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sábado, 3 de outubro de 2009

Contemplação



Um livro por mês:


Após longa experiência em diversos concursos literários, Terezinha Pereira alcançou, com Em confidência, delicada novela ambientada em Ouro Preto, menção Especial no prêmio Octavio de Faria para livro inédito de 1998. O interesse por lugares históricos é um traço saliente, mencionado no prólogo do conto “Um dia, um enigma”, do segundo livro de ficção: “Desde jovem teve hábito de procurar conhecer e apreciar obras de cunho histórico e artístico durante os poucos períodos de ociosidade permitidos pelo trabalho. Visitar e revisitar cidades históricas, caminhar em suas ruas e ladeiras descobrindo segredos era seu grande prazer”. A novela Em confidência foi publicada em 2000, pela Mazza, de Belo Horizonte. Recebeu a Autora no ano seguinte um prêmio de tradução (Livro aberto/Xerox do Brasil), por A última folha (Cone Sul, 2001), versão do conto The last leave, do norte-americano O. Henry. Contemplação, o segundo livro, objeto deste comentário, é uma coletânea de contos, treze, para combinar com a temática gótica (estórias de assombração) presente em alguns trabalhos.

O conto que abre e nomeia o conjunto, apesar de um tom coloquial às vezes excessivo (como no final da seguinte frase: “Vivia numa minúscula ilha lembrada de Deus e esquecida do mundo, lá pros lados do nordeste”), é um dos pontos altos do livro. Com poucos recursos, bem explorados, a autora consegue urdir uma cena arquetípica, configurando um contexto fundamental com uma pitada de mistério e um apelo mítico. Takes precisos e poéticos iluminam o encontro amoroso entre a moça que vivia isolada numa ilha e o desconhecido que ali aporta num barco e depois desaparece. Nada é gratuito, os objetos descritos cumprem exemplarmente uma função na narrativa, como nesta tomada: “Dentro do barco, deitado, não sabia ela se morto ou não, usando apenas um calção preto, estava um homem diferente de todos que ela já havia conhecido. Junto dele, agarrado que nem uma criança, uma coisa grande, esquisita, que luzia como ouro”. Os tópicos focalizados aos poucos se encaixam e se complementam, como em câmara lenta, carregados de significado: “Fazia-se mudo, olhando a noite. Sem incomodar pessoa alguma, foi ficando. Com a música do seu saxofone contribuía para aumentar a magia do espetáculo do anoitecer”.

Outro momento de intensa voltagem de sentidos é a narrativa especular “Um dia, um enigma”. As aproximações com o fantástico, o jogo entre as sucessivas visões recriam a “estranha inquietude” referida pela psicanálise freudiana, explorando a duplicidade e a fantasia. Um garoto na praia vê um velho emergindo de um barco, o velho confunde-se com o velho da estátua do santo pescador, ao qual se que mistura a visão do homem que parece com o santo, em encadeamentos geradores da ideia de duplicidade. Por estar “mudando a voz”, o garoto é flagrado num momento de extrema agitação e espanto, numa zona fronteiriça da loucura. “Estava certo. Aquele espectro, que um dia ele havia visto se transformar em figura de pescador, era o mesmo homem da estátua de São Pedro Arrependido e o mesmo homem que então avistava chegar de barco, através da janela do restaurante”.

A coletânea, no entanto, apresenta um conjunto irregular de peças. A carpintaria nem sempre é perfeita, o tratamento dado à linguagem repete alguns chavões convencionais. “Ao caminhar pela praia com a mulher de meus sonhos, gozando da alegria do vento que chegava mais forte com o cair da noite e da suave cadência das ondas do mar, imaginei que, enquanto não conseguisse decifrar o mistério de seus segredos, ela seria a mulher de meus sonhos”. O conto é um gênero muito exigente. Alguns são bons, como os dois referidos, “Contemplação” e “Um dia, um enigma”, além de “Uma vez, uma fonte”, “A bola de vez”, “Tormento” (ninguém merece uma vizinha semelhante àquela descrita). Seguem-se outros três de regular fatura; o restante, porém, não atinge o patamar mínimo do plot ficcional. O terma do cidadão que foge da agitação urbana para se refazer na praia, em contato com a natureza, nada tem de ficcional, é assunto (desgastado) para crônica. O mesmo se pode dizer do reencontro de três amigas de colégio de freira, chamadas Maria. O espaço privilegiado da escrita de Terezinha Pereira é um espaço atravessado por gestos humanos essenciais, em que o desenvolvimento intimista da intriga depura o ambiente e a linguagem. Percebe-se inegável talento, além de percepção de conflitos, captação da dimensão humana, domínio de efabulação e de cenário; a questão restritiva fica por conta da linguagem, às vezes algo ultrapassada. A capa flagra uma inexpressiva e anódina imagem marítima. A edição infelizmente vem prejudicada por gralhas e incorreções gráficas inaceitáveis, a editora não tem rosto. Edições alternativas trazem riscos dessa ordem. O português apresenta-se por vezes claudicante, mas seria culpa exclusiva da autora?

PEREIRA, Terezinha. Contemplação. Itaúna: [S.n.], 2005.

3 comentários:

  1. Caro Edgard,

    Obrigada pela leitura e comentário a Contemplaçã e Em confidência.
    Obrigada pela crítica- às vezes favorável, às vezes não_ e pelos puxões de orelha.
    Um grade abraço,
    Terezinha Pereira

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Os méritos pelos elogios lhe pertencem em cheio. Quanto aos puxões de orelha,releve, os críticos são uns chatos.

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