pode negar a força de um escritor nato, consciente de sua prosódia, mas que acredita no seu ofício. A crença no poder transfigurador da linguagem, a urgência de uma palavra nova, a reprodução fonética do falar caipira e de fórmulas mágicas de cura constituem uma contribuição positiva. 


      "Não deve o leitor ser delicado à maneira dos tintins. Dois dedos não são boas pinças. Antes ver curto, em cutiladas. Danificando. Pra esfúrdia fazer sentido, dê o tapa. Escrever é um crime de amor, combina-se pelas costas, com aquilo que vem munho de redemunhos. Os mundos, quaisquer, se inventam, malgrado os quereres das pessoas, revezes doidos, assim, por sugestões, sei lá onde. Existirão forças que agulham tricotando tricas? (p.44)"
      Os casos narrados envolvem uma multifacetada galeria de tipos e seres exóticos, virgens desvairadas, trancadas em quartos escuros, padres que divulgam os pecados dos fiéis, curandeiros alucinados, poetas delirantes, iluminados dervixes, frades obstinados, pseudo cientistas aloprados, filólogos provincianos, lazarentos abandonados, coronéis abastados e violentos, prostitutas arrependidas, toda uma curiosa comunidade desvalida e possessa, a escória sebenta do sertão primitivo. No limite destrambelhado entre a loucura e a normalidade. 
      Se a unidade no plano linguístico é alcançada, o mesmo não se pode afirmar do arcabouço diegético. Codificado em registro indígena, o título Nimuendaju, cuja tradução seria aquele que faz o próprio caminho, apesar da amplitude sugestiva, revela-se insuficiente para outorgar uma unidade temática às várias histórias. Seria interessante rever o autor, criador de expressivas descrições, em outro momento, livre das peias e empréstimos rosianos.

SANTIAGO SOBRINHO, João Baptista. Nimuendaju. Belo Horizonte: O lutador, 2004.

Um comentário:

  1. João Santiago é um grande escritor. Seus textos são instigantes e provocativos. Nimuendaju é um romance para apaixonados pela escritura e pelo esmiuçar do significante.
    Concordo com você, Edgard, o que incomoda um pouco neste livro é saber dos afetos envolvidos pelo mestre de Cordisburgo. Afinal, ter um precursor assim, tão grande e tão evidente,não é fácil.
    abraço de um outro joão.

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