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segunda-feira, 5 de abril de 2010

José Saramago

Livro do mês:

      Em ritmo de releituras, volto ao Memorial do convento, de José Saramago. O autor, primeiro Nobel português, tornou-se alvo predileto de farpas de escritores (António Lobo Antunes na dianteira) e de alguns blogueiros lusos. A última investida lança suspeita sobre o romance Intermitências da morte, sobre o qual pairam dúvidas a respeito de sua originalidade. Um autor mexicano, Teofilo Huerta Moreno, reivindica direitos, afirmando que Saramago teria se inspirado numa novela de sua autoria, intitulada “Últimas notícias”. Apresenta provas, sem aceitar o argumento do inconsciente coletivo. Outros tentam turvar a glória do escritor luso, afirmando generalidades e idiossincrasias estéticas, quase sempre inconsistentes, mais reveladoras de despeito e inveja do que outra coisa.

      Distante do alvoroço, a legião de admiradores de Saramago aumenta a cada dia, pessoas comuns, alijadas da competição literária, universitários, atraídos pela temática ou pela popularidade alcançada após o Nobel. Em meio à grita da turba, após reler O Evangelho segundo JC, impus-me a releitura de Memorial do convento. É um romance soberbo, de um refinamento inventivo admirável. Projetei reler um capítulo por dia, compromisso afortunado em três semanas de férias. A construção da fábula e a invenção das personagens, especialmente as três principais (padre Bartolomeu Lourenço, Baltasar Sete Sóis, Blimunda Sete Luas), por si só bastariam para consagrar o autor. O motivo da passarola, a teia simbólica, a caça às bruxas em plena Inquisição e a intriga fantástica envolvendo o casal misterioso (o soldado maneta e a mulher vidente) são elementos decisivos para criar interesse pela leitura. De quebra, lá também está o compositor Domenico Scarlatti, viajando montado em mula, ministrando aulas de música na corte à princesinha Maria Bárbara. Observam-se dois núcleos narrativos: o dedicado à construção do convento, em função da promessa feita pelo rei, caso a rainha D. Ana lhe desse um herdeiro ao trono; o núcleo da construção da passarola do padre voador. O titular do primeiro núcleo é um narrador irônico, sempre interferindo no andamento do enredo com notas críticas, algumas mordazes. Diferente do outro narrador, que se deixa contaminar pelo respeito ao humano e pela atmosfera poética. O contexto histórico recobre o reinado de D. João V e a construção do convento de Mafra. Há falhas estruturais, saltos narrativos? Pode haver, sim, alguma lacuna estrutural. Ou alguma ligeireza na caracterização psicológica de personagens. Especialmente se o leitor se mostra formatado pela moldura narrativa realista. O autor aplica à realidade portuguesa do século XVIII o conhecimento cultivado na pesquisa histórica e a necessária dose de invenção, ao recriar fatos, ao desnudar a determinação religiosa do povo português, ao presentificar costumes e comemorações típicas.

      Mesmo quando envolta por um léxico arcaico (os atavios, os melquetrefes, hissope, calabres, o vedor, as cabrilhas, minorcas, reposteiros, ensambladores, tercenas, mesteres), a narrativa é interessante e agradável. Irônico, espirituoso, capaz de transitar com firmeza do passado para o presente, com desenvoltura e leveza, Saramago mostra-se grande conhecedor da literatura portuguesa, ao explorar efeitos intertextuais. E o que mais impressiona é a riqueza da invenção, a prodigiosa imaginação, apta a recriar o passado e descrever de forma elegante e erudita os lances pitorescos de uma fábula, alguns deixados como fragmentos inconclusos, envoltos pela bruma ou névoa seca, com a qual se pretende recobrir algum excesso de fantasia. Em especial, dois capítulos são excelentes: o que narra o transporte da enorme pedra de mármore pelos caminhos de serra e chuva, até Mafra; o que narra a romagem, a viagem das carruagens reais de Espanha e Portugal até o rio Caia, para o casamento dos príncipes. A mistura de seriedade e riso, pólos contrários, torna o livro objeto privilegiado para a análise segundo os critérios da carnavalização, nos moldes teóricos de Mikhail Bakhtin.

SARAMAGO, José. Memorial do convento. 9. ed. Rio de Janeiro: Bertrand do Brasil, 1992.

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