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segunda-feira, 8 de março de 2010

Quem quer ser milionário?



Só depois de assistir ao filme, surpreso pela energia e adequação de recursos, atinei para o diretor. Quem mesmo? Danny Boyle, que em 1996 apresentou um painel desconcertante e nada glamouroso do mundo das drogas, naquele que é considerado um dos melhores filmes britânicos da década de 90, Trainspotting. Estavam explicados os oito óscares.


O argumento flagra o percurso de um jovem de dezoito anos, originário de uma favela de Mombai (Índia) que, na iminência de faturar um prêmio milionário em programa de tv, é preso por suspeição de fraude. Como fundamento básico, desenvolve-se uma história de amor, impregnada de miséria, abandono e acasos. Usando atores não profissionais, com uma câmera ágil, no ritmo frenético da vida contemporânea, o diretor retrata a trajetória de três personagens, da infância à juventude: os irmãos Salim e Jamal (Dave Patel) e a jovem Latika (Freida Pinto).

O destino que os aproxima e afasta é o mesmo que torna o protagonista conhecedor de diversos saberes, assimilados no cotidiano quase sempre adverso. Apesar do título, o protagonista move-se em direção ao programa de tevê, desprovido de objetivo exibicionista e financeiro. Aparecer em programa popular para ele é um pretexto para ser visto pela jovem que ama. A história engloba situações socioeconômicas típicas das grandes metrópoles, tais como a corrupção, a máfia das drogas, a desigualdade econômica, a manipulação dos menos favorecidos, além de questões específicas do contexto indiano, como o fanatismo religioso. Em dado momento, Jamal condena o fanatismo religioso, responsável pela morte de sua mãe, afirmando: “Se não fosse por Alá ou Rama, minha mãe não estaria morta”. A semelhança com a realidade brasileira (leia-se cinema brasileiro) acentua-se na articulação da trama a um protagonista nascido em favela. Mas as semelhanças terminam aí. As cenas de violência são compensadas pelos elementos humorísticos e ingênuos. A estrutura em ziguezague, em que as cenas do passado interferem no presente da ação, e o poder sugestivo das imagens conferem à narrativa um toque de refinada sutileza. O uso do programa de tv dentro do filme funciona como uma disfarçada estrutura especular, com enorme poder de interação. O final envolve o espectador de forma impactante, transformando-o simultaneamente em espectador do programa de tevê e do filme, na linha da cumplicidade reflexiva. Ao contrário do convencional, percebe-se sobriedade e equilíbrio no uso dos ingredientes típicos da cultura indiana, sempre abordados pela conexão de significado, como a dança numa gare idealizada no apagar das luzes.


Celebração inquieta e tensa do amor e dos acasos do destino, o filme avança ainda na direção da discreta crítica aos desdobramentos perversos da globalização.

2 comentários:

  1. Não vi este filme, mas penso que, de alguma maneira, ele pode ser aprocimado de outro: Up in the air. Viu? Vale a pena. Se por nada, apenas pela atuação de George Clooney. Mas vale a pena. Recomendo!
    Abraço

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  2. Talvez veja o filme com George Cloney por sua recomendação. O ator não é dos meus favoritos. E por sinal não consta do Astros e Estrelas, publicação da Abril Cultural(1991), lembra? De uma relação de 628 biografias, que inclui Sônia Braga.
    Abraço,
    Edgard Pereira

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