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quarta-feira, 2 de março de 2011

LUIZ FERNANDO EMEDIATO

Livro do mês:
Trevas no paraíso

      No início das atividades deste blogue (26 agosto de 2009), em artigo sobre a ficção brasileira dos anos 70, enumerei vinte contistas surgidos à época. Entre eles, citava (e havia carradas razões para fazê-lo) Luiz Fernando Emediato. Aquela foi uma década extremamente produtiva para a ficção curta no Brasil, marcada pela proliferação do conto na literatura brasileira. Wilson Martins, na revista Veja, em artigo intitulado “O país dos contistas”, ironicamente estimava que haveria “1000 contistas redigindo febrilmente pelo país”. Minas Gerais viu surgir em torno de quinze excelentes autores de histórias curtas, imediatamente reconhecidos em todo o país. De forma que estar entre os vinte mais significativos contistas então revelados é um dado nada desprezível para a trajetória de um autor. Textualmente, dizia então no blogue: “Luiz Fernando Emediato, em Não passarás o Jordão (1977) e Os lábios úmidos de Marilyn Monroe (1978), aborda questões relacionadas à repressão política, a tortura, a violência e o preconceito, numa perspectiva irônica e cética, incapaz de sufocar os arroubos juvenis”. Nada a acrescentar, para quem conhecia apenas aqueles dois livros. Recentemente tive acesso a Trevas no paraíso, espécie de obra completa do autor: com impecável acabamento gráfico e editorial, organizado por Luiz Ruffato, documenta toda a produção ficcional de Emediato, representada por quatro títulos, publicados entre 1977 e 1984. Escritos entre 1970 e 1979. O repertório textual vê-se ampliado com mais dois títulos, A rebelião dos mortos (1978) e Verdes anos (1984).
      Os contos de Luiz Fernando Emediato são representativos de um espírito de rebeldia, irreverência e protesto, típicos dos anos 70 no país. O autor surgiu em 1971, ao faturar o primeiro lugar, categoria estreante, no prestigiado Concurso Nacional de Contos do Paraná, com 19 anos, espécie de enfant terrible da literatura, pela atuação abusada, polêmica e nervosa que imprimia nos projetos de que participava. (Também fui premiado, em posição mais modesta, no Paraná nesse ano, 3º lugar, categoria estudante). Fundou, ou esteve na linha de frente como parceiro, revistas literárias, algumas censuradas (como Silêncio, Circus, Inéditos), abocanhou outras premiações (Cidade de Belo Horizonte, revista Status), publicou em grandes editoras (Codecri, ligada ao jornal Pasquim, Ática), foi saudado por Drummond, Rubem Fonseca e Antônio Calado, até se tornar também editor.



      Um traços característico de seus relatos é o engajamento político, a nota de denúncia, a revolta e o desespero juvenil contra os rumos tomados pelos país nos anos da ditadura. O excesso de rebeldia política, vazada em linguagem neorrealista, esgarçada ambiguidade e ênfase no vetor referencial, tem um preço estético: presença destacada de lugares comuns, elaboração mediana da linguagem. Não passarás o Jordão recria, através de alusões, montagem de artigos jornalísticos e alegorias, o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, durante o governo Geisel. A literatura produzida naquela época, tendo como pano de fundo o quadro político, tem suscitado avaliações críticas nas duas últimas décadas. Para Silviano Santiago, a literatura elaborada com base na denúncia explícita manteria talvez “um laço mais estreito com a censura e menos afetivo com a literatura, visto que sua razão de ser está no nomear o assunto proibido e despojar-se dos recursos propriamente ficcionais da ficção” (SANTIAGO, 1982, p. 53). Mais próxima da crônica jornalística, para Flora Sussekind, tal produção “cujo eixo é a referência e não o trabalho com a linguagem, é o recalque da ficcionalidade em prol de um texto predominantemente documental” (SUSSEKIND, 1985, p. 61). A mesma autora refere-se à literatura de resistência à ditadura, salientando que “os recursos literários, bastante precários, resumem-se, em geral, a um estilo direto, objetivo, e a uma supervalorização da alegoria” (SUSSEKIND, 1985, p. 59). Flora Sussekind considera ainda nas narrativas de fundo político, produzidas nas décadas de 1970 e 1980: “Em comum, também, a rejeição da dubiedade, o privilégio do significado único e da referencialidade a um real pouco problematizado” (SUSSEKIND, 1985, p. 62). E pergunta-se: até quando os defensores da tese da rasa dimensão estética da literatura de fundo político produzida nas décadas de 70 e 80 não reproduzem o jogo da ditadura? Ignorar para não fortalecer. A eterna patrulha socialista, por vezes tendenciosa, a exigir que a radicalidade política deve estar enraizada na radicalidade estética.

“Até que o general, de repente, grita bem alto uma frase – não permitiremos que os comunistas, estes assassinos, se apossem do poder que pertence ao povo – e o presidente acorda: o general gritou, mas o povo, calado, não o ouve, porque na verdade o general não fala para o povo, o general fala para si mesmo, bem para si mesmo, porque no fundo o general tem medo” (p.149).

      Lida em conjunto, a ficção de Emediato possibilita perceber uma certa homogeneização de recursos e temas, estes em geral com a marca indelével de se apresentarem muito datados. Como exigir maturidade a um jovem de vinte e poucos anos? O organizador, o escritor Luiz Ruffato, deu-se ao trabalho de apresentar os textos fora da disposição em que foram editados, reunindo-os em torno de três motivos - “O vago brilho das estrelas”, “Breve discurso sobre o significado do tomate” e “Anatomia do pesadelo”. Se os dois últimos configuram o eixo da rebeldia política, são os contos do primeiro motivo, em que a motivação existencial predomina (o que não significa ausência de conflitos sociopolíticos) aqueles que menos envelheceram. “Verdes anos”, “Os lábios úmidos de Marilyn Monroe”, “Also Sprach Zarathustra” e “Naquele tempo” não perderam o viço, são verdadeiros poemas, apesar da espessura dramática. Do repertório engajado, “A data magna do nosso calendário cívico”, “Breve discurso sobre o significado do tomate”, “A testemunha”, uma página incontornável sobre a prática da tortura, (publicado inicialmente na revista Inéditos 1 (Belo Horizonte, 1976), mantêm, impiedosos, o alto teor de insurreição e indignação. Em meio a alegorias previsíveis e o pálido desfile de desfiguradas alucinações (O investigador, o investigado, O Grandalhão, O General, o Grande Herói). Escritos no calor da repressão política da época, os contos não perderam o frescor e a rebeldia juvenil, esta uma nota inconfundível na ficção de Emediato.


EMEDIATO, Luiz Fernando. Trevas no paraíso: histórias de amor e guerra nos anos de chumbo. Org. e apresentação Luiz Ruffato. São Paulo: Geração Editorial, 2004.

SANTIAGO, Silviano. Vale quanto pesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.

SUSSEKIND, Flora. Literatura e vida literária. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

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