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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Lúcio Cardoso

    Livro do mês: Dias perdidos

      Grandes obras, aquelas que ficam ressoando para sempre em nós, assustam-nos, quando decidimos dizer alguma coisa sobre elas. Julgamo-nos pequenos para a empresa, procuramos uma rota de fuga qualquer. Mas os desafios nos atraem, vamos lá. Antes de prosseguir, lanço mão de referências e citações fundamentais. Retomo comentários de Sérgio Milliet, dos anos 40, quando o romance foi publicado. Num deles, reconhece ter sido 1943 um ano de grandes lançamentos ficcionais: "l943 deu-nos uma farta colheita de boa ficção. Terras do sem fim, Fogo morto, Dias perdidos, O agressor, (...) Quadragéssima porta (...). Rompemos o nosso isolacionismo e entramos na agitação do mundo. Saímos da aldeia para a metrópole" (Milliet, II, 1981,17). O volume II acompanha o ano de 1944. Noutro registro, após se confessar "habituado demais à sabedoria dos romancistas europeus que se valeram dos ensinamentos da psicanálise e o fizeram com grande perícia e excepcional cuidado da verdade científica",  o referido crítico expressa-se decepcionado com o último romance de José Lins do Rego (Eurídice) e prossegue: "Não há negar que desde algum tempo se vem observando, principalmente entre os mais jovens (estou pensando em Clarice Lispector, Lúcio Cardoso, Fernando Sabino, Adonias Filho, Julieta Drummond de Andrade) uma reação interessante contra o realismo, ou o pseudo-realismo do romance dos homens da geração de 30" (Milliet, V, 1981, 199). O volume V refere-se ao ano de 1947, no Diário crítico.


     Teria Lúcio Cardoso (1912-1968), com 31 anos na altura, atentado para um possível confronto com o tempo perdido de Proust, se nos fixamos no título: Dias perdidos? Embora pareça bizantina, a comparação faz sentido. Se levarmos em conta as convenções do romance psicológico, tudo procede e em grande estilo. O narrador mostra-se com pleno domínio dos recursos narrativos, acrescido de algo mais, os ornatos do virtuosismo e de certos requintes de sutileza e análise de comportamento. De imediato, alguns estereótipos precisam ser eliminados. Ha uma tendência equivocado de se relacionar o romance psicológico à presença de elementos ligados à delicadeza, à suavidade, ao devaneio. Fica-se tentado a juntar tudo sob a chancela do feminino. Nada mais falso. Confunde-se técnica narrativa, centrada na fixação de memória como feixe de intersecção entre o passado e o presente, a ênfase no primado da reflexão com visão de mundo sob o prisma da fantasia e da psicologia, no pior sentido que tal assertiva possa significar. O romance psicológico não prescinde de uma vigorosa elaboração, receptividade à dimensão metafísica, aos temas da consciência, do comportamento, do destino, abordados à luz da análise introspectiva. Não raro impõem-se digressões tangidas pela leveza e suavidade de tons, tudo aliado à lentidão narrativa, à densidade dramática, à riqueza de detalhes.


     Pode-se afirmar que, em Dias perdidos, Lúcio Cardoso alcança um estágio de depuração e esgotamento de processos e técnicas do romance psicológico. É precisamente a análise do comportamento, quase sempre flagrado sob o impacto de desdobramentos morais, o forte do narrador. E nesse aspecto Lúcio Cardoso é insuperável e desconcertante. A variedade de sugestões provocadas por uma situação ou um gesto, as nuances interpretativas, o efeito dramático de um detalhe da roupa ou de um móvel, tudo é repassado de forte intensidade. Os mínimos sobressaltos, as mais sutis sensações são delineados de forma expressiva e rigorosa, com o crescente interesse em expressar a totalidade de reação e condicionamentos externos, com seus reflexos internos, sua correspondência sob a forma de cadeia reflexiva. Se comparado com o romance atual, pode parecer um tanto arrastado e solene, em especial na progressiva passagem de um plano espacial para outro, (dos lugares abertos para o interior de casas), sem que se perceba mudança abrupta de tom. O autor manipula como ninguém os efeitos de mediação espacial.

      O romance é estruturado em três partes, todas com dezessete dilatados capítulos. O núcleo humano retratado abarca não mais que meia dúzia de personagens, alguns de complexo perfil, tais como Clara, Sílvio e Diana, outros lineares, como Chico, Áurea e Jacques. Tudo em compactadas 404 páginas, da mais sofisticada literatura brasileira de todos os tempos. O romance tem sido analisado como obra autobiográfica, tentativa de evocar a vida do pai do escritor Lúcio Cardoso, na figura esbatida do pai errante e nômade, sempre ausente de casa, à qual volta para morrer. Nesse sentido, são feitas ilações intertextuais com o livro de memórias da irmã do autor, Maria Helena Cardoso, Por onde andou meu coração. No final da 2ª parte, avulta a ruína física de Jacques, a luta contra a morte. Em especial, o sufocante final do cap.14 vai crescendo, com a mórbida sugestão de que a morte se aproxima, até que o vento da tempestade instala-se e apavora, fazendo sacudir a porta com "monstruosa mão". O motivo da porta, revelador das sensações de medo, agonia, insegurança, opressão e sufocamento, é explorado com mãos de mestre.

      Entre muitos, um dos interesses do livro é acompanhar, tendo em vista o intento autobiográfico, o perfil de Sílvio, porta-voz do autor Lúcio Cardoso. "Diana se afastou, erguendo os ombros. Sílvio permaneceu sozinho, olhando os grupos que riam e conversavam em torno da mesa, devorando sanduíches, doces e refrescos. O sol filtrava-se através das ramas do limoeiro e arrancava cintilações dos talheres espalhados sobre a toalha branca. Abelhas voavam sobre restos de bolos. Sílvio sentiu-se desamparado como se estivesse numa ilha deserta. É que ainda não tinha compreendido de que espécie de solidão era feita sua natureza, e naquele momento ainda lutava, bem longe ainda dessas tréguas que afinal se concederia um dia, quando em torno dele tudo estivesse realmente morto - não pela inexistência, como sua fugaz impressão de minutos antes, mas pela carência de importância, por tédio, pela compreensão de que tudo isto pertence a um domínio a que não é mais possível voltar quando se saiu um dia, ou melhor, quando Deus nos escolheu para caminhar do lado de fora" (Cardoso, 2006, p.284-285).

     Em raríssimos momentos, o narrador se intromete, através do uso do pronome possessivo de primeira pessoa do plural. Envoltas em análises sobre a evolução dos fatos e a ressonância sutil de um evento sobre outro, as descrições evoluem lentas, repassadas de digressões formatadas em registro apurado, em tom arrebatado e eloquente. Assim, como se o narrador não lograsse manter-se distante dos fatos narrados, alguns sinais ou dêiticos configuram processos de autobiografia: "Como tudo passava depressa, como os minutos se perdiam, sem que soubéssemos o seu valor" (Cardoso, 2006, p.159); "...o modo pelo qual perdemos os seres a quem mais amamos" (Cardoso, 2006, p.185). A tendência ao arrebatamento reflexivo, à eloquência e exaltação dramática, deve ser creditada ao gosto da época, a literatura dos anos quarenta. Nem assim o romance perde sua atualidade, a estrutura narrativa sofisticada e sua arrebatadora beleza.

CARDOSO, Lúcio. Dias perdidos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
MILLIET, Sérgio. Diário crítico. 2ª ed. São Paulo: Martins, 1981. Vol. II. (1944)
MILLIET, Sérgio. Diário crítico. 2ª ed. São Paulo: Martins, 1981. Vol. V. (1947)

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