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domingo, 27 de junho de 2010

Fernando Pessoa em Durban










      O futebol burocrático, chocho e previsível, apresentado pela seleção brasileira no jogo de 25 de junho contra Portugal pela Copa do Mundo, realizado em Durban, com o empate entediante de zero a zero, renovou o interesse pela poesia de Fernando Pessoa. O que tem uma coisa a ver com a outra? Fernando Pessoa e o futebol, nada. Não gostava de esporte, mais propenso à abstração, leitura e devaneios metafísicos. Fernando Pessoa e Durban, tudo a ver.

      O poeta dos heterônimos, considerado um dos maiores poetas ocidentais modernos, viveu grande parte da infância na cidade africana, entre 1895 e 1905. Para ser mais exato, nove anos e meio. A mãe, viúva do primeiro casamento, casou com o cônsul português em Durban, o comandante João Miguel Rosa. Fernando Pessoa, com seis anos, teve uma formação inglesa, estudou no Durban High School. Teria sido um adolescente ensimesmado e etéreo, pouco dado ao esporte, mais interessado em decifrar as inflexíveis peripécias do destino do que os exercícios físicos. Ao se preparar para o exame seletivo à Universidade do Cabo, conquistou (em certame disputado por 899 estudantes) o Prêmio da Rainha Vitória, pelo domínio em língua inglesa: uma coleção de clássicos da literatura britânica. Estuda, então, entre setembro de 1902 a dezembro de 1903, a obra de Shakespeare (a peça Henrique V constava do programa). Em apontamento escrito em 1919, (Páginas íntimas) esclareceu os motivos de seu desinteresse pelos poetas ingleses.

      “Encontro-me agora em plena posse das leis fundamentais da arte literária. Shakespeare já não me pode ensinar a ser sutil, nem Milton a ser completo. O meu intelecto atingiu uma flexibilidade e um alcance tais que me permitem assumir qualquer emoção que deseje penetrar à vontade em qualquer estado de espírito. Descobri que a leitura é uma forma servil de sonhar. Se tenho de sonhar, porque não sonhar os meus próprios sonhos?"

      Aos l6 anos, escreveu sonetos em inglês, assinados por Alexander Search, o primeiro dos seus heterônimos. Teria cogitado nessa época desenvolver uma carreira literária em língua inglesa, sonho depois descartado. Uma parte significativa de sua produção poética, sólida e multifacetada, no entanto, foi escrita nessa língua: os obscuros 35 sonnets (escritos entre 1913 e 1918), e os poemas “Epithalamium” e “Antinous”, estes escritos já na fase madura. Retomando a biografia de Pessoa, aos dezesseis anos retorna sozinho para Portugal, optando por uma identidade lusa, enquanto seus irmãos prosseguem os estudos em Londres. Um dos sonetos de Search “Could I say what I think, could I express”, maio de 194, afirma, na chave de ouro:

      Oh for a word, onde phrase in which to fling
      all that I think and feel, and so to wake
      the world; but I am dumb and cannot sing,
      dumb as Yuo clouds before the thunders break.

      Em tradução de Paulo Quintela:
      Oh! uma palavra, uma frase com que possa atirar
      tudo o que penso e sinto, e assim acordar
      o mundo; mas sou mudo e não sei cantar,
      mudo como vós, nuvens, antes de o trovão rebentar.

      Versos escritos por um adolescente de dezesseis anos. O heterônimo Álvaro de Campos, o poeta moderno que exalta a máquina e a velocidade, autor de “Ode marítima”, possui relações estreitas com a cultura britânica. Sua biografia (fictícia, é óbvio), o apresenta como originário do Algarve, cedo teria se deslocado para Lisboa. Dali, vai para a Escócia, onde se forma engenheiro naval. Seus poemas mostram intensa peregrinação: visita Londres, Iorque (“Soneto já antigo”), a Irlanda, além da China, Índia e a costa oriental da África (“Passagem das Horas”). Viajante por vocação, Álvaro de Campos é um engenheiro itinerante. Os indícios da irresistível atração pelas viagens estão presentes em outros poemas:

      “Outra vez te revejo – Lisboa e Tejo e tudo -
      Transeunte...
      Estrangeiro aqui como em toda parte”
      (“Lisbon Revisited II”)

      “E o esplendor dos mapas, caminho para a imaginação concreta,
      letras e riscos irregulares abrindo para a maravilha”
      (“E o esplendor dos mapas”)

      "E o Cabo da Boa Esperança nítido ao sol da madrugada...
      e a Cidade do Cabo com a Montanha da Mesa ao fundo...”
      (“Passagem das Horas”)

      "Nasci numa província portuguesa
      e tenho conhecido gente inglesa
      que diz que eu sei inglês perfeitamente"
      ("Opiário")

      "A entrada de Singapura, manhã subindo, cor verde,
      o coral das Maldivas em passagem cálida,
      Macau à uma hora da noite..."
      ("Passagem das Horas")

      "Grandes são os desertos...
      Acendo o cigarro para adiar a viagem,
      para adiar todas as viagens.
      Para adiar o universo inteiro."
      ("Grandes são os desertos")

      "Trinta dias de viagem, três dias de viagem, três horas de viagem
      sempre a opressão se infiltra no fundo do meu coração"
      ("Reticências")

      "Eu sou sempre o que quer partir
      e fica sempre, fica sempre, fica sempre,
      até a morte fica, mesmo que parta, fica, fica, fica"
      ("Passagem das Horas")

      "Ah, quem sabe, quem sabe,
      se não parti outrora, antes de mim
      dum cais..."
      ("Ode marítima")

Ref. Bibliográfica:

BERARDINELLI, Cleonice. Estudos de literatura portuguesa. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1985.
LIND, Georg Rudolf. Estudos sobre Fernando Pessoa. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1981.
PESSOA, Fernando. Obra poética. 7a. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1977.

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