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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Affonso Ávila

Encontro com autores 2: Affonso Ávila



      Existem pessoas que admiramos muito, mas que nos parecem inacessíveis, distantes demais do nosso círculo de relacionamento. Com Affonso Ávila não era diferente. Fui professor de um filho dele, no curso fundamental, o Carlos Ávila, revelado depois como poeta; conversara uma vez com sua esposa, Laís Correia de Araújo, a notável autora de Cantochão. Já vira Affonso Ávila (n. 1928) uma vez numa roda de intelectuais, em lançamento de amigo comum, mas não me aproximei. Admirava sua poesia, desde a estreia, os poemas de O açude e sonetos da descoberta até os poemas vanguardistas de Código de Minas e Cantaria barroca. Acompanhava com interesse sua trajetória e atuação, em especial a revista Tendência (1956), de forte nacionalismo crítico, ao lado de outros intelectuais mineiros, seu papel como aglutinador de experiências poéticas (organizou a Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, em Belo Horizonte, 1963), seu legado pela renovação da poesia brasileira . A primeira aproximação de fato se deu na posse de Rui Mourão na Academia Mineira de Letras. Conhecia-o de vista e leitura de livros.


      Considerado taciturno, de difícil acesso, não foi esta a imagem que me passou, na primeira vez em que nos encontramos e trocamos um dedo de conversa. Ele estava estático a minha frente, meio isolado do burburinho. Eu conversava com uma bela jovem, uma tenente uniformizada a rigor, que representava no evento uma alta patente do exército. Talvez ele estivesse também encantado pela beleza da tenente. Estava viúvo, por que não? Naquele instante do coquetel quando as pessoas falam alto, no intervalo da passagem do garçom. Talvez nem tenha sido isso, a beleza da militar, mas a timidez minha, dela e dele. Aproximou-se, ao perceber meu interesse, me apresentei e comentei um poema dele. Do poeta que fumava maconha com rapazes negros. Ele riu, enigmático e comentou: aquilo é uma paráfrase de Rimbaud. E a última publicação, o Homem ao termo? Deu a entender tratar-se de uma reunião de livros. Vamos aguardar o próximo, falou. Na verdade, oito meses após Affonso lançou Poeta poente, título bem bolado e impactante. Despedi-me dos dois, tomei meu rumo. Esperto demais para a idade, brincalhão, olho de garoto travesso, uma das três vozes mais importantes da poesia brasileira contemporânea.

2 comentários:

  1. Caramba! Eis aqui, exatamente, nesse texto maravilhosamente exuto, o que eu pensava do Afonso Ávila. Fomos, o saudoso Henry Corrêa de Arújo (sobrinho da Laís), e eu à casa do poeta que me recebeu generosamente. Na ocasião Henriy mostrou-lhe alguns poemas desse poeta recém-chegado do interior e que estava apenas começando. Eram poemas de um livro ainda hoje inédito: PASTÁGIO, embora premiado (em parte). Repassei agora mesmo para o Pascoal Motta. Gostei. E gostei muito.

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  2. A atuação de Affonso Ávila como incentivador da cultura é conhecida, deve ser divulgada. Muitos escritores relatam encontros memoráveis na casa da Rua Cristina.

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