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quarta-feira, 11 de agosto de 2010

As opções críticas de Álvaro Lins


      A nota anterior sobre Álvaro Lins, o crítico literário do Correio da manhã (1940 a 1956) não tem a intenção de identificá-lo como modelo de crítica. Teve seu lugar na história da literatura brasileira, como crítico militante, de indiscutível influência. Foi certeiro em alguns momentos, equivocou-se noutros. Em dado contexto, desempenhou a contento o papel do intelectual participante. Não se deve ignorar que a crítica naquele tempo - denominada humanista impressionista - preservava um sentido de transformação cultural que se perdeu no formato descritivo que assumiu a partir dos anos 70, quando passa a ser produzida nas universidades. Seja qual for sua filiação, a crítica deve ser culta, fundamentada em sólida base filosófica, sociológica, psicanalítica, estética, afinal, ela é caudatária do espírito iluminista. Alvaro Lins era um homem culto, erudito, de gosto estético refinado.

      Ao nomear suas predileções, entre os poetas, Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Lima, Augusto dos Anjos, Mário de Andrade, Thiago de Melo, João Cabral, Alvaro Lins enumera os motivos dessa preferência, os parâmetros em que se baseia. Escreve páginas decisivas para a fortuna crítica de Drummond, por exemplo, com avaliações penetrantes dos livros Claro enigma, Sentimento do mundo, Rosa do povo. Como todo crítico militante, tem suas idiossincrasias. Forçou demais a mão em Clarice Lispector, Jorge Amado e Érico Veríssimo, autores quase iniciantes, em processo de elaboração de seus romances mais representativos. Em relação ao Jorge Amado, o contexto pesa bastante, tendo em vista os primeiros livros dados a lume, um tanto precários, se comparados ao que depois produziu. 

      Considera a autora de Perto do coração selvagem, por ele considerado uma "experiência incompleta", uma escritora em formação, carrega "dentro de si um mundo de ficção", capaz de expressar "a visão do mundo numa atmosfera de sonho, a confusão entre memória e imaginação, a deformação alucinada dos fenômenos sob o efeito da subjetividade". Tem a coragem de afirmar que "a Sra. Clarice Lispector não atingiu todo o objetivo da criação literária. (...) ...ainda não está no domínio daquela experiência vital que permite a realização de um romance completo" (p.190). A persistência de Clarice revelou que o crítico estava equivocado. Faltava-lhe instrumental para aquilatar a densidade e sutileza dos rumos trilhados pela jovem autora.

      Afirma disparates sobre Érico Veríssimo: "Ao contrário do que seria natural - um autor que se aperfeiçoa de livro para livro - o que se estava vendo era o plano inclinado: o escritor que piorava sucessivamente de um romance para outro. Da sua plenitude em Caminhos cruzados para Música ao longe, Um lugar ao sol, Olhai os lírios do campo" (p.221). Apresenta como responsável pela redução da qualidade a concessão ao público, após o grande sucesso de Caminhos cruzados. Mesmo reconhecendo o talento do autor, aponta a tendência ao moralismo e a linguagem um tanto convencional.

      Sua má vontade em relação a Jorge Amado é conhecida. Faz-lhe críticas severas, embora reconheça as qualidades: "Ninguém lhe negará, sem dúvida, o dom principal de romancista, a capacidade de movimentar personagens e construir com eles uma história ou um drama"(p.236). O crítico não suporta o uso excessivo da prosa poética no romance: "Há em todo o romance, aliás, uma preocupação excessiva de causar efeitos como há a preocupação abusiva do poético em prosa. Há luas demais nos céus baianos de Terras dos sem fim. Luas por toda parte" (p.234-235).


LINS, Álvaro. Os mortos de sobrecasaca. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1963.


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