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quinta-feira, 14 de junho de 2012

Jorge de Sena

         O escritor português Jorge de Sena nasceu em Lisboa, em 1919; morreu em Santa Bárbara, Califórnia, a 4 de junho de 1978. Produziu poesia, ficção, teatro, ensaio, crítica (de cinema e literária), tradução. A importância como poeta e ficcionista é indiscutível, seu romance  Sinais de fogo é um dos pontos altos da novelística em língua portuguesa, no âmbito do século XX. Como pesquisador, renovou os estudos sobre Camões e Fernando Pessoa. Como professor de Teoria da Literatura, Literatura Portuguesa e Inglesa, conviveu entre nós, no Brasil, de 1959 a 1965, primeiramente (1959 a 1961)  na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, depois em Araraquara (de agosto de 1961 a outubro de 1965). Viajou para os Estados Unidos a 6 de outtubro de 1965, dando sequência ao exílio, para lecionar Literatura Portuguesa e Brasileira em Madison, na Universidade de Wisconsin, depois em Santa Bárbara, Califórnia, até falecer. Era formado em engenharia civil, mas dedicou toda a sua vida às letras.



      O motivo da vinda de Jorge de Sena para o Brasil, em 1959, está ligado à sua posição política e a seu envolvimento em falhado golpe de Estado, contra a ditadura de Salazar. Obrigado a sair de Portugal, aproveitou o convite para o IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, realizado pela Universidade da Bahia, para se exilar voluntariamente no Brasil. A família, de oito filhos, viria depois. Toda a movimentação teria se dado, graças à atuação de amigos influentes. Paralelo ao magistério, desenvolveu longa colaboração no Suplemento Literário do jornal O Estado de São Paulo, fez grandes amizades no meio intelectual e deu continuidade à produção de sua obra. Após desvencilhar-se de inúmeras dificuldades burocráticas, conseguiu defender tese de livre-docência, versando sobre os sonetos de Camões, na Faculdade de Araraquara, em 1964. Seus principais livros: Perseguição, Coroa da terra, As evidências, Post-scriptum, Fiudelidade, Metamorfoses, Arte da música, Peregrinatio ad loca infecta, Conheço o sal (poesia);   O fisico prodigioso, Os grão-capitães, Sinais de fogo  (ficção); A estrutura de Os Lusíadas e outros estudos camonianos, Dialécticas da Literatura, Os sonetos de Camões e o soneto quinhentista peninsular (ensaio)correspondência com autores (Eduardo Lourenço, Virgílio Ferreira, Dante Moreira Leite).         

      Entre os lugares que Jorge de Sena teria escolhido, para trabalhar no Brasil, antes de ser acolhido pela Faculdade de Assis, estava Belo Horizonte. O que se sabe, como motivo do impedimento para que tal se concretizasse, teriam sido entraves burocráticos, questões de documentos. Pergunta-se: como exigir documentação impecável, completa, a quem era considerado persona non grata em seu país, de onde saiu fugido? Esse assunto por vezes me inquieta. Tenciono descobrir alguma coisa, consultando registros institucionais, para descobrir quem teria sido a pedra no meio do caminho de Sena para Belo Horizonte. Sem querer patrulhar quem quer que seja, nem dar azo às conjeturas sobre o que poderia ter sido a presença de  Jorge de Sena na Universidade Federal de Minas Gerais, uma certeza existe: foram questões menores, burocráticas. Para dizer o mínimo, sabe-se que a máquina burocrática pode ser usada, quando de interesse, pelas eminências pardas, como recurso para o expurgo ideológico. E são acionadas picuinhas, como faltam um carimbo aqui, uma assinatura acolá, um brasão e uma rubrica ali. Formalidades estéreis e inócuas. Sua obra teria sido outra?  Melhor, impossível.
      Desde que a revista portuguesa O tempo e o modo, em 1968, dedicou um número exclusivo a Jorge de Sena, o culto ao poeta não mais parou. Na década de 80, surgiram as primeiras dissertações e teses; os estudos foram se multiplicando. Vários nomes se destacam, entre os pioneiros na divulgação de sua obra: João Gaspar Simões, Adolfo Casais Monteiro, Eduardo Lourenço, Eugênio Lisboa, Luciana Stegagno Picchio, Eduardo Prado Coelho, Joaquim Manuel Magalhães, Luís Adriano Carlos, Fernando Guimarães, George Monteiro, Carlo Vitorio Cattaneo, Ángel Crespo, Frederick Williams, Fernando J. B. Martinho, Jorge Fazenda Lourenço, Ana Maria Gottardi Leal, Gilda da Conceição Santos, Márcia Valéria Z. Gobbi, Márcia Vieira Maia (as quatro últimas brasileiras). A seguir, fragmentos do conhecido poema "Em Creta, com o Minotauro".


Nascido em Portugal, de pais portugueses,
e pai de brasileiros no Brasil,
serei talvez norte-americano quando lá estiver.
Colecionarei nacionalidades como camisas se despem,
se usam e se deitam fora, com todo o respeito
necessário à roupa que se veste e que prestou serviço.

Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria
de que escrevo é a língua em que por acaso de gerações
nasci. E a do que faço parte e de que vivo é esta
raiva que tenho de pouca humanidade neste mundo
quando não acredito em outro, e só outro quereria
que este mesmo fosse. Mas, se um dia me esquecer de
tudo, espero envelhecer
tomando café em Creta
com o Minotauro,
sob o olhar de deuses sem vergonha.

O Minotauro compreender-me-á.
Tem cornos, como os sábios e os inimigos da vida.
É metade boi e metade homem, como todos os homens.

É aí que quero reencontrar-me de ter deixado
a vida pelo mundo em pedaços repartida, como dizia
aquele pobre diabo que o Minotauro não leu, porque,
como toda a gente, não sabe português.
Também eu não sei grego, segundo as mais seguras informações.

Com pátrias nos compram e nos vendem, à falta
de pátrias que se vendam suficientemente caras para haver vergonha
de não pertencer a elas. Nem eu, nem o Minotauro,
teremos nenhuma pátria.

Em Creta, com o Minotauro,
sem versos e sem vida,
sem pátrias e sem espírito,
sem nada, nem ninguém,
que não seja o dedo sujo,
hei-de tomar em paz o meu café.

SENA, Jorge de. Poesia III. 3ª ed. Lisboa: Ed. 70, 1989. (PLI)

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