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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Em causa própria

Mexendo em velhos papéis, numa triagem para descartar coisas inúteis no lixo, o que sempre faço em final do ano, encontrei dois trabalhos de mestrado sobre um conto de minha autoria, “Setor de montagem”, inicialmente publicado no Suplemento literário de Minas Gerais (Belo Horizonte: nº 842, 20 de nov. 1982), com outro título, "Setor de perfilação". A imagem reproduz esta publicação, ilustrada por Eimir; para ampliar, basta um click. Com algumas alterações, integra o livro O lobo do cerrado (Rio de Janeiro: Imago, 1999), versão que serviu de fonte aos trabalhos referidos, produzidos no âmbito de um Curso de mestrado ministrado na UFMG, na área de Linguística. Recorto, na sequência, um trecho de cada um.



1. O leitor instituído e o discurso contraditório

      “Examinando o plano do intradiscurso, em “Setor de montagem”, no campo discursivo político, sob a ótica do enunciatário instituído (o leitor), destacam-se os percursos figurativos do trabalho e da luta operária. O tratamento dado a esses dois percursos é desigual: o trabalho é detalhadamente explicitado, enquanto a luta operária é apenas sugerida, camuflada em passagens quase que inexpressivas da narrativa. A bem da verdade, a luta operária é somente inferida através dos conselhos dados pelo operário veterano ao novato: “Cuidado com os agitadores, afaste-se deles”, “Mais uma vez: não se misture com os agitadores. Se precisar de alguma coisa, pode contar comigo”. Já o trabalho, conforme se analisará nas páginas seguintes, é minuciosamente descrito sob diversos ângulos: a rotina do operário (ida à fábrica, atividades desenvolvidas, incidente ocorrido, comentários sobre as condições de segurança, volta para casa), informes sobre experiências profissionais, evolução histórica das condições de trabalho.
      O enunciatário instituído depreende, numa segunda instância de leitura, o interdiscurso, que na narrativa em estudo, envolve o campo político, no espaço discursivo em que se opõem o discurso burguês e o proletário. O discurso do operário veterano mantém relação de adesão ao discurso burguês e (supõe-se, infere-se) contrapõe-se ao de operários críticos. O discurso burguês e o discurso proletário revelam-se, no texto em análise, interdiscursivamente como vozes polifônicas, na concepção bakhtiniana de “discurso de outrem na linguagem de outrem” (BAKHTIN: 1988,127). Dessa forma, os dois discursos apresentam-se em plano de leitura simultaneamente intra e interdiscursivo. (...)
      Uma gama de inferências pode ser levantada a partir das relações sintático-semânticas estabelecidas, entre elas, a contradição existente entre pares. De um lado, os operários comuns e tudo aquilo que a eles se associa: fila de ônibus, empurrões, desaforos, cubículo, azulejo sujo de óleo, graxa, restos de sabão e fios de cabelo e outras titicas não identificáveis, não tinha onde colocar o sabonete, nem estrado, a água fria e pouca. De outro lado, o operário graduado: jeito bonachão, parece ser antigo de firma, limpeza do uniforme, chuveiro com água quente, “entrou num especial quase vazio que arrancou logo, parece que só aguardava a sua chegada”. De um lado, o operário atual, que se prepara tecnicamente (em virtude da concorrência de mercado): “Na escola técnica, só que era mais tranquilo”. Do lado oposto, o operário que se graduou e profissionalizou na própria empresa, por meio do trabalho: “Naquele tempo, não havia curso técnico. A gente se destacava pela competência, aprendia tudo na fábrica mesmo”.
      O interesse do veterano pela causa da demissão do novato no último emprego subentende uma dúvida: teria sido por agitação? Nas entrelinhas, várias sugestões. Seriam os agitadores os que se incorporam aos movimentos sindicalistas? Constituem eles o grupo dos que protestam, os reformistas? Não pertencendo a esse grupo, o operário veterano teria se destacado exatamente por esse motivo?”
(...)

(LIMA, Rosângela Borges. Faculdade de Letras da UFMG, Pós-Graduação em Estudos Linguísticos. Seminário de Tópico variável em Análise do discurso: discurso, ideologia e leitura. Prof. Dr. Antônio Augusto Moreira de Faria, s.d.)

  1. “Setor de montagem”: os discursos em contradição

      Em “O setor de montagem”, de Edgard Pereira, a história desenvolve-se em torno de dois personagens, Pedro e Chico, ambos operários. A partir da fala desses personagens, é possível perseguir dois espaços discursivos, reveladores da experiência proletária, o discurso crítico e o alienado. (...)
      Embora não seja inexperiente, o novato Pedro será visto pelo operário veterano (Chico) como ingênuo, influenciável, sem os mesmos direitos de um trabalhador mais velho e confiável para os padrões capitalistas. O interesse revelado pelo funcionamento das máquinas e a constatação de que não há fábricas empenhadas na diminuição do barulho formulam, da parte do veterano, um percurso figurativo que revelará a visão cristalizada de um operário completamente reduzido a “peça de engrenagem" em relação àquele que chega e ainda não se transformou. É “o seu outro” ele mesmo antes de se submeter às regras do capital.
      Nas fala de Chico, percebe-se a oficialização do discurso do operário que empresta a sua voz para o discurso capitalista: “Vai dizer que as outras firmas se interessam em diminuir o barulho, melhorar o ambiente de trabalho, essas coisas?” Palavras implícitas: todas as empresas são iguais, não adianta buscar alternativas, o objetivo é sempre o lucro, as grandes empresas são generosas, pois acolhem empregados. Nada a fazer, a não ser aceitar e resignar-se.
      Chico faz que não ouve o comentário de Pedro sobre o acidente acontecido naquele dia e desconversa. Estratégia de proteção? Sim, porém mais do que isso. As vidas humanas não interessam ou não podem interessar nesse universo. Interessam as máquinas, esse é o objeto do seu discurso, ao lembrar a Pedro, o novato, que é da máquina, do seu bom funcionamento, que eles dependem: “Já trabalhou com as máquinas que temos aqui?”
(...)

(COSTA, Léa Dutra. Pós-Graduação em Estudos Linguísticos, FALE/UFMG, s.d.. Tópico variável em análise do discurso: discurso, ideologia e leitura. Prof. Dr. Antônio Augusto Moreira de Faria)

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