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terça-feira, 8 de março de 2011

Encontro com autores: João Etienne Filho

      Carregamos conosco objetos e presentes, valiosos por diversos motivos, dos quais pouco sabemos. Em que circunstância tal livro veio parar em nossa não? Aquele disco de vinil, com assinatura hoje famosa, por algum intercâmbio afetivo, tornou-se parte de um patrimônio íntimo. Refazer seu percurso é um quebra-cabeça divertido.



      Assim ocorreu com o autógrafo de João Etienne Filho (1918-1997), no exemplar sobre Euclides da Cunha, da renomada coleção Nossos Clássicos, da Editora Agir. Está lá, em letra limpa e bonita, o sulco provável de caneta esferográfica preta. A data é o primeiro passo na elucidação do enigma. De imediato, não lembro detalhes do encontro. Aos poucos, as coisas vão se revelando. O ano – 1967 – é esclarecedor. Meu último ano de seminário, primeiro na capital. João Etienne Filho era uma celebridade no meio cultural mineiro. Como me aproximei do escritor? Ele, com 49 anos de idade, eu com 19. E dizer escritor é pouco para João Etienne. Bacharel em Direito, jornalista e redator de O Diário (jornal de Belo Horizonte), poeta, cronista, tradutor, ensaísta, contista, crítico literário e teatral, ator, radialista, diretor de teatro, professor de história e de literatura, juiz de basquete, congregado mariano, secretário de Alceu Amoroso Lima. Para complicar, homossexual em contexto de arraigado moralismo, cultor de raridades. Sem esquecer que é ainda provável personagem à clef do romance O encontro marcado, de Fernando Sabino. Um ser humano incrível, polivalente, que no plano intelectual afirmava receber solicitações de vária espécie (“Valeu a pena? Para mim, sim, pois sinto a solicitação dos vários gêneros literários”, afirma na orelha do livro de contos Os tristes). Na certa, foi o seguinte: costumava, então, na companhia de Lauro Belchior Mendes, com quem me preparava, para o vestibular de Letras na UFMG, frequentar algumas sessões da Academia Mineira de Letras, na antiga sede num edifício da Rua Carijós. Lá, numa das sessões, encontrei João Etienne: impelido pelo arroubo juvenil e abandonando temporariamente a timidez, solicitei o autógrafo.



      João Etienne Filho nasceu em Caratinga em 1918 e faleceu em Belo Horizonte em 1997. Em 1967, já publicara dois livros de poesia, Dia e noite (1947), As desesperanças (1957); o ensaio sobre Euclides da Cunha (textos escolhidos), nº 54 da col. Nossos Clássicos, da Agir; mais tarde, em 1971 publicaria o volume sobre João Alphonsus, nº 102 da mesma coleção e um admirável livro de contos, Os tristes (Belo Horizonte: Imprensa Oficial).
      Em clima de carnaval, leio três peças deste último, que tenho a honra de ter autografado pelo autor: “O filho”, que explora o contraste entre euforia e drama, propiciado pelos festejos momescos; “A face perdida”, uma ousada (para a época) incursão na condição gay; “Retrato de homem chorando”, um roteiro antológico de isolamento e autodescoberta.















5 comentários:

  1. Otímo, só faltou quando ele nasceu,onde ele nasceu

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    1. João Etienne Filho nasceu em Caratinga em 1918 e faleceu em Belo Horizonte em 1997.

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    2. Ao escrever o breve perfil de João Etienne, é óbvio que deixei muita coisa de lado. Concentrei-me no episódio banal em que dele me aproximei,ainda adolescente. De fora ficaram inúmeras circunstâncias, na certa mais importantes, de sua personalidade multifacetada. O tempo em que secretariou o intelectual Alceu Amoroso Lima, no Rio de Janeiro, quando substituiu o grande líder católico como professor em duas Universidades. A atuação ao lado dos jovens escritores mineiros na década de 50, Hélio Peregrino, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, os chamados quatro cavaleiros do apocalipse. O grande exemplo de paixão pelos livros que passou a esses jovens, na certa, contribuiu para que sua figura se erguesse à dimensão de lenda viva de uma Belo Horizonte que não mais existe.

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  2. Eu posso também tive a honra, o prazer e o privilégio de poder conviver com essa criatura genial que era de uma simplicidade sem precedentes.

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  3. Agradeço os comentários. Só lamento o anonimato em que algumas pessoas preferem se manter, numa época em que buscamos formar uma sociedade mais solidária, compreensiva e humana.

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