As mesmas palavras
Osvaldo
André de Mello retorna às livrarias e ao público,
ao lançar sua sexta coletânea, As mesmas
palavras, que dialoga,
intencionalmente, com a totalidade de sua produção
poética até agora e, como se fechasse um círculo,
com o volume de estreia, A palavra inicial. No
intervalo, foram publicados: Revelação do
acontecimento (1974),
apresentado por Henriqueta Lisboa; Cantos para flauta e
pássaro (1983), com
prefácio de Stella Leonardos; Ilustrações
(1998) traz apresentação
de Angelo Oswaldo de Araújo; Meditação
da carne (2002) com homenagem
a Dante Milano. Num
registro lírico, de intensa concentração,
recortado por esgarçados fragmentos narrativos, o novo livro
presta-se, à luz do título e de traços
periféricos da capa, a ser considerado sob dois enfoques: o
empréstimo de fragmentos de Onestaldo de Pennafort,
configurando uma vertente neosimbolista; a reedição de
poemas extraídos de livros anteriores, agrupados em linhas
temáticas recorrentes. Estes dois índices resultam
ampliados e refinados, quando se refere a precoce e madura estreia,
em 1969, à
época saudada numa frase por Carlos Drummond: “A
palavra inicial abre de maneira
expressiva sua caminhada na poesia”. O poeta contava dezenove anos.
Composto por seis partes, das
quais cinco são constituídas de poemas inéditos,
o livro revela uma presença sólida no contexto da
produção poética brasileira nos dias que correm,
além de abarcar uma peculiar trajetória, construída
sem alarde, um tanto identificada à “sombra das montanhas”, através da postura de encantamento e crítica diante da paisagem e história
mineiras. Esta imagem, inscrita no pórtico, além de
referir um aspecto da mineiridade, pode sinalizar também a
projeção restrita da produção do autor,
se comparada à ostensiva visibilidade da obra de Adélia
Prado, companheira de geração. O compromisso com o
patrimônio histórico motivou uma leitura crítica
abrangente da prefaciadora, Alba Valéria Niza Silva, em
dissertação de mestrado (PUC Minas, 2008).
De aparente simplicidade, o
conjunto indicia amadurecimento, busca de síntese, riqueza de
citações culturais, adensamento na percepção,
interesse metalinguístico, controle do impulso erótico,
mergulho no legado da tradição. Poemas curtos, densos
de experiência, vazados em linguagem clara e imagens
fulgurantes, alternam-se ao lado de outros mais elaborados, sempre
discretos, num discurso despojado, em tom de quem partilha um
segredo, embora sem concessão à confidência
íntima.
O pendor reflexivo, subjacente à
homenagem a Onestaldo de Pennafort, além de referendar uma
chancela, um recorte expressivo, combina-se a vários recursos,
suficientes para instaurar uma obstinada atmosfera simbolista: a
ênfase na sugestão, o uso de ritmo e metro ajustados à
musicalidade, a revitalização das maiúsculas, a
ideia de realidade toldada por névoas e sombras, incursões
no inefável e nas trilhas do projeto alquímico. Esta
disponibilidade ao código das correspondências entre o
concreto e o abstrato, a confluência entre poesia e loucura, a
rarefação de limites entre o real e a fantasia, o sonho
e a vigília, constituem substratos caros à linguagem
poética em geral, requisitados de forma sistemática nas
tendências de mais forte impregnação subjetiva,
hermética e esotérica – observadas no Barroco,
Romantismo, Simbolismo e no Modernismo de feição
espiritualista. Em alguns poemas, elementos ligados aos rituais de
iniciação, à busca da essência e aos
mecanismos secretos da percepção são decisivos,
como se observa em “O Mistério”: “Aura de Arcano,/ sob o
vasto manto da noite/ diante dos olhos da Veneração
acesos// O Mistério sorri/ e nada diz.// A Prudência se
refugia/ no silêncio cauteloso”. Mas este caminho pelas
sendas do nebuloso, desconhecido e enigmático também
acolhe notas coloridas, leves e suaves, como em “Surpreendi a
Manhã”:
Surpreendi a Manhã
caminhando indecisa
sobre o silêncio e a
imobilidade
que a Noite esquecera para trás
com seu cobertor de brumas.
(...)
Surpreendi a vegetação
molhada
e ali o Sol depositava a custo
raios de luz crescente.
(Da esquerda para a direita, Paulo Bernardo, Osvaldo André e eu, no dia 12 de maio, na Livraria Quixote, Savassi, Belo Horizonte)
Trata-se, então, de um
recuo aos expedientes simbolistas? Não, detrás dos
processos, restaura-se o interesse em recusar a expressão
direta e racional, ressurge a forma aprofundada e alargada de ver e
dizer as coisas, e assim tornar a linguagem maleável, como a
água absorvida pela esponja, para captar a realidade fugidia:
“Vem da água da Terra/ - O poeta é uma esponja - / o
corpo sutil do texto” (“Poética”). O trabalho do poeta
consiste em depurar a visão para “ver o que se não vê”,
capacitar-se para alcançar o lado oculto da realidade (“A
visão preparada”). Está em causa não mais
olhar de forma passiva as coisas, mas tentar compreender o movimento
do mundo: “Há uma força perigosa no tempo/ e tece a
inédita coroa de trovões./ É um sinal. Todos/
Viram. Alguém leu?” (“O Sinal”). A leitura atenta da
matéria e do contingente descortina relações
invisíveis e escondidas, numa irradiação
tendente ao infinito.
Com base em teoria de base
idealista, elaborada pelo místico sueco Swedenborg, que
pressupunha a toda matéria uma correspondência
espiritual, abstrata, divina, os simbolistas opuseram a
correspondência circunscrita aos limites da natureza. Cabe ao
homem desenvolver a integração plena com as realidades
terrenas que o rodeiam, consciente de que todas as coisas, quando
providas de sentido, passam a agregar uma outra realidade, ainda que
volátil e sensível, doada não pela razão,
mas pelos sentidos. Aplicada à relação amorosa,
a correspondência sensorial é capaz de dar um sentido de
purificação (ou de perfeição) à
própria sensação de perda, na lírica de
Osvaldo André:
Uma
pessoa vira pensamento, por tempo.
De beleza atordoante, nem um grão
de areia.
Nem a lembrança do cheiro
restou perdida
pelos caminhos da rotina
abandonada.
Há uma ideia e uma lâmpada
votiva.
Incansavelmente e sempre, uma
ideia
e uma lâmpada votiva acesas,
que o alquimista espera ver um dia
transformar-se em corpo e alma, de
ouro.
(“De ouro”)
A
divulgação de alguns poemas de livros anteriores não
deve substituir a edição da poesia selecionada, em
futuro próximo. Sem o agrupamento por temas, uma vez que eles
se entrelaçam. “A poesia dos muros”, título da
última parte, recolhe exercícios intertextuais e
celebra a noção de arte como espaço do
verossímil e da intensidade. Se a linguagem poética
“ganhou sangue” (“Vamos e venhamos, camaradas!”), com Walt
Whitman, poeta libertário e turbulento, com os versos de As
mesmas palavras, ela se renova
por dentro, enfeita-se com a luz do suor que arde em todo verão.
MELLO, Osvaldo
André de. As mesmas palavras. Belo Horizonte: Veredas e
cenários, 2012. 128 páginas
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