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segunda-feira, 3 de maio de 2010

Corpo estranho




Livro do mês:


“Ela concorda que tem tido enlevos passageiros com as coisas do passado. Do nada, uma nuvem de lembrança atravessa a mais inesperada das horas e povoa de enigmas o resto do dia. Há também os chás que esfriam sobre alguma mesa, abandonados, os nomes que precisam ser repetidos ou, ao contrário, a súbita vergonha de estar contando outra vez a mesma história.”


Estes são pensamentos de Mariana, personagem de Corpo estranho, romance envolvente e delicado, construído em torno de poucas personagens, pela autora Adriana Lunardi. São três os protagonistas: Mariana, uma ilustradora botânica já madura, imersa no passado, com o qual estabelece inúmeras teias significativas; Paulo, um marchand excêntrico, bem sucedido financeiramente; Manu, jovem fotógrafa, dividida entre os achaques da diabetes e a ânsia de flagrar o instante efêmero. Os dois primeiros tocam suas vidas de forma pouco amistosa, evitam-se, sem conseguir esconder uma natural indisposição, uma tácita animosidade, ampliada a partir de um acidente fatal que os aproxima e afasta. A morte precoce de José, a ponta de um estranho triângulo amoroso. Com um mínimo de ação, a autora desenvolve uma surpreendente e inquietante narrativa, enriquecida por uma linguagem sofisticada e exuberante. As descrições dotadas de vivo alcance pictórico, carregadas de sensações cromáticas e apelos visuais, alternam-se a densas camadas de fluxos de consciência, configurando um universo à procura do equilíbrio entre arte e ciência:

“Mariana está a um passo de finalizar o retrato. Desde os rudimentos iniciais de composição, decidiu que irá colocar sua assinatura no canto esquerdo. Nesta arte, praticada desde o Renascimento, quando o mundo não sabia o nome de quase nenhuma planta e apenas os monges colecionavam e conheciam suas propriedades medicinais, o desenho e seu autor eram fontes preciosas para identificar o lugar da colheita e onde ocorria a variação da espécie. Mariana há de escrever seu nome inteiro, vingando as ilustradoras vitorianas que punham apenas iniciais antes do sobrenome. (...) Foi preciso incendiar sutiãs, anos depois, para que a maior parte da humanidade pudesse usar nome próprio e assumir a autoria de seus atos. (...)
Quando os olhos conferem a bromélia quase concluída, não veem apenas o equilíbrio de arte e ciência numa planta bem ilustrada. Cada minuciosa pincelada é uma subversão àquela ampulheta onde uma poeira vaza jornadas inteiras.“ (Cap. III)

Adriana Lunardi insere-se na reduzida linhagem dos (bons) escritores de tendência psicológica, menos voltados para o encadeamento de aventuras mirabolantes e vertiginosas. A lentidão na narrativa, acoplada aos mínimos gestos, reações e pensamentos, contudo, não reduz o interesse pelo desenvolvimento da intriga, despertado a cada capitulo, através de rigoroso cuidado na elaboração das cenas e na manutenção de algum mistério, parcamente partilhado. A análise do interior das personagens, o mergulho nas filigranas reflexivas, a habilidade entre o desvelar e o esconder são estratégias orquestradas de forma engenhosa. Ainda quando o relato aparenta uma estrutura linear, não se distancia da ideia de tempo interior, compreendido como fluxo incessante da memória, solicitada através de associações psíquicas, obsessivas e descontínuas. Não estamos a rigor diante do romance psicológico convencional, avesso ao enquadramento do espaço. Tendo protagonistas inseridos no mundo das artes plásticas, a total anulação do enquadramento espacial seria incongruência. Nem se afasta de um Realismo difuso, cujo intento parece ser esmiuçar o intricado fenômeno da memória:

“O movimento ao redor atordoa Mariana, pressionando-a a uma atitude cooperativa. Ela disfarça sua evasão indo até a janela, onde pode continuar de costas para aquele cenário animado. Pára diante da folha de madeira com uma atranca atravessada, mas não é isso o que vê. Seu olhar dispersa-se no mosaico de memórias que não chega a formar uma imagem. São apenas fraturas de um passado que de novo se quebra, após tantas tentavas de reconciliação. Talvez por não suportar a luz artificial em pleno dia nem o claustrofóbico ar de casa fechada, ela começa a manipular o mecanismo das fechaduras, abrindo uma a uma as grossas tramelas feitas à mão, desencaixando o que era de desencaixar, torcendo o que era de torcer, até prender as folhas envidraçadas em um par de borboletas de ferro”. (Cap. XVII)

Além do tributo à beleza natural dos trópicos, o livro de Adriana Lunardi tece uma elegia melancólica à memória da ilustradora britânica Margaret Mee e ao patrimônio estético forjado pelo gênio humano.

LUNARDI, Adriana. Corpo estranho. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.

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