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sexta-feira, 4 de junho de 2010

António Franco Alexandre





Livro do mês: Visitação
(As imagens reproduzem a capa do livro Poemas e o lendário Cartucho (Lisboa, 1976).

No mundo globalizado, o Nordeste brasileiro, com seu verão luminoso e praias paradisíacas, polariza anualmente o interesse turístico de grande número de europeus. Por motivos diferentes, pelo viés ecológico, a Amazônia também exerce um misto de fascínio e preocupação aos estrangeiros. Muito antes da recente redescoberta da natureza brasileira pelos europeus, um jovem poeta português, em 1983, deu a lume um livro motivado por uma viagem ao nosso país, realizada nos anos de 1977 e 1978. O poeta é António Franco Alexandre, após a experiência conjunta dos poemas amassados reunidos em Cartucho (Lisboa, 1976), em companhia de Joaquim M. Magalhães, João Miguel F. Jorge e Helder Moura Pereira. O livro com reflexões e notas de um viajante culto e refinado trazia um título emblemático, Visitação (1983).

O interesse pelo nomadismo nesse autor vem daquele que é considerado seu livro mais engajado, Objectos principais, de 1979, carregado de citações, aberto à diversidade cultural e ao gosto pela deambulação, como indiciam em especial os seguintes versos: “... a capa de um livro/ de viagens na vitrina” (ALEXANDRE, 1996, 83); “...confesso que me perco nas suas/ vitrolas, escutando no aéreo desenho/ os prospectos de uma viagem ao coração da áfrica” (ALEXANDRE, 1996, 115). Assumido pelo Autor como “um diário de viagem” (Inimigo Rumor 11, 2001, 51), Visitação retoma os traços poéticos revelados anteriormente e colige o impacto do conhecimento de lugares e pessoas, numa atmosfera cultural fortemente permeada pelo pós-colonialismo e pós-modernidade. A primeira série de poemas – sintomaticamente em número de sete, numa sutil referência à criação bíblica – apresenta o arrebatamento que preside simultaneamente o registro e a invenção de uma região marcada pela exuberância, primitivismo e mistura de sensações:

suponham que conheço a sua terra
o aroma irrespirável dos teares
o azeite da ira e
suponham que os invento
(...)
suponha que o início não começa
suponha que o princípio não limita
as palavras são duros tornozelos
o sol ruiu nos vidros deslavados
quase ninguém ou nada
o mergulho da tarde nos inventa
(ALEXANDRE, 1996, 123-124)

O discurso poético surge contaminado por uma ideologia típica de certa intelectualidade européia de fim de milênio, extremamente cética em relação às grandes narrativas, legitimadoras da emancipação e do conhecimento iluminista. O objetivo da metrópole, no projeto colonialista, estabelecia não só o direito de ocupar terras mas a obrigação de fazê-lo. A tendência revisionista do colonialismo, deflagrado nos anos 80 do século passado, provoca um afastamento do discurso imperialista, voltado para a ideia etnográfica que pressupunha a incapacidade dos indígenas para a tarefa científica e o labor cultural. Mas, apesar da descrença em relação aos parâmetros expansionistas, forçoso é reconhecer aquilo que Eliot denomina “o sentido histórico”, responsável pela formação do escritor, segundo o qual todo comprometimento contemporâneo não logra apagar de todo o peso do passado:

O sentido histórico leva um homem a escrever não só com sua própria geração entranhada até a medula, mas ainda com a sensação de que toda a literatura da Europa desde Homero, e dentro dela toda a literatura de seus país, possui uma existência simultânea e compõe uma ordem simultânea. O sentido histórico, que é um sentido tanto do intemporal quando do temporal, e do intemporal e do temporal juntos, é o que torna um escritor tradicional. E é, ao mesmo tempo, o que torna um escritor profundamente consciente de seu lugar no tempo, de sua própria contemporaneidade. (ELIOT, apud SAID, 1995, 34).

Nada tem significação plena isoladamente, nem o passado, nem o presente, nem o próprio poeta. Apesar da postura até certo ponto idealista de querer compreender o presente através do passado, não se pode ignorar a pertinência do argumento de Edward Said de que “a maneira como formulamos ou representamos o passado molda nossa compreensão e nossas concepções do presente” (SAID, 1995, 34-35). Não faz sentido, em antropologia, a concepção de uma identidade brasileira essencial ou absoluta: toda realidade natural só se afirma numa relação de contraste e oposição a outra, no caso, a europeia. Difícil ocultar o legado bíblico, quando o interesse é revelar o impacto provocado pela visão de uma nova terra. Algumas ressonâncias intertextuais acompanham os poemas de Visitação, revelando um sujeito hesitante entre o encantamento propiciado pela visão paradisíaca e as limitações da linguagem:

eu simplesmente ardi fui o retrato
das suas mãos que tecem pesadelos,
nas margens que deixaram
as migrações do vento
(...)
eu simplesmente ouvi a luz do vento,
(...)
a cada instante me devora o gume
embotado da tua
luz sonora
(ALEXANDRE, 1996, 124-126).

A cada verso percebe-se um sujeito tomado pela surpresa e perplexidade, as sensações solicitadas pelas imagens e metáforas descrevem a confusão de sentidos e o arrebatamento, provocado pela ruptura dos limites e o tenso convívio entre o humano e a paisagem, o real e o mítico. O inusitado encantamento pela terra generosa fica evidente no retrato desmedido, atravessado por notas que acentuam a interseção de sensações e a admirável luminosidade dos trópicos. Na medida em que o texto se abre cada vez mais para um universo exuberante e novo, paralelo à descoberta da paisagem, um corpo, quase sempre masculino, algumas vezes feminino, vai-se delineando, através de fragmentos soltos, aparentemente deslocados:

vejo as mãos que escurecem eram
doces os olhos a música das margens
a força caminhava junto
às fontes as douradas
silenciosas romãs

disposto o corpo à sua breve
altura

       vejo a terra quase
incendiada de águas
barcos e
a névoa os dissipa
(ALEXANDRE, 1996, 125)

A maçã transmudada em romã, nem por isso se desfaz a figuração do gênese, o relato da criação do mundo, configurando tópicos do paraíso bíblico (o poema 4 tem por título “éden”), em que forças telúricas e excessivas remetem à ideia de origem, nudez e despojamento: “o mar dobra os lençóis sobre/ doirados lábios e/ a nudez talha no ar/ os seus vestidos” (ALEXANDRE, 1996, 126). A poesia é o espaço privilegiado para um autor “que refuta um conceito cartesiano de realidade e, tendo renunciado às certezas, pode desfrutar tranquilamente a riqueza operativa das possibilidades”, na síntese oportuna formulada por um crítico italiano (CATTANEO, 1983). A saída do paraíso é também a inserção do sujeito nos limites do espaço e do tempo da História: “afasta do meu rosto a tua vã promessa. deixa/ que seja brando o sono sem lembrança,/ um chão de terra nua./ do teu jardim de chamas me despeço” (ALEXANDRE, 1996, 126).

A produção poética de António Franco Alexandre explora inúmeros recursos, entre os quais, a associação inusitada de objetos e sensações, a desordem sintática, a equiparação entre o concreto e o abstrato, a citação cultural, traços de narratividade e uma rigorosa espessura rítmica, num universo verbal marcado pela incerteza e imprecisão. A configuração de um universo movediço, em constante movimento e desagregação, articula-se a uma identidade poética também estilhaçada, ainda que recetiva à circulação de outras vozes. Adélia Prado, Mário de Andrade, Drummond, Alencar, entre outros, para citar apenas os brasileiros, reaparecem em fragmentos ou motivos instantâneos, rápidos, quando não de forma explícita: “tem pecado no mundo, demais. Adélia Prado cristã/ escreveu: não há destino”. (ALEXANDRE, 1996, 140). Quase todo um poema resulta de reelaboração de frases de Alencar: “acerca da língua (esta) declaro:/ gotas de verde e estranho licor vazadas/ da igaçaba;/ já atravessa as florestas; já chega/ aos campos do Ipu; nada havia/ porém de suspeito/ no intenso respiro da floresta” (ALEXANDRE, 1996, 146). A escrita nômade faz breves recortes, invade intimidades, flagra um cotidiano entre a aspereza e a malícia: “(...) alguns homens subiram o penhasco/ para pousar as pedras em varanda/ calcule a insensatez/ desta paisagem” ;(ALEXANDRE, 1996, 131); “(...) tem grito de mulher no quarto ao lado/ (é filme), tem canivete/ encima da mesa branca,/ tem lavadas crianças bebendo suco,/ tem a rua, o jardim,/ o hálito da água” (ALEXANDRE, 1996, 141). A obsessão pelo retrato persiste. Alguns lugares são nomeados, reverberando, para além do efeito de realidade, matizes de uma câmara ágil e itinerante: “viajo na Princesa do Agreste/ até Caruaru: um erro. ou: um fogo/ se ateou inexplicado/ na vertente sombria/ do verso”(ALEXANDRE, 1996, 144);  "em salvador em juncos nas areias/ no brilho de entrescamas de bomfim/ sinto-me pobre cristo a tarde/ toda” (ALEXANDRE, 1996, 150). A câmera indiscreta invade lugares habitados por suposta intimidade, ateando insinuações entremeadas de ambiguidade e erotismo:

(...)
no resto dos seus olhos
pousarei o lençol, lembrando
o ângulo das chuvas, e os brandos
meteoros.

passeio-me
de tranças, com um fio
azul por entre as franjas
flexíveis da memória.

encontro esse motivo nos seus dedos,
na sua carne de curtume branco.

deixe que viva nos seus olhos, rosto.
(ALEXANDRE, 1996, 153-154).

Entre tantos outros, destaca-se o belíssimo poema 8 da terceira parte, caracterizado por variada rede de sugestões, simplicidade cortante, musicalidade sufocada e densa teia simbólica:

(...)
nesse bar de manaus não estarei
onde me aguardas, bem sei, onde me aguardas

com o sino quebrado em uma mão
e na outra o sinal fluorescente

virá a noite e os teus cabelos dóceis
sobre a mesa de pedra irão secando

vou deixar esta estrada a água
é o meu tormento
em um bar de manaus incessante te aguardo.
(ALEXANDRE, 1996, 138-139).

Em abordagem anterior, formulei interesse por esses versos, ressaltando a “ambiguidade sexual que indiciam: a metáfora do sino quebrado articula-se tanto ao aparelho sexual viril, através do apelo visual, densamente vivido pela geração dos filhos do cinema, Marx e coca-cola, como à repressora religiosidade” (PEREIRA, 1999, 109). Visitação integra a recolha publicada em 1996, com o emblemático título de Poemas. Confesso o hábito de relê-lo com alguma frequência, sempre que me vejo privado de livro de poemas que me agradem. Ao possibilitar o conhecimento da terra a partir de uma viagem ao Brasil, o livro de Franco Alexandre comprova mais uma vez um consenso válido desde Camões e Vasco da Gama: alguns portugueses são bons poetas e viajantes atentos. Por outro lado, como álbum e memória de uma viagem colonial às avessas, este livro singular reitera, com a espessura e os ingredientes líricos, o entendimento de que as formas e as identidades culturais só se constituem em seu leque de oposições, na relação com o contrário, por serem ambíguas, híbridas e impuras.

Referência bibliográfica:

ALEXANDRE, António Franco. Poemas. Lisboa: Assírio e Alvim, 1996.
CATTANEO, Carlo Vittorio. “O viver impreciso” de António Franco Alexandre, Expresso, Lisboa, 27/08/1983.
Inimigo rumor 11. Rio de Janeiro: 7 letras; Lisboa: Livros cotovia, 2. semestre 2001.
PEREIRA, Edgard. Portugal, poetas do fim do milênio. Rio de Janeiro: Sette letras, 1999.
SAID, Edward W. Cultura e imperialismo. São Paulo: Companhia das letras, 1995.

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