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domingo, 6 de maio de 2012

Julián Fuks

Livro do mês

      
      Em Histórias de literatura e cegueira, Julián Fuks dispõe-se a contar cegueiras, a impossibilidade de ver folhas caindo ao chão. Não a cegueira em geral, os cegos anônimos. Mas, sim, as histórias relacionadas a três escritores que ficaram cegos: o argentino Jorge Luís Borges, o brasileiro João Cabral de Melo Neto, o irlandês James Joyce. No "Prólogo necessário", peça de inegável feição borgeana, adverte que não se intimida diante de recursos típicos de pirataria literária: "convém que prescindamos um pouco do caráter absoluto das autorias, e que possamos dar algum valor, por menor que seja, ao autor-plagiador". E ainda complementa: "falo daquele que - nos entremeios das histórias que reconstitui, adapta ou inventa - adota as soluções daqueles que admira, pois sabe que sua narrativa imprecisa e cambaleante jamais as encontraria".
      Exercício de biografia fragmentada, o trabalho resulta em densa reflexão sobre os mistérios da arte, as fronteiras da duplicidade, as margens invisíveis dos domínios do eu e do outro, os planos de intersecção entre realidade e ficção. Ainda que inteiriços e autônomos, os relatos comportam a possibilidade de duas leituras entrelaçadas: a do leitor comum e a do leitor crítico. A este último, não ficam despercebidos os diálogos e envios intertextuais, subjacentes na elaboração das narrativas. Nos dois casos, leituras proveitosas e agradáveis, como se o livro se assemelhasse às bonecas russas, aquelas que trazem  uma réplica no seu interior. Além do conhecimento da obra do autores, acrescido da fidelidade ao estilo e motivos abordados, o resultado final denota leitura e análise de seus biógrafos e glosadores, atenta e detalhadamente referidos, em postura ética nem sempre observada. Ainda que sensível à diversidade e liberdade do enfoque ensaístico, a opção pelo enquadramento ficcional se faz com expressiva desenvoltura, nos três recortes.
       Alguns detalhes do cotidiano têm o condão de iluminar aspectos da obra, como pode ocorrer também o inverso. A dimensão fantástica, a ideia de circularidade, a criação de um universo alternativo que aposta na duplicidade ressurgem na recriação dos últimos dias de Borges, num hotel de Genebra. O diálogo de João Cabral com a cultura espanhola será decisivo para a compreensão do impacto pungente da cegueira vivenciada nos últimos sete anos do poeta, atento ao elemento concreto e visual e que desdenhava o excesso de abstração da cultura nacional. Para o poeta que afirma que "poema é coisa de ver", a cegueira é uma devastação definitiva - "não ver mais o "verde ácido das plantas de cana". O que poderia ser metáfora da falta de conexão plena com a realidade, a redução da visão, decorrente de cirurgias de olho a que Joyce se submete, acaba por desenvolver um efeito inesperado, num discurso erudito, caprichoso e delirante, capaz de captar "as mil complexidades da mente" e o sentido dos gestos triviais.

FUKS, Julián. Histórias de literatura e cegueira. Rio de Janeiro: Record, 2007.
   

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