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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Oscar Kellner Neto



Livro do mês:

Fazenda interior são contos e novelas que procuram fixar, de forma positiva, os tipos humanos e costumes do meio rural. Com uma indisfarçável influência roseana, no trato com a linguagem. O autor, Oscar Kellner Neto, vem produzindo poemas de apelo visual e ficção desde os anos 70, tendo publicado, entre vários outros livros, os relatos Coivaras, em 1984. Trata-se de uma coletânea irregular, alguns textos (os mais afortunados esteticamente) moldados no formato sintético do conto; outros, mais desenvolvidos, tendem ao andamento multifacetado da novela. Os contos (esta evidência impõe-se ao leitor mediano) apresentam desempenho e espessura estética superior às novelas. O primeiro, de nome “Paz-Sarinha”, publicado sob o título de “O boi Charuto”, na revista Globo Rural, nos anos 90, é uma admirável realização literária. Nas peças de maior fôlego, o narrador empreende uma visão panorâmica em variadas frentes narrativas, sem conseguir extrair o núcleo essencial da trama. Se a estrutura se encomprida numa dimensão abrangente, pulverizando o eixo dramático central, não faltam porém, descrições esmeradas e ricas em colorido e graça.


O andarilho flagrado no mato, constante do fragmento intitulado “Lúita”, é outro momento criativo admirável, página digna de antologia. Uma breve passagem:

“Depois que esvaziou o alforje encardido, arrancou lá do fundo uma fotografia envelhecida de sua velha mãe. Mostrou-o pro rapazola e ficou taciturno.
Aí, seus olhos se encheram de lágrimas, que desceram rolando pela cara suja da carusma dos infindáveis fogos acesos nos ermos... Enxugou os olhos com a fralda desfiada de sua camisa imunda e aí deu pra notar que nem barba lhe havia: um apenas frouxel se lhe insinuava pelo queixo ...
De seu corpo cantarilho exalava um tal odor ptármico, como talvez o bodum das roupas e botas encardidas de retireiros renatos, desleixados, os quais não as lavassem por infindáveis dias” (p.71)

O terceiro momento de apreciável desempenho descritivo é o relato da luta entre os opositores. Como o título sugere, o autor focaliza o espaço, tipos humanos e costumes das fazendas mineiras e paulistas. São referidos casos típicos, brincadeiras infantis, crenças, pragas de lavoura, receitas e um rol de informações, oriundas da sabedoria popular. Informa a nota “Biografia” que, residindo em Delfinópolis, MG, o autor e cidadão “gosta de sumir pelos vãos da Serra da Canastra, onde cavalga, conversa, joga truco, sonda falares, respira cores e transpira poesia”.


Um dos traços peculiares do livro é o caráter pitoresco da linguagem: a transcrição fonética do linguajar caipira. Tal propósito se, de um lado, reelabora um desdobramento da língua brasileira, propugnada por Mário de Andrade, de outro, dada a exacerbação, configura um aspecto datado e superado na evolução do nosso modernismo . Veja-se a descrição da cigarra:
Um grita: Sai de bacho! Goramemo vai mijá ni nóis!” Prevenidos, a gente logo a localiza, atracada ao tronco, com seus centímetros congrossos, possuindo translúcidas cristalinas asas, zunezumbindo agudamente seu chamado erótico enquanto vai sugando, ininterrupta, as gotas de seiva dos microveios das cascas das árvores...” (p.114).

Intuitiva e exuberante, a linguagem mergulha fundo no registro regional, carregada de modismos e corruptelas. Nenhuma nostalgia autobiográfica, em busca do tempo perdido. À parte as ninharias fonéticas, trata-se de um escritor de inegáveis méritos, de soberbo desempenho estilístico, arraigada vivência, conhecedor de artimanhas e sutilezas de efabulação.

NETO, Oscar Kellner. Fazenda interior. São Paulo: Casa do novo autor, 2009.

2 comentários:

  1. Caro Edgard:
    Primeiramente quero agradecer demais pela atenção que dedicou ao meu livro. Suas palavras me incentivam a continuar na missão de escriba, apesar das ninharias que pupulam nos textos... Não consigo, por ora ser completamente coerente com um estilo ou uma qualidade criativa... Meu fraco é escrever, nem sempre conseguindo ser um autêntico escritor.
    A qualidade de seu comentário traduz a maestria do escritor, ensaista e doutor em literatura que vc. é...
    Só posso lhe dizer que nunca esquecerei a gentileza de sua apreciação crítica, e que quando publicar novamente, lhenviarei meu trabalho.
    Com carinhoso abraço fraterno,
    OSCAR KELLNER NETO

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  2. ...nada a agradecer, Oscar. Apenas destaquei os méritos e as ninharias do seu trabalho literário. Não pendure as chuteiras. Ainda pode fazer muitos outros gols.
    Abraço,
    Edgard Pereira

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