Total de visualizações de página

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Osvaldo André de Mello

Livro do mês:

As mesmas palavras



       Osvaldo André de Mello retorna às livrarias e ao público, ao lançar sua sexta coletânea, As mesmas palavras, que dialoga, intencionalmente, com a totalidade de sua produção poética até agora e, como se fechasse um círculo, com o volume de estreia, A palavra inicial. No intervalo, foram publicados: Revelação do acontecimento (1974), apresentado por Henriqueta Lisboa; Cantos para flauta e pássaro (1983), com prefácio de Stella Leonardos; Ilustrações (1998) traz apresentação de Angelo Oswaldo de Araújo; Meditação da carne (2002) com homenagem a Dante Milano. Num registro lírico, de intensa concentração, recortado por esgarçados fragmentos narrativos, o novo livro presta-se, à luz do título e de traços periféricos da capa, a ser considerado sob dois enfoques: o empréstimo de fragmentos de Onestaldo de Pennafort, configurando uma vertente neosimbolista; a reedição de poemas extraídos de livros anteriores, agrupados em linhas temáticas recorrentes. Estes dois índices resultam ampliados e refinados, quando se refere a precoce e madura estreia, em 1969, à época saudada numa frase por Carlos Drummond: “A palavra inicial abre de maneira expressiva sua caminhada na poesia”. O poeta contava dezenove anos.
      Composto por seis partes, das quais cinco são constituídas de poemas inéditos, o livro revela uma presença sólida no contexto da produção poética brasileira nos dias que correm, além de abarcar uma peculiar trajetória, construída sem alarde, um tanto identificada à “sombra das montanhas”, através da postura de encantamento e crítica diante da paisagem e história mineiras. Esta imagem, inscrita no pórtico, além de referir um aspecto da mineiridade, pode sinalizar também a projeção restrita da produção do autor, se comparada à ostensiva visibilidade da obra de Adélia Prado, companheira de geração. O compromisso com o patrimônio histórico motivou uma leitura crítica abrangente da prefaciadora, Alba Valéria Niza Silva, em dissertação de mestrado (PUC Minas, 2008).
      De aparente simplicidade, o conjunto indicia amadurecimento, busca de síntese, riqueza de citações culturais, adensamento na percepção, interesse metalinguístico, controle do impulso erótico, mergulho no legado da tradição. Poemas curtos, densos de experiência, vazados em linguagem clara e imagens fulgurantes, alternam-se ao lado de outros mais elaborados, sempre discretos, num discurso despojado, em tom de quem partilha um segredo, embora sem concessão à confidência íntima.
     O pendor reflexivo, subjacente à homenagem a Onestaldo de Pennafort, além de referendar uma chancela, um recorte expressivo, combina-se a vários recursos, suficientes para instaurar uma obstinada atmosfera simbolista: a ênfase na sugestão, o uso de ritmo e metro ajustados à musicalidade, a revitalização das maiúsculas, a ideia de realidade toldada por névoas e sombras, incursões no inefável e nas trilhas do projeto alquímico. Esta disponibilidade ao código das correspondências entre o concreto e o abstrato, a confluência entre poesia e loucura, a rarefação de limites entre o real e a fantasia, o sonho e a vigília, constituem substratos caros à linguagem poética em geral, requisitados de forma sistemática nas tendências de mais forte impregnação subjetiva, hermética e esotérica – observadas no Barroco, Romantismo, Simbolismo e no Modernismo de feição espiritualista. Em alguns poemas, elementos ligados aos rituais de iniciação, à busca da essência e aos mecanismos secretos da percepção são decisivos, como se observa em “O Mistério”: “Aura de Arcano,/ sob o vasto manto da noite/ diante dos olhos da Veneração acesos// O Mistério sorri/ e nada diz.// A Prudência se refugia/ no silêncio cauteloso”. Mas este caminho pelas sendas do nebuloso, desconhecido e enigmático também acolhe notas coloridas, leves e suaves, como em “Surpreendi a Manhã”:

Surpreendi a Manhã
caminhando indecisa
sobre o silêncio e a imobilidade
que a Noite esquecera para trás
com seu cobertor de brumas.
(...)
Surpreendi a vegetação molhada
e ali o Sol depositava a custo
raios de luz crescente.

                  (Da esquerda para a direita, Paulo Bernardo, Osvaldo André e eu, no dia 12 de maio, na Livraria Quixote, Savassi, Belo Horizonte)

      Trata-se, então, de um recuo aos expedientes simbolistas? Não, detrás dos processos, restaura-se o interesse em recusar a expressão direta e racional, ressurge a forma aprofundada e alargada de ver e dizer as coisas, e assim tornar a linguagem maleável, como a água absorvida pela esponja, para captar a realidade fugidia: “Vem da água da Terra/ - O poeta é uma esponja - / o corpo sutil do texto” (“Poética”). O trabalho do poeta consiste em depurar a visão para “ver  o que  se não vê”, capacitar-se para alcançar o lado oculto da realidade (“A visão preparada”). Está em causa não mais olhar de forma passiva as coisas, mas tentar compreender o movimento do mundo: “Há uma força perigosa no tempo/ e tece a inédita coroa de trovões./ É um sinal. Todos/ Viram. Alguém leu?” (“O Sinal”). A leitura atenta da matéria e do contingente descortina relações invisíveis e escondidas, numa irradiação tendente ao infinito.
      Com base em teoria de base idealista, elaborada pelo místico sueco Swedenborg, que pressupunha a toda matéria uma correspondência espiritual, abstrata, divina, os simbolistas opuseram a correspondência circunscrita aos limites da natureza. Cabe ao homem desenvolver a integração plena com as realidades terrenas que o rodeiam, consciente de que todas as coisas, quando providas de sentido, passam a agregar uma outra realidade, ainda que volátil e sensível, doada não pela razão, mas pelos sentidos. Aplicada à relação amorosa, a correspondência sensorial é capaz de dar um sentido de purificação (ou de perfeição) à própria sensação de perda, na lírica de Osvaldo André:

Uma pessoa vira pensamento, por tempo.
De beleza atordoante, nem um grão de areia.
Nem a lembrança do cheiro restou perdida
pelos caminhos da rotina abandonada.
Há uma ideia e uma lâmpada votiva.
Incansavelmente e sempre, uma ideia
e uma lâmpada votiva acesas,
que o alquimista espera ver um dia
transformar-se em corpo e alma, de ouro.
(“De ouro”)

       A divulgação de alguns poemas de livros anteriores não deve substituir a edição da poesia selecionada, em futuro próximo. Sem o agrupamento por temas, uma vez que eles se entrelaçam. “A poesia dos muros”, título da última parte, recolhe exercícios intertextuais e celebra a noção de arte como espaço do verossímil e da intensidade. Se a linguagem poética “ganhou sangue” (“Vamos e venhamos, camaradas!”), com Walt Whitman, poeta libertário e turbulento, com os versos de As mesmas palavras, ela se renova por dentro, enfeita-se com a luz do suor que arde em todo verão.


MELLO, Osvaldo André de. As mesmas palavras. Belo Horizonte: Veredas e cenários, 2012. 128 páginas


Nenhum comentário:

Postar um comentário