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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

As cerejas


Livro do mês:

Este livro integra a arrojada série Outras palavras, da Editora Atual, projeto merecedor de créditos, por vários aspectos. Formulado por Samira Youssef Campedelli e coordenado por Vivina de Assis Viana, consiste em confiar a escritores renomados a tarefa de reescrever um conto clássico, enfatizando cada qual o aspecto que mais o motivou. No caso em pauta, o conto matriz é “As cerejas”, de Lygia Fagundes Telles, recontado por Duílio Gomes, Márcia Leite, Fanny Abramovich e Ignácio Loyola Brandão. O resultado é uma breve e consistente coletânea de cinco histórias que dialogam entre si, em inesperados confrontos, enfoques e amplo exercício de intertextualidade. De quebra, pelo que se deduz, um sucesso de vendas (11a. edição em 2006, lançado em 1992), fenômeno compreensível, além da qualidade gráfica e literária, pela presença de Lygia F. Telles e uso criativo em atividades paradidáticas no ensino médio.

O conto “As cerejas”, extraído de Antes do baile verde (1970), traz a marca inconfundível da autora, nome tutelar da literatura brasileira, signatária de outros livros fundamentais de narrativa curta contemporânea, como O jardim selvagem (1965), Seminário dos ratos (1977), A estrutura da bolha de sabão (1991). Seus romances Ciranda de pedra (1954) e As meninas (1973) tiveram grande e merecida receptividade, exercem ainda forte influência nos escritores mais novos, são peças de refinada elaboração formal e temática ousada; alguns críticos, no entanto, como Wilson Martins, consideram-na melhor contista que romancista. A habilidade em manter o suspense, a alternância de tempos, a força do detalhe, a noção exata do ritmo e a ênfase à ambiguidade são traços gerais de sua produção ficcional.

“Morangos”, o relato escrito por Duílio Gomes, a par da manutenção de efeitos do conto gerador, como o mergulho no passado, os nomes de personagens, a paisagem rural, a espessura simbólica dos motivos, o desenlace próximo ao clímax do enredo, inverte o processo narrativo, com a adoção do foco masculino. O narrador é ele próprio o agente e paciente do jogo de sedução, num relato ampliado de situações e peripécias intensas. Mesmo que o contexto se mostre por vezes delineado através de índices excessivamente datados (as alusões a D. Helder Câmara, Xuxa, Barão Vermelho, Cazuza), é uma história narrada de forma elegante, ágil, de uma sensualidade simultaneamente provocante e ingênua. Ao lado do conto matriz da série e da pungente e nostálgica narrativa de Ignácio de Loyola Brandão, no encalço de um episódio enigmático da infância, o conto de Duílio Gomes é sem dúvida um dos pontos altos do livro. O narrador de Ignácio Loyola focaliza, com a tinta da melancolia e o toque de virtuose, em “Cerejas na escuridão”, o conflito gerado pela mistura de ciúme, desejo e culpa que assolam o garoto órfão, seduzido por uma suposta parenta e para o qual o passado é um quadro obscuro, numa trama recheada de elementos edipianos.

“Veio uma dor muito forte na parte direita do rosto e logo me tomou a testa. Havia uma vontade de chorar, gritar, correr e eu paralisado. Odiando tio Álvaro, rezando para que o moto-contínuo não desse certo, para que a máquina fosse um fracasso. Porque em suas mãos havia um cacho minúsculo de cerejas vermelhas, que ele agitava como se fossem sininhos. As cerejas não eram verdadeiras, porque não havia cerejas em nossa cidade, a não ser um cacho. Aquele que eu conhecia tão bem. Sabia que não estavam fechando nenhuma blusa e que nem devia haver blusa” (p.76).

Márcia Leite constitui agradável descoberta, com o relato “Antes do jantar”, rico de sugestões e sutilezas, ao reverberar em primeiro plano ousadas pulsões femininas. Cochilo de revisão, ou o que seja, nunca é demais referir que a busca do registro coloquial não acarreta necessariamente relaxamento no uso das normas da linguagem padrão, a ponto de permitir coisas do tipo “Não lhe interessa os sentimentos (p.46)”. Em registro mais lento e próximo da leveza da crônica, Fanny Abramovich aborda os reflexos da paisagem exterior sobre as personagens, em “Paris, na primavera”, impressões de viagem, amarradas por um tênue fio narrativo com ênfase no pendor descritivo, ao pintar ruas, praças e esquinas da capital européia, estonteantes de cores e perfumes.

TELLES, Lygia Fagundes et alii. As cerejas. 11a. ed. São Paulo: Atual, 2006. 

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