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terça-feira, 11 de maio de 2010

A UFMG adota o ENEM





A foto acima é de Frederico Haikal, do jornal Hoje em dia.


Estudantes secundaristas fizeram hoje à tarde ruidosa passeata no Campus da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Os protestos e palavras de ordem ecoaram ritmados e bem humorados, nos moldes das manifestações de torcidas esportivas, como se estivessem no Mineirão, ali perto. “Não é mole, não! Entrar na UFMG virou embromação!” Motivo? A UFMG adotou o ENEM (exame nacional de ensino médio), aplicado pelo Governo, após renhida e arrogante resistência. A primeira etapa do vestibular, de reconhecida competência, segurança e alto nível de exigência, com 64 questões sobre oito disciplinas, para todos os candidatos, simplesmente deixa de existir e passa a valer a nota do ENEM.




Os estudantes, no caso, em geral são filhos de pais burgueses: cursaram colégio particular, frequentam curso preparatório, compraram os livros de leitura obrigatória (exigidos pela Universidade), leem os tais livros ou resumos elaborados pelos Cursinhos, são treinados à base de dicas montadas com base no histórico dos vestibulares passados. A classe social não importa. O que eles temem? A alteração das regras durante o jogo, antes de mais nada e nisso têm razão. Temem ainda o o acréscimo de candidatos de outros estados, acirrando a concorrência. O uso do ENEM aliado à política das cotas (para afrodescendentes) na verdade transforma a seleção para o curso superior numa competição pseudo democrática, em que alguns disputam com maiores chances que os outros.



A despeito do interesse em valorizar e implantar o ENEM, o MEC tem-se portado de forma amadora e estabanada, no gerenciamento de uma avaliação de tal amplitude, no que diz respeito à segurança e qualidade das questões. Ainda estão vivos na memória da sociedade os atropelos e fraudes que envolveram a última edição do referido exame. Para não referir a presença de questões supostamente tendenciosas no viés político, criticadas à época por renomados especialistas.



Além dos fundamentados receios dos estudantes, outros setores são atingidos pelo novo formato do vestibular da UFMG. Não haverá mais a lista de obras de leitura obrigatória para todos os candidatos; na segunda etapa, pelo que tem sido divulgado, apenas os candidatos aos cursos de letras, comunicação, dança e teatro teriam prova específica de português, incluindo questões sobre as obras literárias. Por que apenas tais áreas, que não recobrem nem as chamadas licenciaturas na área de ciências humanas? Se as exigências sugerem competências indispensáveis, ainda que distintas, por que alijar os futuros profissionais da área da filosofia, direito, história e pedagogia, da fruição literária? De imediato, perdem (e muito) os professores de literatura, ao se verem privados de atuação massiva no ensino médio, com a redução drástica de seu campo de trabalho. Não ouviremos mais à mesa engenheiros e médicos mencionarem, enfáticos: gostei demais quando li Drummond à época do vestibular. Clarice Lispector, Vinícius de Morais, Cecília Meireles, João Cabral, Machado de Assis, Rui Mourão, Osvaldo França Júnior, em cardápio bem variado, serão menos lidos daqui para a frente. A UFMG pode virar um Colegião, após a mudança? Prematuro afirmar, a não ser que outros fatores negativos se associem, o que soa improvável para uma instituição do porte e do gabarito da UFMG. Uma coisa é certa: a imagem ficou arranhada e escoriada.

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