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terça-feira, 13 de julho de 2010

O pai de meu cunhado


(Imagem reproduz charge de C. do Amaral, publicada na revista O Malho, de out. 1902)

O pai de meu cunhado Rezek era um literato conservador, formado em liceu salesiano na década de quarenta do século XX, quando os colégios católicos concentravam os filhos das elites provincianas. Diversas ocasiões ouvira-o defender com veemência os valores calcados na moralidade e bons costumes, misturando clichês e fervor. Só em colégios dirigidos por religiosos são ministrados os fundamentos da verdadeira estrutura ética da sociedade, dizia, a família é a célula mater dos agrupamentos sociais, a fortaleza moral, o mais lídimo celeiro das benfazejas sementes da virtude. Quem ouvia o enfadonho arrazoado de exaltação das qualidades da estirpe exemplar, jamais associaria sua personalidade aos desmandos e incúria de um mau chefe de família. O que ele era. Vinte anos atrás, abandonara a esposa e quatro filhos para viver à larga em São Paulo, onde teria dissipado a herança da mulher. A resignada e sofrida Dona Júlia. Quando retornou, afirmava ter sobrevivido dando azo à elevada missão de mestre do ensino médio, ministrando cursos de biologia e português em educandários paulistanos. Certa feita referiu um manual de literatura, em voga na década de sessenta, escrito por Ébion de Lima, uma das fontes seguras de sua erudição. A página obscura de seu passado ficou gravada na lembrança dos filhos (meu cunhado Rezek entre eles) os quais, anos mais tarde, mal lhe toleravam a presença sarnenta, envolta em coçado moralismo. Pai de fancaria, ou de folhetim, como tal aturavam-no aqueles nos colóquios familiares a que compareciam, por obrigação e praxe. Frases e aforismos dos clássicos repetia-os amiúde, a mais vezeira era o sertanejo é, antes, de tudo um forte. Sempre que enunciava a máxima de Euclides seus olhos brilhavam nas órbitas cavadas, abaixo de alvoroçadas sobrancelhas.

Literato e rábula desprezível, o pai de meu cunhado, César Augusto Própolis Rezek. Ilustrava à perfeição o típico erudito provinciano, exacerbado por leituras disparatadas. Padecia de uma loquacidade pedante, inócua e vazia. Dava a impresão de que habitava um universo suspenso, além das habituais e anódinas esferas cotidianas. Aos poucos foram descobertas as alucinadas relações com promissores talentos regionais. Depoimentos vívidos davam conta de uma novela por ele escrita, baseada em lúgubre episódio policial, tangida por descrições elaboradas em estilo gótico, pouco usual entre os autores autóctones. Dava cabal testemunho dessa peça ficcional um troféu ganho em menção honrosa, conquistada em concorrido certame promovido pela extinta revista carioca A cigarra. A láurea, um suporte de caneta em mármore preto, trazia incrustado um medalhão de prata, com inscrições. Dentre suas preferências intelectuais, figurava a ufologia, o estudo dos objetos voadores não identificados. Cuja atração calibrava visitas sabáticas à cidade de Varginha, para contato de segundo grau com supostos ETS esquálidos e impávidos. Desenvolvia ilações simbólicas entre o mistério dos extra-terrestres e sua própria existência, formidável e estupenda, em especial o quinhão escapista, o pendor para o desconhecido, o esteio das miragens.

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