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quinta-feira, 8 de março de 2012

Domingos Carvalho da Silva

     

      Nascido em Vila Nova de Gaia, em Portugal, Domingos Carvalho da Silva (1915-2004) vem com nove anos para o Brasil. Muito jovem passa a atuar em movimentos culturais, cria revistas e publica poemas. Forma-se em direito pela USP (1934), traduz Neruda e participa ativamente de congressos e comissões de literatura. Seus principais livros de poesia: Rosa extinta (1945), Praia oculta (1949), Girassol de outono (1952), Vida prática (1976). Pertence à geração de 45 da poesia brasileira, rótulo por ele criado, junto com Péricles Eugênio da Silva Ramos, Geir Campos, Ledo Ivo, Mauro Motta, Afonso Félix de Sousa, Deolindo Tavares, Bueno de Rivera, Darci Damasceno. Foi agraciado com o Prêmio Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras (1950) e com o Jabuti, pelo livro Vida prática (1977).

      Em Rosa extinta, sua poesia revela preocupação social, evidente no poema “Autobiografia”:

           (...)
      Sangue do povo me fala
      nas veias aburguesadas:
      é a voz de cem gerações
      com o arado sobre a terra.
            (...)
      Antes ele havia escrito:
      Sou filho do povo obscuro
      seixo perdido no mar,
      por isso sentiu desde cedo:

      ...a galope sobre o mundo
      os corcéis da iniquidade
      e compreendeu que apesar de
      seu diploma era irmão de
      todos os homens que lutam
      pela sua libertação.

      Sobre Rosa extinta escreveu Sérgio Milliet em 1946, com propriedade e visão prospectiva:
      “Domingos Carvalho da Silva é um desses poetas novos que se apresentam já depurados, resolvendo seu problema poético pela verticalidade da penetração e pela decantação do ritmo. Ao mesmo tempo que se insurge contra o barroco formal do modernismo de 22, Carvalho da Silva tenta renovar a temática atacando sem receio a expressão das emoções cotidianas e se imiscuindo na vida coletiva. Esse belo entusiasmo jovem pela poesia social, essa fé na comunhão, essa aspiração à comunicabilidade, talvez se percam com o amadurecimento, e o poeta, tal qual Cecília Meireles, se compenetre afinal da inexorável solidão em que terá de viver. Mas a experiência atual dará sem dúvida maior densidade à sua expressão futura” (MILLIET, 1981, p.173).
     
      Do livro seguinte de Domingos Carvalho da Silva, Praia oculta, marcado pela riqueza de imagens e sutileza de ritmos, transcrevo, seduzido pelas subalternas pontes, fragmentos do “Poema explicativo”:

      Inúteis são os voos. Inúteis são os pássaros.
      Silenciosas sombras tudo extinguem.
      Como vagas de um mar longínquo e frio
      são de inúteis palavras estes versos
      pois o calado tempo esmaga tudo.

      Moro num rio inútil que caminha
      entre margens de musgo e subalternas
      pontes e águas que refletem
      estrelas, luminárias, desencanto.

      Os peixes não obstante já não dormem
      são inúteis os sonhos e as amarras
      que nos prendem ao cais...

CUNHA, Fausto. Aproximações estéticas do onírico. Rio de Janeiro: Orfeu, 1967.
MILLIET, Sérgio. Diário crítico IV. 2 ª ed. São Paulo: Martins, 1981. (1946)



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