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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Fausto Cunha



Duílio Gomes enviou a seguinte mensagem a este blog - "Caro Edgard. Estou, em nome de Jaime Prado Gouvêa, convidando-o a voltar a publicar no Suplemento Literário de Minas Gerais. Você, como antigo colaborador do SLMG e integrante da geração de escritores mineiros que publicava no semanário nos anos 60/70, é um autor imprescindível a essa nova fase. Várias vezes ouvi e li comentários de escritores sobre essa sua participação, como os de José Afrânio Moreira Duarte no Estado de Minas ("Edgard Pereira dos Reis integra com brilhantismo a nova geração literária mineira que leva adiante o SLMG criado por Murilo Rubião"), Lucienne Samôr, Sérgio Tross, Luiz Gonzaga Vieira e Euclides Marques Andrade”.

A propósito de Duílio Gomes, Fausto Cunha, em A leitura aberta, expressou os mais rasgados elogios aos seus contos.

Fausto Cunha (1928-2004) foi um crítico fundamental para a compreensão da literatura produzida no Brasil entre os anos 50 a 80. Implacável, foi em toda a espessura um crítico militante influente, mantinha crítica literária em jornal, atento ao que se produzia, capacitado para estabelecer a ponte entre a tradição e a novidade. Clarice Lispector o temia, por motivos que ignoro.

Conhecia o trabalho de Fausto Cunha, em especial através de três livros, A luta literária (1964), Aproximações estéticas do onírico (1967), Situações da ficção brasileira (1970). Colegas escritores a ele se referiam com deferência e admiração. Só recentemente tive acesso a um dos seus últimos livros de crítica, A leitura aberta (1978). O próprio autor, em “Nota introdutória”, circunscreve os trabalhos da coletânea em três séries, que, a grosso modo, compreendem: a crítica literária (a mais extensa, com doze capítulos), a ficção e a poesia brasileira, sem mencionar o que seria uma quarta série, os “três temas de literatura portuguesa”. É um profissional consciente do ofício: “Minha geração foi a primeira, no Brasil, que procurou partir para uma leitura armada, um close reading. Surgimos, literariamente, sob o influxo do new criticism (cujas origens remontavam ao princípio do século), da estilística, assistimos à redescoberta da retórica e à adoção do instrumental linguístico no tratamento do texto”. Sem ignorar os mestres, reconhece a contribuição daqueles que “produziram páginas definitivas da crítica literária brasileira”, como Sílvio Romero, José Veríssimo, Araripe Júnior, Machado de Assis, Tristão de Athayde e Mário de Andrade. Seu método pressupõe distanciamento da postura dogmática, autoritária: “...leitura aberta, uma leitura sem pressupostos e sem esquemas prefixados, sensível a uma relação de forma e conteúdo entre autor e crítico”.

Retenho o artigo “O conto novo em Minas”. Datado de 1974, numa perspectiva panorâmica, Fausto Cunha elenca algumas linhas de força da nova ficção mineira, enumera quatro nomes aglutinadores e tutelares das inovações praticadas e cita os principais periódicos (mineiros) empenhados na divulgação do conto. Refere Tendência, Estória, Texto, Suplemento literário, Bel'contos, entre outros. Não pretendo discutir o artigo, mas transcrever duas ou três assertivas, senão curiosas, pelo menos impactantes, de efeito.

A primeira é sobre a estreia da dupla Ivan Angelo e Silviano Santiago. Para Fausto Cunha a nova ficção mineira começa ali, e não em 1965, com Estória.

“Não queremos, porém, datar de Estória os primeiros passos dessa geração e sim de Duas faces (1961), em que apareciam juntos Ivan Ângelo e Silviano Santiago, no que semelhava à primeira vista uma união típica do pote de ferro com o pote de barro: Ivan Ângelo surgia “como uma grande estrela”, para utilizar a frase de Fábio Lucas, com uma linguagem já trabalhada, adulta, algo especiosa, enquanto seu companheiro não dizia a que vinha”. Mais à frente, reergue o companheiro de Ivan Ângelo: “Não abatido com os azares da estreia, Silviano Santiago continuou a escrever e hoje encontra-se numa posição de indiscutível destaque não só na ficção nova de Minas como no âmbito nacional”.

Segundo recorte, sobre Luís Vilela, contista, porque na sequência Fausto Cunha prossegue avaliando o romancista: “Não resta dúvida de que é a maior revelação do conto no Brasil, depois de Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, que o antecederam. Tem uma força impressionante, absoluto domínio do diálogo e uma capacidade rara de captar o cotidiano. Seus três primeiros volumes de contos apresentam grande unidade literária, com um amadurecimento sensível em Tarde da noite, seu melhor livro. O fim de tudo é muito bom, mas aquele bom que Luiz Vilela já fez várias vezes. A explosão literária, de Tremor de terra, foi canalizada para um maneirismo que corre o perigo de acabar numa sala de espelhos, tudo se repetindo”.

O terceiro recorte, não esqueçam a data de 1974, transcrevo não apenas para “drapejar a bandeira da vã vaidade” de Duílio Gomes, mas como reconhecimento do seu valor:
“A ausência de livros de vários contistas que têm publicado trabalhos em revistas de novos e no SLMG impede que lhes abra espaço aqui. Uma exceção deve ser feita para Duílio Gomes; sem ter ainda reunido em volume os seus contos, pode já ser considerado, pelo que publicou avulsamente, um dos nomes mais destacados de sua geração, formando na primeira linha do novo conto mineiro”.

CUNHA, Fausto. A leitura aberta. Rio de Janeiro: Cátedra; Brasília: INL, 1978.

Enviei há mais dias o texto para Duílio Gomes. Enviou-me na volta o seguinte e-mail:

“Você me deu hoje uma baita alegria citando aquele trecho do livro do Fausto Cunha. Não sabia da existência desse texto. O Fausto era um incentivador das novas letras mineiras (principalmente prosa) junto ao Hélio Pólvora e Assis Brasil. Um trio de ouro. Por quê (caso ache conveniente, claro) Vc não transcreve aquele trecho no seu Blog? Não apenas para drapejar a bandeira de minha vã vaidade literária mas porque se trata de um documento que talvez interesse, sim, aos leitores curiosos desse tipo de crítica avant-la-lettre.
Daqui mando o meu grande abraço amigo. Duílio"

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