Total de visualizações de página

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Querelas da crítica literária



Hesitei bastante se devia ou não meter o bedelho. Assunto elitista, sujeito a pesquisa, derrapagens e falhas metodológicas. Enfim. 

Primeiro tempo. Em abril Flora Süssekind publicou no Verso e Prosa do jornal O Globo o artigo “A crítica como papel de bala”. A repercussão revelou comentários favoráveis e negativos. Atenho-me a uma (breve) passagem desse artigo, em que a autora nomeia “(...) o apequenamento e a perda do conteúdo significativo da discussão crítica, assim como da dimensão social da literatura no país nas últimas décadas”.

Alguns debates no campo intelectual não conseguem camuflar o efeito reflexivo, a tentativa de retomar a hegemonia em algum setor. O que impressiona, na intervenção de Flora Sussekind, ensaísta competente, autora de alguns títulos fundamentais, é o estertor com que a tendência sociológica da crítica literária tenta mais uma vez criar impacto. O que está em foco é muito menos o definhamento da crítica literária no país, fenômeno consequente do crescente desprestígio da literatura em geral, de uns trinta anos para cá. O que incomoda aos praticantes e epígonos da crítica literária de cunho sociológico é a progressiva redução do espaço literário no país. Não suportam a secundarização do poder literário que, nos argumentos mais radicais, corresponderia à pulverização de uma suposta ideia nacionalista. Essa tradição, herdeira de um viés autoritário, remonta à hermenêutica da “formação da literatura brasileira”, concebida como sucedânea da formação da nação brasileira, através de inúmeros movimentos de afirmação e ruptura. Uma visão estreita que não consegue desvincular a valoração estética do difuso compromisso social. Em versão grosseira, a corrente xiita da crítica literária brasileira, articula a valorização da obra à presença explícita do referente social. Avessa à possibilidade de evolução natural da literatura, em especial a nossa rica ficção urbana, com suas conexões internacionais, na franja da globalização.

A sociedade em geral lucra com as intervenções da crítica especializada, quando esta se digna a ultrapassar os muros da universidade. Excluídas as pesquisas calcadas em teorias obsoletas, quase sempre chamuscadas de mitologia, gráficos enfadonhos e verniz psicanalítico, a universidade produz consideráveis trabalhos analíticos. Segundo Sérgio Rodrigues, a crítica universitária afastou-se do debate “porque quis”. É preciso lembrar que há universidade e universidade. O apequenamento não é só do debate crítico, é da cultura brasileira em geral. Está aí o enorme contingente de licenciados medíocres, oriundos de cursos inconsistentes espalhados pelo país.

Segundo tempo. Retomo um título de 1985. Meter o bedelho a certa distância permite matizar os vários ângulos da matéria. Affonso Romano de Sant'Anna, em comentário ao artigo de Flora, sugere que a autora erra o alvo ou não desenvolve a contento seu raciocínio. Em um dos seus livros, Literatura e vida literária, Flora Sussekind discute a relação literatura/censura na década de 70. Fruto de um exercício crítico forjado nos anos bicudos da ditadura militar, o livro traça um lúcido panorama da produção literária dos anos 70/80. Dialoga com os ensaios clássicos de Roberto Schwarz e Silviano Santiago, dedicados ao mesmo período, de forma consequente. Sem querer repetir aqui consabidas ilações, o apanhado de Flora Süssekind é uma contribuição importante, apesar de um mapeamento incompleto de autores, priorizando aqueles que tencionaram confrontar a Ditadura. São relevantes os comentários sobre o papel secundário da literatura, se comparada à indústria do espetáculo (cinema, TV), e a modalização a que é submetida a repressão, capaz de cooptar intelectuais, desde que “fossem cortados seus possíveis laços com as camadas populares”. Debitar, no entanto, aos militares o apoio exacerbado à indústria do espetáculo como forma de aniquilar a produção literária já extrapola os níveis de aceitabilidade. A indústria do espetáculo teria um salto avassalador, independente do apoio político, fadada a trilhar um caminho exitoso pela própria evolução da sociedade. Ao forjar a expressão “ficção de mãos dadas com o jornalismo”, flagrada na década de 80, a autora produz um achado, na intenção de nomear a ficção na vertente do documentário ou das alegorias fantasiosas de nação, para analisar autores alinhados ao propósito político, esbanjando platitudes, verosimilhanças e juízos de valor. Esse livro, em suma, embora apresente um irrepreensível fio condutor, destaca-se pelo abuso de generalizações e injustificados expurgos.

SANTIAGO, Silviano. Vale quanto pesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
SCHWARZ, Roberto. “Cultura e política, 1964-69”. In: O pai de família. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
SÜSSEKIND, Flora. Literatura e vida literária. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

Nenhum comentário:

Postar um comentário