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terça-feira, 17 de agosto de 2010

Aproximando Graciliano Ramos e Lucienne Samôr



A intertextualidade é o recurso que permite fazer um texto dialogar com outro, a partir de semelhança temática ou estrutural. Procede do princípio de que não há texto inteiramente original, todas as coisas já foram ditas, o que existe é uma forma diferente, inusitada, de dizer alguma coisa. Os autores nem sempre possuem domínio em relação à sua ocorrência. Um autor pode incorrer em exercício intertextual, sem que tenha consciência do fato. O leitor voraz na maioria das vezes é que percebe os nexos entre um texto e outro.
No romance Angústia, de Graciliano Ramos, o narrador Luís da Silva em dado momento passa a arquitetar a ideia de um crime, matar o rival Julião Tavares. Esse pensamento ocorre várias vezes. “E apertava a corda com força. Quando retirara a mão do bolso, via nos dedos os sinais que ela deixava, marcas roxas na pele suada. O meu desejo era dar um salto, passar uma daquelas voltas no pescoço do homem (p.150).” A ideia vira obsessão. “Retirei a corda do bolso e em alguns saltos, silenciosos como os das onças de José Baía, estava ao pé de Julião Tavares. Tudo isto é absurdo, é incrível, mas realizou-se naturalmente. A corda enlaçou o pescoço do homem, e as minhas mãos apertadas afastaram-se. Houve uma luta rápida, um gorgolejo, braços a debater-se. Exatamente como eu havia imaginado. O corpo de Julião Tavares ora tombava para a frente e ameaçava arrastar-me, ora se inclinava para trás e queria cair em cima de mim. A obsessão ia desaparecer (p.186).” Num momento, ele vê um cano e imagina-o como uma arma terrível: “O cano se estirava ao pé da parede, como uma corda”.
Lucienne Samôr, contista mineira, é uma das quatro escritoras incluídas na antologia Crime feito em casa, organizada por Flávio Moreira da Costa. Autora de um único livro, Olho insano, no conto “Depoimento de Duneau”, apresenta o caso de uma personagem que narra os motivos que a levaram a matar seu irmão. “Corro para um cômodo anexo à casa e que outrora servira para guardar apetrechos e armas de caça. Não há nada mais, vejo. Havia esquecido que foram vendidos a um homem da província, estabelecido há pouco. Mesmo assim voltei os olhos, ainda procurando-os, numa esperança irracional de desesperado. Um pouco sumida pela poeira entrevejo uma barra de ferro no monturo. Apanho-a e retomo o mesmo caminho. O objeto sólido e pesado pendia das minhas mãos fortemente; acrescido à agressividade natural do homem era uma arma de potência ilimitada (p.34).” No desenvolvimento da narrativa, a cena do crime é contada em detalhes: “Estava detrás dele e avistava a sua nuca branca, onde em redemoinho os cabelos desarrumados se espalhavam, crescidos em desordem e sem trato (p.35)”.
Alunos de letras, a postos. Fica aí a sugestão para um trabalho de literatura comparada. Mãos à obra.

RAMOS, Graciliano. Angústia. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de S. Paulo, 2003.
SAMÔR, Lucienne. O olho insano. Belo Horizonte: Interlivros, 1975.

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