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sábado, 3 de julho de 2010

Abreviaturas do invisível


Livro do mês:


Partilhar um pouco de tudo


O surgimento de novos poetas, aparelhados com o respeito à tradição e o ímpeto de criatividade, assegura a existência de uma grande variedade de tendências na poesia brasileira mais recente. A consistência qualitativa do discurso poético resulta dessa reiterada afirmação, por parte dos novos, de um intento renovador, do equilíbrio entre o pensar e o sentir, da perspicaz atenção ao cotidiano, da abertura ao legado transnacional. Modos de dizer e práticas dessa natureza, aliados a um refinado domínio do material linguístico e jovial vivacidade em moldar o inesperado, podem ser garimpados no livro de estreia de Paulo Merçon, Abreviaturas do invisível.

Este é um segundo prefácio, marginália de duvidosa serventia, descartável e inútil peça de segundo grau. O poema de abertura, de igual título e versos fulgurantes, bastaria para apresentar o livro, com maior eficácia e elegância. Em traços precisos, lá está glosada esta poesia: atual, concentrada, inflamada, austera, cujo brilho advém do uso de recursos alcançados após árduo embate.


Em minhas veias a paisagem
luminosa de dois trópicos
é cortada por um rio austero
de águas lapidadas em milênios
nascendo
límpidas do instante
em terras altas da Escócia.
A beleza mais nítida na superfície
em seu âmago ou percurso
será ainda a mais árdua.
(...)

A hábil associação entre “águas lapidadas” e palavras põe em relevo o cuidado com a elaboração formal. Como se trata de livro de estreia, paradoxalmente madura e impactante, nele as palavras são flagradas “nascendo/ límpidas do instante”, dando conta de um artesão capacitado e vigilante.


Em vão aventurei-me a copiar entre línguas
o brasão medieval – suas oito letras de ferro
que atiçam meu sangue em flamas
e das cinzas rebrilham:
per ardua - 'através da dificuldade'.

A gratuidade da revelação poética decorre de seu caráter fortuito e da atenta percepção, da disponibilidade laboriosa de quem pleiteia ser admitido como operário no jardim da secreta linguagem dos versos. E disponibilidade a quê? Ao imponderável, ao enigma, ao mistério, a uma forma inédita de expressão, ao cotidiano recôndito, ao tesouro de um achado verbal? Talvez um poco de tudo. Aquele que se posta diante do mundo com interesse pragmático de interpretá-lo pode não lograr fazê-lo no código engenhoso dos versos. Mas a disponibilidade apenas não basta. A revelação do enigma pode ser atingida sem ser partilhada. A partilha de saberes e descobertas constitui uma das mais elevadas qualidades da natureza humana. A aprendizagem da partilha está na base da prática da poesia. A capacidade de aguçar os sentidos difusos do mundo, a sensibilidade apta a desvelar a superfície dos objetos, a aprendizagem dos substratos emocionais do saber, a associação tensa de realidades distintas que se encarregam de dinamizá-los.


Ao partilhar saberes, o homem integra-se de forma harmoniosa no universo. O extenso repertório de fragmentos coletados engloba diálogo com outros poetas, a permeabilidade a outras formas de arte, a reelaboração de motivos, a contenção da intensidade emocional, o resgate de sentidos esparsos: “Entre a criança e o tempo/ não haverá ruína ou fogo,/ cinzas da história: o futuro é vento!/ e o instante seguinte virá antiquado.” A poesia não detém a presunção de tudo explicar, a ânsia de decifrar os expedientes e mecanismos da existência esfuma-se diante da recorrente imagem do efêmero que a tudo assiste:

Natureza-morta

à noite apenas
percebo que o eterno
no instante se extravia
que em cada instante
só o efêmero perdura

Espuma é a metáfora (de forte apelo visual, sonoro, plástico e erótico) sempre solicitada, para exprimir as coisas em seu aspecto de mutação e mudança de formas, ao mesmo tempo em que configura distanciamento do estático e cristalizado: “...nos esgotos da mente/ sua morte entre/ as espumas flutua”; “...algo blues entre as espumas/ eram abreviaturas do invisível/ no diâmetro da lente”; “...e com um pouco mais de afeto/ ao cuspir a espuma/ dos dentes se distinguia// a lágrima/ lenta e lúcida que escorria/ da flor exótica”; ...o medo entardece mais belo/ em alguma pedra se esfacela/ esborrifa!/ recua uma espuma mais pura”. A listagem poderia alongar-se ainda, se se quisesse. A transcrição integral impõe-se, neste interessante momento de síntese e surpresa:


Nota policial

e a rádio tocou
a gravação em estúdio do
rock que se conhecera
na versão ao vivo
roubaram
a espuma das ondas.


Dentre as múltiplas facetas do talento de Paulo Merçon, a tendência a refletir sobre a linguagem poética, a revitalização da metáfora e a escolha da cidade como tema são também traços singulares que de imediato se destacam. Sem incorrer na tarefa de exemplificá-los, de forma ordenada, não seria ocioso recortar duas ou três passagens, reveladoras da altíssima voltagem e das filigranas expressivas desse lirismo. A primeira estrofe de “Verso flambado”, no limiar de um poema de associações inusitadas, apresenta uma sequência de raros efeitos sonoros:

Três bailarinas nuas, as labaredas na lareira
loucas entre as toras, parecem leoas
e nascem outra vez da brasa
uma acaba de fugir!
como o inverno é eloquente.


Cumpre referir, para não deixar margem sobre a inquieta contemporaneidade destes versos, sua cumplicidade com os sinais de última geração da linguagem computadorizada: “a internet engasgou e/ por alguns instantes/ o computador/ ou sua tela era um corpo/ que na urna se velava,/ o semblante sereno em flores”, no poema “Chaves de casa”. Antes de deixá-los à vontade para usufruir com sofreguidão a beleza arrebatadora desta poesia, com o requinte e a mais-valia de uma surpreendente “Ópera carioquinha”, em que os ritmos populares se misturam a sugestivas construções linguísticas, nada melhor do que um breve aperitivo, o início de “Menina com bandolin”:

O dia amanheceu
levemente
envelhecido o céu
já disfarça as rugas (...)


Desistam da pressa e da ilusão de tudo entender, a completude ficou sem lugar. São versos apenas.


MERÇON, Paulo. Abreviaturas do invisivel. Rio de Janeiro: 7 letras, 2009.

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