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segunda-feira, 5 de março de 2012

Antonio Olinto

Livro do mês: Sangue na floresta

       Poeta, crítico literário e romancista, Antônio Olinto nasceu em Ubá, Minas Gerais, em 1919 e morreu no Rio de Janeiro em 2009.  Manteve durante vinte e cinco anos a coluna "Porta de livraria", de crítica literária, no jornal O Globo. Ocupou a cadeira 8 na Academia Brasileira de Letras. Criou na década de 60 do século passado o Prêmio Nacional Walmap, que revelou talentos como Oswaldo França Júnior, Assis Brasil, Alina Paim, Benito Barreto, Garcia de Paiva, Aguinaldo Silva, Gerardo Melo Mourão, Myrtes Campelo. Conforme revelou, deve aos estudos em seminário católico (Campos, Belo Horizonte), quando pretendia ser padre, o amor pelas palavras e a "sensação de nunca mais poder desejar algo maior". Em seu currículo consta ainda a diversificada carreira como conferencista internacional (Estados Unidos, França, Suécia, Portugal e vários países de África), tendo proferido em torno de 150 conferências e a atuação como adido cultural em embaixadas brasileiras (na Nigéria e na Inglaterra).  O conhecimento da terra e dos costumes do povo africano foi a base para a elaboração de seu primeiro e mais importante romance, A casa da água, lançado em 1969, acolhido com boa fortuna crítica, traduzido para o francês, inglês, italiano, búlgaro, sueco e polonês, que o projetou como um dos grandes ficcionistas brasileiros. Movimentando mais de cem personagens, a intriga estende-se por dois continentes, focada na saga de uma família de negros nascidos em Minas que vai em busca de suas origens africanas. Sua produção ficcional engloba em torno de dez títulos, entre os quais O rei de Keto, O trono de vidroCopacabana, Os móveis da bailarina, Tempo de palhaço. De sua atividade como crítico literário ficaram dois livros marcantes, Cadernos de crítica (1959) e A verdade da ficção (1966). Foi um dos derradeiros críticos de rodapé, acompanhando no calor dos lançamentos a efervescência cultural de quase três décadas, em comentários obstinados, veementes, às vezes corrosivos, mas densos em informação literária e fundamentação filosófica. Egresso de severa formação tomista, não se intimidava diante de nomes consagrados, dando corda a um ou outro argumento afoito: lamenta, ao apreciar a liderança católica de Alceu Amoroso Lima, a "maneira encastelada" do autor de Idade, sexo e tempo, pouco envolvido com o cotidiano dos homens.  



      Sangue na floresta, lançado em 1992, reflete o ambiente favorável à reflexão sobre os temas ligados à ecologia e a notoriedade da exploração do ouro em Serra Pelada. O pequeno leque de ações e o incontornável primarismo das relações humanas, aliados à natureza selvagem do norte do Brasil, assumem proporções míticas, recriando um cenário de dimensões bíblicas. A intenção alegórica voltada ao interior subdesenvolvido do país com sua miséria e problemas estruturais sobejamente conhecidos impõe-se de forma impactante. Em torno de padre Antônio, forma-se na floresta amazônica uma comunidade de pessoas simples, a Clareira, desprovida de ambição financeira, mas onde vigora forte sentimento de liberdade. A princípio formada por índios, garimpeiros, ex-prostitutas, estrangeiros e ex-guerrilheiros, a aldeia cresce, com a chegada de pessoas que desequilibram os princípios de solidariedade e harmonia. Antes pacífica, a aldeia passa a viver com homicídios e conflitos que atingem dimensão internacional. O desenlace da trama é previsível: do nada surge alguém que se proclama proprietário da terra (um grileiro), exigindo a desocupação da área. Os problemas acirram-se na medida em que os aparelhos repressivos do Estado se instalam na região. Esta a denúncia da obra: a devastação da natureza e dos direitos fundamentais ao ser humano, promovida pelo terror do Estado. O reduto mantém-se livre e à margem da corrupção até que um juiz distante e sem rosto determina a instalação em seu núcleo de uma delegacia policial, com aparato militar e repressivo.
      O reduto do padre Antônio passa a ser encarado como réplica da aldeia de outro fanático religioso, o Conselheiro, também Antônio, que chefiou a resistência de Canudos. As semelhanças são evidentes: o fanatismo religioso, a ideia e vivência de liberdade, o isolamento, a ausência do Estado. O padre muda o tom de sua fala: "Meus queridos irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo. Nossa comunidade passou a ter uma subdelegacia. E uma cadeia. Se isto nos transforma em povoado oficial, reconhecido pelas autoridades do país, o que em princípio seria bom, por outro lado perdemos nossa liberdade, que era total, de agir, de trabalhar, de pensar, de rezar. Somos agora uma população vigiada" (OLINTO, 1992, p.118).
       No caso, os aparelhos estatais carregam consigo o paradoxo do extermínio, vinculado à pretensão de organização totalitária. A ficção mais uma vez reinventa direitos e experiências perdidos pela instalação da opressão institucionalizada. Seu alcance ético não abandona sua autonomia temática, mesmo quando subentende analogias estruturantes. "A cor da terra mudava, as árvores diminuíam de tamanho, o sol enchia o mundo, de repente o grupo se deteve para ver um aglomerado colorido e irregualar de casas, letreiros, fachadas verdes, janelas amarelas, pneus velhos jogados no chão, crianças correndo, poças dágua no meio da rua, gritos, mulheres com latas na cabeça, uma jovem índia, calça mínima e um pano amarrado sobre os seios, berrava com três meninos, um homem de chapéu de couro tentava puxar um burro que parecia empacado, de um bar cheio de gente um rádio posto no tom mais alto dava notícias" (OLINTO, 1992, p.73). Em relato linear, ritmo rápido, linguagem simples e rasa, cresce a habilidade técnica em agrupar blocos narrativos que engendram o avanço determinado pelas circunstâncias e eventos. O presente mistura-se, na mente de Antônio, a imagens obsessivas do passado em que frequentava o Seminário de Campos, no estado do Rio de Janeiro. Além do contraponto com a tragédia de Canudos, alguns elementos autobiográficos insinuam-se, se convocamos a informação da "nota da Editora", José Olympio, ao livro Cadernos de crítica: Antônio Olinto escreveu, no decurso de 1933, um Diário do seminário, relato da vida da comunidade, feito cada ano por um aluno. O padre Antônio não foi ordenado segundo as normas da Igreja, mas consegue convencer os moradores da Clareira: numa celebração da Paixão de Cristo, deixa-se pregar nas mãos com pregos reais. Mais uma grande realização ficcional de Antônio Olinto. Se algum senão existe, corre por conta da persistência de um discurso excessivamente homogêneo na condução da trama, repetem-se ocorrências e lances que são retomados na igrejinha, através do posicionamento e reza do religioso.

OLINTO, Antonio. Cadernos de crítica. Rio de Janeiro: José Olympio, 1959.
______. Sangue na floresta. Rio de Janeiro: Nórdica, 1992.

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