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domingo, 31 de julho de 2011

Crônica da casa assassinada



                                                (Foto de divulgação, de João Caldas.)

Com casa lotada, no Teatro Alterosa, assisti ontem à peça Crônica da casa assassinada, baseada em romance homônimo de Lúcio Cardoso, com grupo carioca, adaptação de Dib Carneiro e direção de Gabriel Vilela. Hoje é a última apresentação em Belo Horizonte, às 19 horas.


O romancista mineiro Lúcio Cardoso tem sido enquadrado na linhagem dos grandes moralistas do Ocidente, voltados aos problemas da consciência; notadamente no seu caso interessado em mostrar como os aspectos sombrios da sexualidade atormentam os indivíduos. De imediato, deve ser reconhecido o esforço positivo em adaptar aos palcos um dos textos maiores da literatura brasileira, não apenas em extensão, mas em densidade e exuberância técnica e estética. A primeira cena convoca a nota impactante e nervosa que acompanha todo o espetáculo: a cena de sexo incestuosa entre mãe e filho, mais claramente, entre o jovem André e sua mãe, em agonia no leito de morte. Ainda que mais tarde, de forma nebulosa, seja aventada a hipótese de o jovem ser filho de Ana e não de Nina, o incesto está irremediavelmente inscrito e vivido como desejo mórbido que passa a contaminar as outras personagens. E a brutal oscilação entre vida e morte, entre corpo desejante e corpo em decomposição, em suas variadas conotações de ruína física e moral, parece atar o destino da família. Concentrada no casarão de tradicional fazendeiros das Gerais, a trama transcorre em meio a paixões extremas e desintegradoras. O ambiente fechado, pouco arejado e opressivo, abriga a progressiva desintegração financeira e moral dos Menezes.


A adaptação teatral consegue captar os momentos decisivos da tragédia que, se no romance recebe uma complexa e arrastada arquitetura discursiva, formada pelo entrelaçamento de vários discursos, no palco se vê desenvolvida em fragmentos vertiginosos, carregados de denso e patético simbolismo. Nina, a bela carioca liberada, tal como no romance, concentra em si a semente da degradação. Ela carrega uma beleza única, “mórbida e em declínio, como se vibrasse em uníssono com o espírito que presidia a casa toda”, depõe o farmacêutico. A montagem de Gabriel Vilela explora de forma criativa, com efeitos visuais e sonoros apropriados, a atmosfera sufocada e tensa em que as personagens são domadas por instintos e atormentadas pela repressão e sentimento de culpa. Os traços mineiros presentes na montagem centram-se sobretudo na arquitetura barroca (a réplica da fachada da igreja de São Francisco de Assis, no fundo da cena), e na obstinada submissão à religiosidade, às convenções sociais e aos indecifráveis desígnios da fatalidade. Somados aos motivos ibéricos (as canções românticas), tais motivos ampliam-se, tornando-se elementos míticos e universais.

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