Total de visualizações de página

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Oiro de Minas


Livro do mês: Oiro de Minas, a nova poesia das Gerais


Alguns livros surgem estigmatizados como objetos de culto e admiração no próprio nascedouro. Estamos diante de um desses: Oiro de Minas, a nova poesia das Gerais, publicado em Portugal em novembro de 2007, com tiragem de 500 exemplares, em primeira e “única edição”, “com as características técnicas e artísticas aqui apresentadas”, conforme compromisso acordado entre a Editora, a organizadora e autores. À época do lançamento, em Lisboa, o livro mereceu o seguinte comentário do poeta e escritor Eduardo Pitta: “...impressionou-me a elevada qualidade desses poetas mineiros de agora, completamente desconhecidos em Portugal”. Ser publicado além mar, por si só, releva a importância do livro, tendo em vista a rica tradição e o elevado patamar da linguagem poética no país de Camões, Pessoa, Pessanha, Sophia Andersen, Fiama e Al Berto. O mérito da espinhosa tarefa, selecionar a nata da produção poética revelada em Minas a partir dos anos 80, cabe à jovem poeta suiço-italiana, a organizadora Prisca Agustoni, integrante dos quadros docentes da UFJF, por merecimento arrebatada de imediato à pertença da cultura brasileira, pela admiração que lhe devota. A consistência do projeto pode ser delineada através da cuidadosa, competente e sensível percepção dos desdobramentos de eixos temáticos e expressivos da moderna poesia brasileira nas Gerais.



Os nomes garimpados mostram-se caudatários  de modos e processos de três contextos tutelares do que se conhece de melhor da poesia brasileira (Oswald, Drummond, Concretos). Um contexto posterior à brilhante constelação de nomes mineiros, como Henriqueta Lisboa, Emílio Moura, Affonso Ávila, Laís Correia de Araújo, Affonso Romano de Sant'Anna e Adão Ventura. O rol de autores recolhidos não se constrange diante da grandiosidade da pirâmide: mostra-se representativo da ideia de escrita como partilha, intercâmbio e renovação do arcabouço artístico, como acentua Fernando Fiorese: “livro só existe no plural./ De modo que não há como abrir/ um único, sem com isso outro,/ e assim acionar a espiral/ que, par em par, outros abrirá”. Dez autores são convocados, alguns (complementando a assertiva de Pitta) também desconhecidos em sua terra: Eustáquio Gorgone de Oliveira, Donizete Galvão, Júlio Polidoro, Ricardo Aleixo, Maria Esther Maciel, Fernando Fábio Fiorese Furtado, Edmilson de Almeida Pereira, Iacyr Anderson Freitas, Wilmar Silva e Fabrício Marques. De cada um apresentam-se em torno de treze a catorze poemas, amostragem suficiente para dar conta dos rumos e percursos seguidos.

Nessa vertente, somos surpreendidos pela densidade lírica de uma voz singular e desafiadora, atravessada de um toque expressionista, com uma tendência à deformação e ao excesso, alcançada pelos versos de Eustáquio Gorgone: “A solidão ama/ corações completos./ É noiva que propõe/ tachonar a liberdade./ Visita qualquer um,/ criança ou adulto./ Brota nos travesseiros/ como flor de macela./ E muitas vezes arma/ seu camarim num tumor”. Na dicção coloquial de Júlio Polidoro, o pendor reflexivo hesita sufocado, reverberando a intrínseca ambiguidade da palavra: “e como, sendo ovelha, ser pastor,/ se a fala, como falso condutor,/ tem muitas e nenhuma direção?” Em lente de aumento, bifocal, a poesia de Donizete Galvão mira a realidade, com o aparente intento de fotografá-la, desvelando-a em camadas superpostas: “o berne/ plantado/ no lombo do boi/ estremunha/ ao ser cutucado/ com óleo queimado// o verme/ solapa/ a polpa da goiaba/ estremece/ na fruta sem forma/ caída no chão”. Para além dos sinais da decadência material (“a coleção de cacos de louça”, “o perecível”, “o cavalo baio com o olho cego”) as insistentes enumerações de ruínas e escombros do mundo real nesta poesia parecem funcionar como reflexo  do mundo interior – “inventário de perdas/ rol de inutilidades/ vasos vazios e quebrados”. O impacto entre a experiência e a realidade, esta quase sempre dotada de esmagadora beleza, vem à tona de forma aparentemente direta, numa expressão poética de fortes ressonâncias atávicas, no poema “Êxodo”, de Wilmar Silva: “comemos a fruta/ que o tempo madurou/ no ventre da terra// (...) miramos os pássaros/ e ouvimos gorjeios/ desfeitas as rédeas/ os potros sumiram”.

Por ser ficção, a poesia revela-se por vezes como investimento emotivo entre a sensação e as palavras, elaboração engenhosa de uma outra esfera de realidade, aplicada e apta a alcançar um efeito codificado pela percepção daquilo que se ignora. Tal como em versos de Maria Esther Maciel, de dosada sensualidade: “Te exila em minha teia/ me define com tua senha/ perenizando em meu corpo/ o teu mistério - / entre cortinas,/ no refúgio exato dos lençóis”. Experiência sensível expressa pela palavra, revelação de um outro mundo, paralelo ao mundo real, a poesia serve-se de elementos do cotidiano ou de uma cidade para logo evadir-se, em meio a sugestões lúdicas, como nos versos de Fernando Fiorese: “De quantas cidades estive,/ Diamantina tem o tamanho/ do corpo com que se ama e vive,/ com folgas e bolsos largos/ para acolher-nos no regaço”. Esta é uma escrita apurada na árida lição cabralina, decidida a simultaneamente desconfiar das certezas do mundo e seguir uma rota transgressora - “Como quem de viagem/ sabe o prazer de andar/ sem endereço ou idade,/ com a roupa amassada,/ também escrever comparte/ esse corpo sem abas”. Edimilson de Almeida Pereira não esquece o substrato afrodescendente, antes o convoca e integra como sintaxe libertária e agregadora: “Outra língua alicia o palato, não se quer instrumento de suicídio. Não pode ser engolida para selar o desejo. É para uso desobediente, sendo mais livre quanto mais nos pertence. A essa língua não se veda o devaneio, uma vez afiada a vida é tudo o que se queira”. Para Ricardo Aleixo, a poesia está irremediavelmente amarrada à errância urbana e à tentativa de decifrar no caos os sinais positivos: “Conheço a cidade/ como a sola do meu pé (...) // Como os cegos/ conheço o labirinto// por pisá-lo/ por tê-lo”. Iacyr Freitas mergulha no tenso exercício de interrogação sobre o mistério da existência e as ruínas da entrega amorosa - “levaram-me pelas mãos/ sobre o feno/ fizeram-me reconhecer/ os oceanos que me modelaram/ para o acaso // agora entendo/ o espasmo que rebenta/ dos alheios frutos/ a ferrugem e o claustro/ sob a magnitude que amo”. Fabrício Marques foge do tom solene e altissonante, com uma pegada de rap, num inventivo salto pelas trilhas da tradição: “a poesia/ não tem pressa/ não tem prazo/ não tem glosa// a poesia/ está em ramos/ está em rosa”.

Toda antologia vem marcada com as idiossincrasias de seu organizador, não há como fugir, toda escolha é subjetiva. Nesta os poetas alistados provêm de múltiplos sítios de experimentação da linguagem. É bom que tal ocorra, o que não quer dizer que o conjunto careça de um eixo. Por mais que se inscreva o sentido plural inerente à elaboração poética, os recursos retóricos emanam de vetores oriundos da densidade e da produtividade, antes de serem efeitos puramente decorativos. Por força das raízes ibéricas, os mineiros conservam um lastro de tradição barroca, a mesma que “testa o sentido, duvida de si mesma”, no dizer de Edimilson Pereira. A destreza e o bom gosto na mistura do léxico atual com o raro (ou arcaico) conferem ao poema um austero e sofisticado alcance no terreno da semântica. Brilhos a mais, em meio a tantos quilates de fulgor.


AGUSTONI, Prisca. (Seleção e prefácio). Oiro de Minas, a nova poesia das Gerais. Lisboa: Pasárgada, 2007. 160 p.

5 comentários:

  1. Caro Edgard, sou editor das Edições Pasárgada e venho por este meio parabenizá-lo pelo artigo e, aproveito a oportunidade para lhe pedir a autorização para reproduzir o mesmo no meu blogue O relógio avariado de Deus (http://orelogioavariado.blogspot.pt/). De Lisboa/Cascais segue um abraço fraterno, Ozias Filho.

    ResponderExcluir
  2. Edgard, bom dia!. Por meio de um post de Ozias no Facebook descobri seu blog, ao qual incluí um link no meu (Pendura Essa). Excelente a crítica e excelente a produção desses poetas. Obrigado. Paulo Thiago de Mello.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Paulo Thiago, pendurei o seu blog entre as minhas sugestões. Abraço, Edgard Pereira

      Excluir
  3. Caro Ozias, visitei seu blog e ainda estou sem fôlego. Belíssimas fotos! Agrada-me saber que gostou do comentário ao livro por você editado. Tem autorização para reproduzi-lo. Um abraço, Edgard Pereira

    ResponderExcluir
  4. obrigado Edgard ... deixo o meu contacto de email para futuros contactos: pasargada.edicoes@gmail.com ... informo ainda que as Edições Pasárgada estão no facebook... abraço!

    ResponderExcluir