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domingo, 18 de outubro de 2009

Relações intertextuais



Divulgo para confronto, discussão e análise, à luz do conceito de intertextualidade, dois textos de autores portugueses contemporâneos. Embora de gêneros diferentes, os dois textos estabelecem um diálogo intertextual. De um lado, um texto de ficção experimental, assinado por Almeida Faria.


“ ... meu rosto procura teu rosto no anônimo rosto da multidão assim talvez passe por ti talvez esteja ao pé de ti e apesar de tudo não te vi e o zero que vou na minha origem caminhando às cegas para um zero igual apodera-se de mim numa vertigem vertiginosamente viva vertical e de tudo que sou e que me falta ser resta-me só esta cadenciada vil respiração a que por convenção ouço chamar viver a minha voz tentando superar o peso esquizotímico dos passos ergue-se a custo contra o tempo mudo em seus gritos agudos e em tudo me mudo no átomo no corpúsculo na onda nos quanta ...”

FARIA, Almeida. Rumor branco. 2. ed. Lisboa: Portugália, 1970, p. 78.


De outro lado, um poema de Hélder Moura Pereira, um dos integrantes de Cartucho (Lisboa, 1976), autor ao qual dediquei um esboço de análise no livro Portugal, poetas do fim do milênio (Rio de Janeiro: Sette letras, 1999):

“Por um rosto chego ao teu rosto,
noutro corpo sei o teu corpo.
Num autocarro, num café me pergunto
porque não falam o que vai
no seu silêncio aqueles cujo olhar
me fala da solidão.
Esqueço-me de mim. Tão quieto
pensando na sua pouca coragem, a minha
sempre adiada. Por um rosto
chegaria ao teu rosto, mesmo de um convite
ousado fugiria, esta mão conhece-te
e desenha no ar o hábito
por que andou antes de saíres
do espaço à sua volta” (...).


PEREIRA, Hélder Moura. Os tranquilos sobressaltos. Porto: Gota de Água, 1982.

Não se trata de cotejar a angústia da influência, mas perceber como os dois textos apresentam marcas que os aproximam, certa atmosfera cosmopolita, notas de solidão, a subjetividade magoada, a linguagem sincopada. O conceito de intertextualidade foi desenvolvido por M. Bakthine e recebeu contribuições de vários estudiosos, entre os quais, Julia Kristeva, Gérard Genette, Tzvetan Todorov. Conceito fundamental nos estudos de literatura comparada, a intertextualidade pressupõe a literatura como instrumento de comunicação de experiência humana e estuda as relações semânticas e estruturais entre os textos.

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