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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Helder Moura Pereira

Livro do mês:


         A relação entre poesia e desconstrução da subjetividade é um dos parâmetros da literatura moderna, naquilo que ela possui de mais avançado. Minar a soberania do eu, destruir os pressupostos da personalidade poética (fidelidade, sinceridade, coerência), jogar suspeição sobre o espaço subjetivo, tudo isso, no âmbito literário, provém da conhecida assertiva rimbaudiana de que o eu é um outro. Sem abolir o seu caráter visceralmente individual, a lírica, entretanto, não tem a presunção de negar a mediação do universal: o individual é mediado pelo universal e vice-versa, segundo brilhante e conhecida argumentação de Adorno em “Lírica e sociedade”. A ideia de subjetividade, porém, passa a comportar nos dias atuais outras nuanças, algumas até pouco tempo contraditórias, tais como a abertura para a alteridade, a pluralidade e a diferença, moldando-a aparentemente no contrário daquilo que ela se sabe. A flexibilidade do pensamento (e das pulsões) à diversidade sexual, étnica e cultural é transformada em mais-valia poética, impelindo para um estágio humano de interrelações e intercâmbios produtivos. As mutações da subjetividade na poesia contemporânea delineiam menos o interesse em decifrá-la do que reinventá-la, nem que seja para, na esteira de Blanchot, aceitá-la como o outro em mim, com a intromissão da exterioridade e a interface dos novos fluxos e conexões do contexto urbano.
         A poesia de Helder Moura Pereira (n.1949), em Mútuo consentimento, do outro lado do atlântico, segue nessa direção, em especial o poema “Em que língua gritas tu, meu pesadelo”: “Um assobio, uma pequena linha de seiva/ e os dois com falta de paciência, leva-me,/ poesia, na escada do desacerto e faz/ de mim um lavador de pés, um menino/ moldavo a limpar vidros nos semáforos”. Tomando-se a si próprio como objeto de reflexão, cabe ao poeta desenvolver um saber de si e do mundo; o sujeito poético de Mútuo consentimento assume uma postura niilista como forma de resistência, afirmando sem rodeios no poema “Alimento um do outro, conversas”: “eu sou um cantor de vazio”. A ênfase dada à metalinguagem, a reiterada alusão ao trabalho poético, (a nomeação obsessiva de um emblemático livro “de poesia”) acabam criando um jogo especular, outorgando à literatura um papel de resistência diante da opressão dos objetos e do estreito mundo do consumo. Segundo a formulação de Adorno, ao distanciar-se da sociedade, a lírica acentua o que nela existe de frio e hostil:

Seu distanciamento da mera existência torna-se a medida do que há nesta de errado e de ruim. Em protesto contra ela o poema enuncia o sonho de um mundo em que seria diferente. A idiossincrasia do espírito lírico contra a prepotência das coisas é uma forma de reação à coisificação do mundo, à dominação de mercadorias sobre homens que se difundiu desde o começo da idade moderna e que deste a revolução industrial se desdobrou em poder dominante da vida. (Benjamin et al, 1983, p.141)

A subjetividade dilacerada (o dilaceramento é uma constante dos niilistas) não se constrange em tocar o limiar do poço ou mesmo vislumbrar a fatalidade do próprio naufrágio, promovendo a aliança entre a dor e o sonho, (a lírica compreendida como a voz em que dor e sonho se acasalam, no entender de Adorno): “Sem amor a gente anda por aqui/ a gemer de dor por dentro, é a verdade/ pura e simples e o resto é conversa”, desabafa a voz lírica em “A morte afinal não custa nada, diz-me”. Noutro poema, a desenvoltura como o sujeito passa do universal para o individual surpreende: “Chegado a uma árvore, dessas árvores/ rectilíneas a que tiraram folhas breves/ para fazer chá contra as enxaquecas/ e os males dos joelhos, penso (é um frouxo/ pensamento, mas é um pensamento)/ que a vida passou e, sem amor, nada é”. Não menos surpreendente a fusão entre o sujeito, isento de resíduo de qualquer matéria, e a linguagem : “Nos teus braços estou quieto, canto baixo/ e adormeço. Sei que o amor, afinal, vem disto:/ não esperar de ninguém nada de nada”.
Joaquim Manuel Magalhães, referindo-se a Moura Pereira, afirma: “Devemos agradecer ao quotidiano e à mágoa verbalmente ordenada deste poeta que seja um dos poucos que nos lembram a necessidade de a poesia escapar aos lugares-comuns do tempo” (Magalhães,1981, p.274). As glosas críticas podem tornar-se matéria de poesia, configurando um processo de releitura do próprio percurso textual, como se infere nos seguintes versos: “Com cinco letrinhas apenas/ se escreve a palavra morte e se bem que/ a palavra morte ocorra vezes sem conta/ há uma outra palavra que não deixa/ de apertar o coração. Também cinco/ letrinhas apenas e é a palavra corpo”.
Em “Agora é só esvaziar a pasta dos itens”, são ainda feitas articulações entre amor/ mágoa, morte/corpo, universos sintagmáticos privilegiados na obra do autor, signatário de um verso paradigmático da atmosfera saturnina e melancólica de muita poesia européia contemporânea: “A mágoa é um vício, a ele volto/ pelas madeiras desta casa” (Pereira, 1990,196) – agora retomado: “Se calhar vais dizer que a seguir/ vem a palavra mágoa e um regresso/ aos primeiros tempos. Não vem nada”.
        Helder M. Pereira é um poeta ligado, desde a estreia coletiva, em 1976 aos poemas amassados de Cartucho, ao lado de Joaquim Manuel Magalhães, António Franco Alexandre e João Miguel F. Jorge, a uma escrita discursiva, marcada pela reabilitação da subjetividade, ambiguidade sexual, recusa da ênfase e uma linguagem límpida e rasa. Estes são nomes fundamentais da poesia portuguesa contemporânea, com uma produção diversificada e influência em vários poetas mais novos. A opção pelo verso discursivo e por um erotismo minoritário (mais ou menos visível em cada caso), a que o contexto luso dos anos 70 acrescentou tons libertários (a recusa à fragmentação e à ocultação do sujeito praticadas pelo grupo poesia 61, o aflorar de movimentos gays), transforma Cartucho num divisor de águas, a despeito da negação dos próprios autores. O título em análise é o vigésimo quarto de uma intensa produção, na qual se destacam Entre o deserto e a vertigem (1979), Sedução pelo inimigo (1982), Gestos de miradoiro (1984), Romance (1987), Carta de rumos (1989), Um raio de sol (2000), Lágrima (2002), Segredos do reino animal (2007).
        O traço inventariante desta poesia aponta para um enquadramento densamente reflexivo, em que pesem as reiteradas alusões ao duplo, as referências culturais, as querelas identitárias, as questões urbanas, a ambiguidade sexual e os jogos intertextuais, elaborados com notas de ironia e comedida expansão. Somem-se a este receituário o gosto em ultrapassar fronteiras, a vizinhança ostensiva do cotidiano, o distanciamento corrosivo, o desequilíbrio entre o excesso de explicações e a lucidez da escrita, como se lê em “Toda a gente sabe o número da praia”: (...) “porque/ ao escrever amigo é mesmo amigo e nunca/ aconteceram confusões de ciúme/ entre amizade sem sexo e sexo/ sem amizade”. A multiplicidade de explicações redunda inócua, tornando-se parte da própria confusão. Com o ritmo veloz, na apreensão da mobilidade urbana, o verso presta-se a desenvolver um movimento pendular, ora carregado de ressonâncias sugestivas, ora ajustado a um intento narrativo:

              “Vestido à jovem rico dos torneios
de tênis, a raiva terna e tensa
dos seus olhos outros olhos encontrou.
Era o som da bola no chão ou o coração?
(...)

O jogo fora interrompido por causa
da chuva, molhados, pregados à cadeira,
sem nenhuma gente nas filas, hesitavam
na aflição do primeiro passo. Mas,
como eram ambos do mesmo gênero,
ali ficaram a ensopar os sapatos
com as pernas a tremer, o coração
já normal, a trovoada a passar”.

        Se a narratividade já não surpreende tanto na poesia contemporânea, uma vez que as grandes narrativas atingiram o estágio da exaustão, a demanda amorosa permanece atuante e produtiva, talvez hesitante em espaços exteriores atravessados por fenômenos naturais ou contrafeita em situações acanastradas, porém cada vez mais ávida de claridade e mútua celebração.

PEREIRA, Helder Moura. Mútuo consentimento. Lisboa: Assírio & Alvim, 2005.

Referência bibliográfica:
BENJAMIN, Walter et alii. Textos escolhidos. São Paulo: Abril Cultural, 1983. Col. Os Pensadores.
MAGALHÃES, Joaquim Manuel. Os dois crepúsculos. Lisboa: A Regra do Jogo, 1981.
PEREIRA, Edgard. Portugal, poetas do fim do milênio. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1999.
PEREIRA, Hélder Moura. De novo as sombras e as calmas. Lisboa: Contexto, 1990. (Este livro engloba a produção do autor de 1979 a 1990)
______. Um raio de sol. Lisboa: Assírio & Alvim, 2000.
______. Lágrima. Lisboa: Assírio & Alvim, 2002.
______. Segredos do reino animal. Lisboa: Assírio & Alvim, 2007.
RIMBAUD, Arthur. Oeuvres complètes. Paris: Bibl. de la Pléiade, 1954.
(Uma versão deste texto foi publicada em Revista do centro de estudos portugueses. Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG, n.36, ju.-dez.2006, p.325-328.)

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