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domingo, 10 de janeiro de 2010

Pode o subalterno escrever?


As opiniões a seguir têm relação direta com o título deste espaço e demandam um certo desenvolvimento. No âmbito de um evento cultural realizado em Belo Horizonte em fins dos anos 90, fui enquadrado genericamente no grupo de escritores subalternos. Os detalhes foram um dia aqui referidos, no início das atividades. O interesse teria sido delimitar uma linha divisória, capaz de delimitar de um lado os autores maiores, cortejados pela mídia, e do outro, os autores menores, rasos, subalternos. Em nomenclatura discriminatória, inferiores, desprestigiados, sem expressão.


Para os estudos pós-coloniais, denominados por outros de estudos culturais, surgidos em fins dos anos 70 nos Estados Unidos, subalterno significa outra coisa. Opõe-se, de imediato, a europeu, por extensão, dominador, na básica polarização colonizador/colonizado, dominador/dominado. Teóricos europeus do porte de Jacques Derrida e Michel Foucault passaram a questionar a hegemonia da cultura europeia, caracterizada por uma concepção identitária idealista e essencialista. Em 1988, a antropóloga e pesquisadora indiana Gayatri Spivak causa polêmica, ao publicar o ensaio que leva o título "Pode o subalterno falar?" ("Can the subaltern Speak?"). O título acima retoma, em forma de paródia e ironia, aquela pergunta. A necessidade de se desconstruir a História escrita pela ótica eurocêntrica, a ênfase no hibridismo e na diversidade cultural, o interesse pelas histórias locais (os estudos subalternos, o pós-ocidentalismo, o orientalismo, o afrocentrismo) constituem eixos fundamentais dos trabalhos de pensadores como os indianos Hommi Bhabha e Edward Said e Robert C. Young, entre outros. Inúmeras categorias epistemológicas são questionadas, os processos de afirmação e domínio de uma cultura sobre outra são percebidos como formas autoritárias de opressão e esvaziamento de referenciais autóctones.


A afirmação da diferença étnica, política e cultural não se fez de forma indolor, pacífica. A pós-modernidade procura compreender a sociedade contemporânea como herdeira dos vários movimentos de libertação, ocorridos em diversos planos (raças, classes, gênero). A conquista da independência de várias nações africanas, até então colonizadas por europeus, ocorreu após lutas sangrentas, dos dois lados. Na história universal, os excluídos (e a exclusão arregimenta aparelhos autoritários de opressão) em geral eram os negros, as mulheres, os gays , os índios e estrangeiros. A luta por direitos iguais de negros, gays, mulheres, índios, estrangeiros, também não ocorreu de forma serena.


Sem querer alongar muito, são por demais conhecidas as formas de escamotear e mascarar os conflitos decorrentes das diferenças raciais na realidade brasileira. O falso consenso de uma convivência cordial das três raças (branca, negra, indígena) tem sido usado para justificar uma pretensa democracia racial. Não estamos distantes desta concepção distorcida da realidade brasileira, elevada à categoria de ciência, que pretende ver no caldeamento das raças a construção de uma sociedade futura desprovida de conflitos, em função do progressivo esvaziamento dos valores e ingredientes das raças negra e indígena. Respeitáveis cientistas sociais brasileiros (Oliveira Viana, Gilberto Freyre) fundamentaram, em seus trabalhos, proposta semelhante.


A literatura desempenha um papel fundamental na disseminação da identidade de um povo, esta é uma proposição de uma clareza mediterrânea. A literatura africana, feita por nativos ou assimilados (como Pepetela, Mia Couto) contribuiu de forma decisiva para o processo de libertação de povos africanos. Os princípios de tolerância e civilizada convivência entre os povos e as pessoas não podem ser esquecidos, mesmo em tempos de selvagem globalização. Por fim, cabe afirmar com dignidade: sou um escritor subalterno, um escritor latino-americano pós-moderno.

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