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quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Sérgio Mudado



Livro do mês:


Os negócios extraordinários de um certo Juca Peralta, terceiro romance de Sérgio Mudado, passou a despertar interesse ao ser listado como um dos dez finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura 2011. Trata-se de uma narrativa ligeira, movimentada, em parte aparelhada com os traços dos relatos picarescos, tendente ao anedótico e fabuloso, de mistura às ousadias do gênero, sem deixar de enveredar pelos caminhos do grotesco (como observa Benedito Nunes no prefácio).


Rompendo os padrões convencionais do narrador distanciado e onisciente, o estatuto do narrador aqui se mostra de forma compósita e multifacetada. Para comandar o fio narrativo, o autor delega essa tarefa a uma narradora, a qual dialoga naturalmente com uma leitora, que a acompanha montada num vagaroso pangaré. Os comentários de um e outro, ou de uma e outra, contaminam o fluxo narrativo, em ritmo de ziguezague. No intuito de criar cumplicidade entre as diversas instâncias do pacto romanesco, os juízos e comentários surgem marcados pela ambiguidade, uma vez que nem sempre esclarecem, colaborando para esconder ou tornar obscura alguma passagem. Por trás de uma estrutura narrativa grotesca (seguimos a lição de Benedito Nunes), de base ilusionista e dotada de artifícios inusitados, como a presença do médico e autor Sérgio Mudado em meio aos eventos ficcionais, a intriga toma um ritmo vertiginoso e quase sempre hilariante.

Por força da motivação ilusionista, o relato tenta captar a força torrencial do tempo, sendo simultaneamente envolvido pela energia desordenada do próprio tempo. O enredo, ainda que cercado de elementos mágicos e históricos, tem uma banal motivação: Juca Peralta é um caixeiro-viajante, funcionário da Philips, uma multinacional holandesa sediada em Belo Horizonte, encarregado de vender um rádio de três ondas, denominado o Matador, razão de suas andanças em trem de ferro, entre a capital de Minas e Montes Claros. Entre o nebuloso histórico e a magia, a intriga move-se em ritmo frenético, promovendo uma reviravolta na percepção da realidade, confrontando personagens históricas e fictícias, mito e realidade, tais como a feiticeira Cleópatra, o mago Noge, Ary Barroso, o governador Bento Antão, Juca Peralta, o jovem Fábio, Noel Rosa, Van Eik, Hitler, o delegado Luciano, Tiburtina e os dois maridos, as cortesãs do palácio de dona Olimpia, o historiador Licamar, o negociante Trajano Macedo e toda uma infinidade de figurações esdrúxulas e misteriosas. Dentre as múltiplas tarefas do Autor, convocado episodicamente à instância de personagem, além da construção de um relato aberto, fragmentado e receptivo às vozes de várias personagens, avulta o papel de editor de uma gama variada de discursos. Registre-se que a atuação do autor como personagem é uma presença rápida e de relativa autonomia. A duplicidade de papéis, no entanto, não é gratuita: duplicam-se os papeis e funções do Autor (da autoria) para assim se diluírem as perspectivas do autoritarismo? As notações de tempo, um tanto fluidas, são capazes de abarcar uma linha temporal dilatada: começam no ano fatídico de 1939, início da segunda grande guerra mundial. Não é ocioso lembrar, portanto, a impossibilidade histórica de Sérgio Mudado, nascido em 1948, ter comparecido naquele ano, para socorrer o empresário holandês, num caso de pneumotórax.


A alusão ao leitor que vai na garupa, em algum momento identificado como leitora, reforça a presença do interlocutor implícito e retoma a figura da “amável leitora” da narrativa ficcional do século XIX. “Em verdade, preciso, admito sem pudor, da tua ajuda. A mágica pode acontecer sem a presença do mago, que pode estar operando a uma distância formidável do seu objeto. Nenhuma forma de magia, no entanto, pode ocorrer sem testemunho. (...) Então, eis o dom que te é conferido: poderás sonhar-me nos idos de tua imaginação, saber-me nas linhas dos teus lábios, seguir-me nas estrelas do teu rumo. Sou, doravante, o teu espaço, semeei-te em mim e, portanto, estás agora plenamente preparado, pois te tornaste o mais hábil leitor - meu e de ti mesma, pois tu és, doravante, também quem eu sou” (p.15). Esse narrador, que insiste em sua natureza feminina, (pela possibilidade de procriar?), gera em si mesmo a instância do leitor - “o mais hábil leitor”, reduplicando o que já estava erigido em dupla função (de autor e personagem). O pacto romanesco (a contiguidade entre autor, narrador, leitor e personagem) ocupa um lugar explícito no relato. A ideia de excesso e desmedida, delineada no título (os negócios extraordinários), reveladora do intento de extravasar os limites, é sintomática de uma concepção diegética sem freios, transgressora de princípios estabilizados milenarmente. O processo narrativo incorpora uma diversidade de discursos, oriundos de fontes literárias, científicas, folclóricas e históricas, cujos fios costuram uma ampla e formidável tapeçaria do mundo. Os índices relacionados com a Minas colonial misturam-se aos pruridos de modernidade tecnológica, às incursões desaforadas na história política mineira, às ocorrências repressivas do Estado Novo e aos prenúncios dos horrores do nazismo em franca ascensão. Dessa forma a mais sonhada que elaborada “história subterrânea de Minas Gerais” constitui outro índice da inútil tentativa de recriar o incessante fluir do tempo. “...Minas é habitada por gente intratável e aqui no sertão os dias nunca amanhecem serenos. Esta terra parece desprender tumultos; a água exala motins e os campos destilam liberdade” (p.122).


Como água incontrolável de enchente, a narrativa vai assimilando resíduos de história e folclore, arroubos patrioteiros e peripécias sensuais, entulhos e tudo o mais que encontra no caminho. Da mesma forma que o submarino alemão, mergulhado nas ruas fétidas do Arrudas como espetáculo de magia, não esconde o interesse do Reich pelo ouro das Minas. Romance de imenso fôlego, tal como o do holandês tocador de trombone do início do relato, Os negócios extraordinários de um certo Juca Peralta revelam um autor maduro, inventivo, matizado, sugestivo e irônico, plenamente consciente das artimanhas ficcionais.



MUDADO, Sérgio. Os negócios extraordinários de um certo Juca Peralta. Belo Horizonte: 
Crisálida, 2010. 432 p.

2 comentários:

  1. Eu adoro o "Juca" e, lendo este texto, não poderia deixar de comentar: belíssima resenha, Edgard! Só discordo de uma coisa: pra mim é o livro do ano! Um abraço!

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  2. Todo mês publico um comentário, uma resenha inédita sobre um livro, que pode ser recém lançado, ou não. Chama-se "livro do mês" como poderia se chamar resenha do mês, sem intenção competitiva, de apontar o melhor entre outros. Só isso.

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