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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Anelito de Oliveira

Livro do mês:    

     Como não lembrar a veemência, a presença lúcida e convicta, do jovem estudante, sempre além do desempenho normal? Editou nos anos 80 uma folha cultural, o Não, para a qual me pediu um artigo. Com a velocidade do foguete, estava depois nomeado editor do legendário Suplemento Literário do Minas Gerais, desempenhando com brilhantismo o cargo. Escrevia uns poemas de extrema sofisticação, imagens e ideias despregadas da experiência, as palavras querendo sair do papel para a rua, rodeadas de vida para todo o lado.
     Anelito de Oliveira é dos raros intelectuais disponíveis ao diálogo, lançado numa rede de produtividade e solidariedade. Dotado de uma despojada grandeza de alma, que parece saltar do corpo avantajado, jamais perde a delicadeza e o trato elegante. Dediquei-lhe um comentário crítico, publicado, com breves alterações, em dois livros: o meu Mosaico insólito e o volume III da coleção Literatura e afrodescendência no Brasil, lançado recentemente pela editora da UFMG, aqui comentada como livro do mês de novembro. Uma forma precária de retribuir à sua fidalguia de mulato, por ter citado meu nome entre aqueles que o teriam "movido" no projeto do livro Três festas, a love song as Monk, livro de 2004. Ao focar o ser humano excepcional que informa o poeta, destaco o culto da amizade, vivenciado como força capaz de rebentar a barreira do deserto.

      Três festas, a love song as Monk, livro denso, veloz, complexo, apesar do formato ascético, magérrimo, quase cinquenta páginas, traz o condão de misturar versos ligados à experiência a reflexões mais amplas, direcionadas à realidade maior do país, numa elegia alegórica fundada nas várias festas/faces (utopias e descalabros) da nossa identidade como grande nação. "O que a / Gente precisa é fazer muita pesquisa e/ / Mostrar para as pessoas preconceituosas/ Que os negros são muito importantes para/ O Brasil, mas sem briga, sem guerra". O trabalho com a linguagem poética não se faz em extensão, mas em intensidade e concentração.

     No poema um sujeito exercita a linguagem como forma de resistência, diante do consumismo selvagem e totalitário. A excessiva presença da realidade geo-gráfica não deixa de inscrever uma ruptura com os pressupostos politicamente corretos, numa rota de fuga às fórmulas aparentemente pacificadas. Engana-se quem vê nesta poesia o plácido refúgio da lírica ensimesmada. O esforço por compreender as razões históricas da realidade brasileira intersecciona-se com a busca desesperada do indivíduo: "Buscamo-nos, e tudo perdemos a cada movimento desta busca".
     O poema torna-se, assim, o lugar propício para dissolver as barreiras da asfixia e das totalidades paralisantes: "Enfrento./ Enfrento o todo./ Enfrento-te. (...) Enfrento-me". Autor culto e refinado, o poeta conhece a lição de Levinas de que "a necessidade de uma fera é inseparável da luta e do medo". As máscaras que insistem em nos proteger da tirania e da opressão, nos sucessivos embates existenciais, não conseguem camuflar a constatação de que somos desprovidos de segurança e as ideias de certeza e completude não passam de ilusão. "Estava, na metrópole, naquele espaço/ Sem lugar pra fragilidades". O livro é uma festa intempestiva e ousada na linguagem, de novo elaborada para desafinar o coro dos contentes. Dentre os recursos usados, vale referir o ritmo sempre renovado, o vertiginoso fluxo poético, as inusitadas articulações (ressoando os arranjos jazzísticos), o uso de expressões prosaicas, a travessia do exterior para o interior, do individual para o universal. A imagem de uma floresta, exterior ou íntima, fecha um dos poemas mais herméticos. Pouco importa, se uma ou outra, é precisamente essa hesitação que sugere a sua polivalência enigmática. 

     E não chego até a festa.

     Permaneço entre os fios
     de um tecido infinito.
     Nem calor nem calafrio,
     Nada me sabe nem resta.

     Contido, tal como grito
     dentro do rio, floresta


     OLIVEIRA, Anelito. Três festas - a love song as Monk. Belo Horizonte: Anome, 2004.

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