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sábado, 10 de outubro de 2009

Confidência do forasteiro



(Imagem do centro histórico de Itabira, extraída de Agência Fiocruz de notícias)

Confidência do forasteiro

Lamente o poeta tuas noites brancas,
varridas de vento frio, sem mulheres e horizonte,
afixando na parede teu doído retrato.

Aqui chegados,
meus pés forasteiros palmilham tuas ruas híbridas,
de pedra, minério e asfalto,
teus passeios picotados de cimento, areia e brita.

Os casarões e igrejas de guirlandas barrocas
apontam um tempo de bandeiras ao vento,
em que o ouro escondia liberdade, fortuna e fé.
Os olhos procuram a continuação do morro,
atrás de barrancos ornados de esparsas árvores decorativas:
só encontram grotas decepadas, serras devastadas,
rasa lagoa suja de dejetos e água inquinada.
Deste ao mundo o fazendeiro do ar,
o artífice paciente das palavras:
seus versos derramam saber, manhãs de luz
driblam pedra no meio do caminho.
Deste também ao vasto mundo a Mina:
seus lucros e dividendos rendem
centenas de emprego, de engenheiros a vigilantes,
praças de esporte e coretos inócuos.
Os olhos forasteiros percebem ouvidos à força habituados
a estilhaços de dinamite,
as rachaduras das casas,
o olhar opaco de velhos acometidos de asma e bronquite,
os bilhetes fragmentados de jovens suicidas,
enquanto vagões trafegam carregados de minério a caminho do Oriente.

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