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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Outros barulhos

Livro do mês:

No reino das musas, há muitas moradas. Espalhafatosas ou retorcidas algumas, outras simples como barracos de meia água. Fachadas deslumbrantes, muralhas intransponíveis, cercas de arame. De tudo. A poesia lírica admite várias entradas, rio generoso de incontáveis afluentes. Na cultura contemporânea, destaca-se, dentre os diversos modos líricos, o filão narrativo.
O caminho trilhado por Reynaldo Bessa resulta de cuidadosa atenção à simplicidade e à memória, de onde brotam pequenos relatos, impressões toscas e densas lembranças, quase sempre ásperas e intratáveis.

Um dia
caminhei descalço por entre as poças
deixadas pela chuva.
meus pés balançavam as estrelas,
baldeava o céu
relampejava e eu não tinha medo.
como pode alguém com fome
ter medo de relâmpagos?


A linguagem simples e a expressão da subjetividade formam o arco por onde vibra esta poesia. A inserção social, as tiradas filosóficas, a ênfase à diferença, o imprevisto, a pulsão erótica, os fantasmas do passado, tudo o mais decorre dessa aliança. A memória da infância é um território fértil para Reynaldo Bessa. Atravessada de espantos, experiências amargas, descobertas, sobressaltos:

o silêncio
de meu irmão
doía mais
que as pancadas
do meu pai

Aliado ao formato narrativo, revela-se o corte ágil, o ritmo veloz, caudatário das mídias eletrônicas. Dessa forma, alguns poemas reduzem-se a uma única frase sintética, detonadora de forte carga sugestiva: “o poeta escreve torto/ por linhas certas” (p.70); “hoje sonetos/ amanhã só netos” (p.62); “espinhas, pêlos, incógnitas, incógnitas e ejaculações” (p.29); “seus olhos/ são meu livro de cabeceira” (p.107). A agilidade e a explosão do mundo do rock são fatores determinantes da percepção alucinada das coisas, e mesmo de alguma imagem deformada ou fora de foco.

um dia encontrei Deus
ele tinha bebido, tava perdido
me perguntou onde Ele estava
e eu Lhe respondi: no lugar que merece


Viajar no passado pode servir de refúgio diante do presente inóspito, mas não há permanência na infância desprovida de culpa ou de fantasmas alvoroçados. A inocência é uma pretensa dádiva, uma parceira exigente e arrogante. A poesia de Reynaldo Bessa, tangida por um ritmo quebrado, uma pegada desentoada, acordes desafinados, sequência estridente, desorienta uma casta de leitores, interessados em efeitos de métrica e de representação metafórica. Ingênua jamais, cultiva a diversidade e a sutileza da réplica intertextual: “ó amar malvado,/ quanto do teu mal/ são lástimas afinal/ nada Pessoal”.
Nascido em Mossoró, poeta, cantor e compositor, Reynaldo Bessa desenvolve carreira como músico profissional em São Paulo, onde reside há duas décadas. Em seu mais recente CD, interpreta poemas de Drummond, Leminski, Carpinejar e Alice Ruiz, entre outros. Um diferencial: a edição é bilíngue, todos os poemas tem versão para o inglês, sob responsabilidade de Sérgio Ivanchuk. O livro Outros barulhos foi Prêmio Jabuti em 2009.

BESSA, Reynaldo. Outros barulhos. Belo Horizonte: Anome, 2008. 128 p.

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