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domingo, 3 de janeiro de 2010

Délcio Vieira Salomon


Livro do mês:

O projeto ficcional de Délcio Vieira Salomon, em O cavalo de São Roque, realiza-se de forma híbrida, na medida em que funde traços narrativos, ensaísticos e poéticos. Conhecido no meio acadêmico dos anos 70 como pesquisador na área de metodologia científica, publicou outros livros, em especial Como fazer uma monografia. Em palavras do autor, impressas na contra-capa, o intento seria: “relatar vivências, mas sob a luz do presente. Com o desejo insopitável de exercer reflexão sobre elas ou, quem sabe, de procurar um elo perdido”. O fundamento básico de sua experiência ficcional finca raízes no solo escorregadio da autobiografia. São cinco relatos, rotulados de “quase memória”, nos quais o autor se debruça sobre uma arqueologia íntima, iniciada na recuperação da dimensão humana e cultural do avô, entendida como marco excepcional e quase mítico, mote justificador dos outros. O primeiro relato, fronteiriço do ensaio, ocupa quase um terço do total das páginas, configurando o culto da ancestralidade, em primeira instância, e a necessidade de legitimar o conjunto de textos calcados na memória. É sabido que o interesse de relatos autobiográficos assenta-se justamente no caráter excepcional das vivências relatadas. Nesse sentido, na Idade Média, os reis contratavam cronistas, encarregados de registrar as principais ações por eles realizadas. O objeto de três relatos do meio é a infância e o período de formação do autor em seminário católico, matéria palpitante para uma novela psicológica, no entanto apenas esboçada. O penúltimo texto, no limiar do ensaio teológico, surpreende pela alta voltagem da camada conceptual e rigor das deduções. A crônica da família ocupa o último relato, com certeza aquele que mais se destaca pelas qualidades intrinsecamente ficcionais.

Em geral, o memorialismo surge impregnado de um significado forte de descontentamento com o tempo presente. O mergulho no passado representa uma espécie de insatisfação face ao presente, um afastamento dos princípios do meio social. Isto pode se aplicar com maior ênfase nos relatos de abertura e encerramento, justo aqueles que não se mostram centrados na figura do autor. A atmosfera saudosista percorre toda a obra, ainda que recortada aqui e ali por um grito de revolta ou amarga indignação. Mas o passado aqui nem sempre é lugar aprazível, bosque deleitoso. O narrador culto não desperdiça a chance de exibir uma erudição de raízes filosóficas e tomistas, quando seu olhar se distancia do núcleo familiar. O substrato erudito funciona como contrapeso ou recompensa pelas frustrações no plano pessoal, quando o passado sobrevém com seu pesado manto castrador e opressivo, ou, de acordo com os versos citados de Drummond, revelando “vergonha tristeza asco”. Todas as epígrafes, aliás, são de Drummond e expressam a ideia de que a escrita da memória nutre-se da ruína e da decadência, seja pessoal ou coletiva. O terceiro relato flagra a astúcia de um padre pedófilo, retirando a máscara de hipocrisia que sustenta o vício e a sordidez. O aparato literário, porém, mostra-se capenga, incapaz de colmatar a confidência em moldura de refinado fingimento. A mediação ficcional (afirma o autor, em “À guisa de introdução”: “aqui o leitor encontrará cinco depoimentos”), mostrando-se frágil, escancara a postura confessional. A literatura, no entanto, exige mais que depoimentos bem intencionados. Perpassa, no âmago mesmo desse projeto memorialístico, uma franja de lugar-comum, uma nota conservadora. Uma das fraquezas do livro. A Editora ficou devendo as margens direitas.

Registrem-se, como prova de acerto e de produtiva elaboração, o belo título, a celebração dos acasos, a ousadia de algumas análises, a capacidade de extrair tensão em conceitos e a sutileza de admiráveis argumentos.

SALOMON, Délcio Vieira. O cavalo de São Roque. São Paulo: Livro pronto, 2009.166 p.

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