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sábado, 10 de setembro de 2011

Linda como Juiz de Fora!



Não conheço Juiz de Fora. O pouco que conheço é uma parte da periferia, um restaurante de beira de estrada, onde fazia parada o ônibus Util, a caminho do Rio de Janeiro, nas viagens quando cursava disciplinas no Doutorado da UFRJ. Primos meus moraram em Juiz de Fora e contavam maravilhas. O título acima é um verso de Manuel Bandeira, o último do poema "Mangue".  

Decidi reler Bandeira na semana passada. Duas palavras sobre sobre ele, sem intenção crítica. Bandeira, como é sabido, teria sido desenganado por médicos aos dezessete anos; no entanto, morreu aos 82 anos, bem vividos, inteiramente consagrados ao estudo e à criação literária, com regulares intervalos dedicados ao violão e ao desenho. Em busca de cura, por nove anos perambulou por estações de tratamento no país (Campanha, em Minas, Teresópolis, no estado do Rio, Quixeramobim e Fortaleza, no Ceará) e na Europa (Clavadei, na Suiça). Nasceu em 1886 no Recife, morreu em 1968, no Rio de Janeiro. Antecipou algumas conquistas do Modernismo, não quis participar da Semana de Arte Moderna em São Paulo em 1922, mas um poema seu, "Os sapos" foi declamado e incorporado à rebeldia  do evento. Deixou uma obra da maior importância, é reconhecido como mestre pelos poetas de todos os quadrantes. Estreou com A cinza das horas, em 1917, tendo como sintomática abertura os versos "Eu faço versos como quem morre/ de desalento, de desencanto. / Fecha meu livro se por agora/ não tens motivo nenhum de pranto". 



Bandeira, acostumado a vivenciar por dentro a experiência estética, nem por isso optou por um registro solene. Simplicidade, tom menor, linguagem coloquial, por vezes infantil, intimismo, descontração marcam seus poemas. Expressa o cotidiano de forma impactante e direta, o que não elimina o cuidado na elaboração. O primeiro modernismo, em que pese sua ânsia de ruptura, não se constrange diante da realidade imediata, local. Bandeira cita várias cidades: Juiz de Fora, Recife, Belém do Pará ("Belém do Pará porto moderno integrado na equatorial/ Beleza eterna da paisagem"), Araxá ("As três mulheres do sabonete Araxá"), Mangaratiba e outras.  Alguém dirá que ele cita o sabonete Araxá, não a cidade, mas de tabela... Mário de Andrade tematiza a capital mineira no famoso "Noturno de Belo Horizonte". Os autores que produzem no chamado segundo modernismo mostram-se mais tocados pelo interesse social e apelos universais, sem esquecer a realidade circundante. Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles citam cidades, em poemas de circunstância ou calcados na memória.

Em outro registro, desta vez em carta a Gilberto Freyre, Manuel Bandeira lembra uma estação de água em Cambuquira, de onde vai até Campanha, na segunda visita que lhe faz, em 1935. Estudei nessa cidade na adolescência por seis anos. Como ali vivi numa época de fundamentos e raízes, a evocação de Bandeira tem o dom de acordar sensações muito caras.

"Anteontem fui numa excursão a Campanha, cidadezinha morta que fica a um 3/4 de hora daqui. Faz agora justamente 30 anos que cheguei lá carregado. Verifiquei que era um camelo em 1905, pois não senti então a delícia que são aquelas ruas tão simples, tão modestas, com os seus casarões quadrados, quase todas com bicos de telhado em forma de asa de pombo. Há lá uma rua Direita (hoje tem nome de gente) que é um encanto: tão genuinamente brasileira, tão boa, dando vontade de morar nela. O passeio que foi de noite, com o luar (uma lua sem nada de mozarlesco, lua-Dantas, simples e bom satélite) foi dessas cousas que a gente não esquece. Diante das duas casas onde morávamos, e onde passei o Diabo, me senti valado, com um nó na garganta. Assim como no interior da matriz, uma igreja tristíssima, essa, sim, parece o "huge baru" que Luccock viu nas igrejas de Ouro Preto. Faziam a Via-Sacra e eu estive longo tempo imaginando quantas vezes minha mãe e minha irmã estiveram ali ajoelhadas rezando para que eu não morresse". (BANDEIRA, 1935).

BANDEIRA, Manuel. Libertinagem & Estrela da manhã. Rio de Janeiro: MEDIAfashion (Folha de São Paulo), 2008.
BANDEIRA, Manuel. Carta de Manuel Bandeira a Gilberto Freyre. Cambuquira, 23 de março de 1935 (Centro de Documentação da Fundação Gilberto Freyre, Recife).
VICENTE, Silvana Moreli. Gilberto Freyre e Manuel Bandeira em crônica epistolar. Teresa revista de literatura brasileira. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. USP, nº8/9. São Paulo: Ed.34, 2008, p.189-204.

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