Total de visualizações de página

Pesquisar este blog

sábado, 22 de janeiro de 2011

Encontro com autores: Lúcia Machado de Almeida

      Inicio breves relatos sobre encontro com autores. Referi, por ocasião de sua morte prematura, na praia, em decorrência de enfarto fulminante, a lembrança afetuosa de uma visita ao escritor Elias José. Sem postura crítica, o interesse residirá na tentativa de flagrar, na medida do possível, um retrato humano, antes de tudo. Sem máscaras e correções postiças, sem disfarçar ou retocar circunstância, ambientes ou reações.

      Uma única vez tive o prazer de privar da presença amável de Lúcia Machado de Almeida (1920-2005). Ela mesma, a escritora famosa, a festejada irmã de Aníbal Machado, a cunhada do poeta Guilherme de Almeida, casada com o idealizador do Museu do Ouro, Antônio Joaquim de Almeida. Isso eu soube mais tarde.

     Ela era uma escritora renomada, já publicara os livros que a consagraram, tais como os notáveis Passeio a Sabará, Passeio a Diamantina, ilustrado por Guignard, relatos eruditos recheados de informações históricas e artísticas, sem falar nos clássicos infantojuvenis, Atíria, a borboleta, O escaravelho do diabo, Aventuras de Xisto, Xisto no espaço, Spharion, entre outros. Este último meu filho mais novo precisou ler recentemente no colégio. Foi  no dia 21 de dezembro, de 1976, o Cruzeiro enfrentava, no Mineirão, o  Bayern de Munique, campeão europeu daquele ano. Público record, 115 mil torcedores. Vê lá se era para alguém lançar livro na cidade naquela noite? Pois é, nessa noite, com 28 anos, eu lançava meu livro de estreia, Violeta Trindade. Não foi um efetivo lançamento de livro, fugiu ao formato convencional. Visto de longe, foi um encontro de pessoas que gostam de ler. O local? A cantina de um colégio na av. Prudente de Morais, onde lecionava português e literatura.

Na imagem, Lúcia Machado de Almeida retratada por Guignard.

      Desde o início dos anos 1970, comecei a publicar contos. Antes, tinha participado, na Faculdade de Letras, da publicação de um jornal literário, o Talupa, em 1968. Ganhei em 1971 dois prêmios literários, o 1º lugar da Revista literária da UFMG e o 3º lugar, estreante, no concurso nacional da Fundepar, no Paraná. Convidado pelo poeta Libério Neves, aceitei publicar meu primeiro livro pela Editora Interlivros, de Belo Horizonte, numa coleção onde já haviam publicado nomes que se tornariam mais tarde reconhecidos em todo o país, tais como Duílio Gomes, Manoel Lobato, Luiz Gonzaga Vieira, Ana Cecília de Carvalho, Jaime Prado Gouvêa, Lucienne Samôr. Pronto o livro, Márcio Almeida, sempre atento às novidades literárias, apresentou-o no caderno cultural do jornal Estado de Minas. Lembro que, da redação, ele perguntou onde seria o lançamento. Feitos alguns contatos, retornei citando o colégio da Av. Prudente de Morais. Providenciei umas garrafas de vinho e de refrigerante, encomendei salgadinhos à Cantina do Colégio, e lá se realizou o improvisado lançamento. Três ou quatro amigos não compareceram, preferiram o futebol, mas, no meio de vinte e poucos estudantes e em torno de uma dúzia de desconhecidos, uma senhora amável e de uma elegância discreta chamava a atenção. Era Lúcia Machado de Almeida. Os traços físicos são esbatidos na lembrança, mas a sensação geral era de aconchego e serenidade. Conhecia então alguns títulos de sua obra para adolescentes, a importância literária fui descobrir depois. O ambiente descontraído, a ausência de intuito comercial, a presença destacada de estudantes, a simplicidade deram o tom ao evento. Outra presença, indiretamente ligada à literatura, foi o filho de Oswaldo França Júnior. Pediu que a dedicatória fosse feita em nome de seu pai. Mais tarde conheci pessoalmente o Oswaldo, admirável amigo e incentivador, sempre solidário aos escritores. Considero os dois autores meus padrinhos literários. Solícitos, confiantes, pareciam dizer: vá em frente, tem nosso aval.

Nenhum comentário:

Postar um comentário