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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Crítica, atividade secundária?

A imagem é um bico-de-pena feito pelo meu irmão, Edmundo Carlos Pereira.

O crítico literário é nos dias que corem um profissional raro e desvalorizado socialmente. Já ocupou um lugar prestigiado, nas décadas de 50 e 60, quando os grandes jornais mantinham um crítico oficial, encarregado de avaliar a produção literária. A partir dos anos 80, a literatura entra em colapso, decresce o interesse majoritário que até então desfrutava entre os bens culturais. Falava-se então do salto epistemológico. Passa a ser vista como uma manifestação artística, ao lado de outras (o cinema, a pintura, o teatro, a música, a fotografia, etc.). Em época de crise (que envolve fatores socioeconômicos), o crítico literário, profissional inserido na outra ponta da corrente, padece duplamente. Para ele (produtor de um discurso de segundo grau) os efeitos da crise são mais perversos.
O crítico é um literato subalterno? As coisas não deveriam ser postas desta forma, mas alguns escritores agem como se assim fosse. Colocam-se numa esfera superior, uma torre-de-marfim intransponível para o homem comum. Tratam o crítico como um profissional secundário, encarregado de avaliar o legado literário de determinada época. Há nessa concepção uma certa propriedade, mas ela carrega também uma supervalorização do trabalho criativo. As relações entre críticos e criadores em todos as áreas sempre foram tensas, cheias de conflitos. São conhecidos os casos de escritores ressentidos, por serem ignorados ou esquecidos pelo discurso crítico. Acontece que ninguém consegue ler tudo. Ainda mais num contexto de descaso e desinteresse pela produção literária, no qual o crítico não tem incentivo algum. Em linguagem clara, acompanhar a produção literária demanda alto poder aquisitivo. Um perfil distante da realidade. Os editores de cadernos culturais (alvo de sabidas doações por parte de editoras e autores) atuam geralmente como diluidores das obras e autores consagrados. A lengalenga às vezes fica não dita, mas age de forma subrreptícia. Aliás, sub é o prefixo apropriado, segundo a maioria dos agentes culturais, para aqueles que exercem a atividade crítica. Quando o comentário crítico é pertinente, o escritor manifesta seu agradecimento, reconhecendo o caráter profissional e a competência revelada. Ao fazê-lo, sem querer e de forma ingênua, assinala o caráter secundário do trabalho crítico.
A propósito dessa querela, convém reportar a um texto, escrito por esclarecido homem público, Euclides Pereira de Mendonça, encarregado de apresentar um volume de crítica literária. Ele afirma mais ou menos o seguinte: o crítico é uma vocação rara, em termos numéricos. Textualmente, com algumas distorções e escorregadelas:
"Muitos depreciam o mérito das obras de compilação, exorbitando o valor daquelas que são especificamente criativas. O engano, facilmente se desfaz, quando sabemos que a criação (no plano estético) é um dom gratuito, inato, e, por isso não requer esforço, método, estudo, dedicação e acuidade. O número de poetas e artistas em geral é a prova disso. Os críticos, como também os compiladores, têm sido injustamente acusados de meros glosadores ou impotentes eunucos. A verdade é que sua seara é bem mais ingrata. O seu reduzido número é uma prova disso. Para dez de gênio aparece apenas um crítico". (MENDONÇA, Euclides Pereira de. Dicionário crítico do moderno romance brasileiro. Grupo gente nova. Prefácio a Suplemento, Belo Horizonte: São Vicente, s.d. (provavelmente 1972).
Discordo do senhor Euclides Mendonça, Sub-secretário de Educação de Minas Gerais à época, quando afirma que a “criação (no plano estético) é um dom gratuito, inato, e, por isso não requer esforço, método, estudo, etc.” A criação qualificada requer, sim, estudo e esforço. São ofícios diferenciados, com graus de dificuldade e habilitação específicos. Mas que o trabalho crítico ocorre numa seara ingrata, nisto ele tem inteira razão.

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