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terça-feira, 1 de setembro de 2009

Quando os demônios descem o morro



UM LIVRO POR MÊS: Quando os demônios descem o morro

Rui Mourão, unido a Fábio Lucas, Affonso Ávila, Laís Corrêa de Araújo e Heitor Martins, desenvolveu, nos anos 50/60, em Minas, um movimento literário de orientação político-social. Tendência, o nome do grupo, sinalizava para o princípio de evoluir dentro da tradição. Após a estreia com a novela As raízes (1956), publicou obras fundamentais na ficção, tais como Curral dos crucificados (1971), Cidade calabouço (1973), Monólogo do escorpião (1983), Boca de chafariz (1991), Invasões no carrossel (2001). O mais recente romance de Rui Mourão, Quando os demônios descem o morro, empreende uma dupla empreitada. Mistura a linguagem ficcional e a linguagem museológica. O cenário fictício envolve Ouro Preto. O fantasma da História perpassa diversas páginas:

“Passou-me a impressionar o desassombro com que aquele agregado de casas geminadas, a princípio desgraciosas, vencera o passado e resoluto encaminhava-se para outros tempos. Perplexo com a novidade diante dos meus olhos estampada, recolhia-me ao mesmo tempo desconcertado e atraído. Sobravam por todo lado imóveis em mau estado, paredes abandonando o próprio prumo, rebocos enegrecidos com evidentes sinais de infiltração, seculares esteios de madeira sustentando forros bambeados em barriga, pequenas lojas entulhadas, prateleiras em amontoado desarranjo, pequenos mostruários fora de moda, de estrutura de madeira grossa manchada de repinturas” (p. 16).

O museu apresentado no pano de fundo é real, o Museu da Inconfidência, dirigido pelo autor há três décadas. Personagens reais e fictícios mesclam-se em conflitos um tanto obscuros. O esforço empreendido em reformular estruturalmente (e conceitualmente) o Museu da Inconfidência, envolve todo um processo doloroso de mudança de consciências e comportamento, com reflexos no corpo administrativo e técnico da instituição e na cidade ao redor. Em certo sentido, ultrapassa os muros do Museu, inserindo-se numa evolução mais ampla do mundo como um todo. A intersecção dos dois discursos – o ficcional e o museólogo – implica um adensamento de expectativas, uma complexidade estrutural, em função de sutilezas conceituais, pouco claras ao leitor comum. A ideia de que ambos operam e são linguagem é, no entanto, extremamente produtiva:
“O museu busca se comunicar através da disposição de documentos materiais, testemunhos de realidades, segmentos incompletos que deixam vãos a serem preenchidos pela memória cultural do visitante. O romance, a novela ou conto interage com aquele que realiza a sua leitura através de tomadas subjetivas, percepções imateriais, reconstituições interrompidas que deixam vãos a serem preenchidos pela experiência de vida de quem dele se aproxima.” (p. 37).
Nos dois primeiros capítulos, ao se debruçar sobre o passado, o narrador autobiográfico flagra eventos, objetivos e aspirações relacionados a determinado contexto literário dos anos 50 e 60 no Brasil. Os desdobramentos do modernismo mineiro são referidos, numa visão panorâmica, em que as gerações de Vocação e Tendência ganham especial relevo. Ao assumir as funções de Diretor do Museu da Inconfidência, o protagonista vivenciava a franca expansão de sua obra literária.

“A convivência com a cultura da cidade transferiu-me uma infiltrada, acumulada sabedoria, que progressivamente passou a habitar-me. Minhas leituras por lá nada tinham de sistemático. Não envolvendo planejamento para a obtenção de determinado resultado, não havia nelas objetividade. A consciência que em mim acabou se instalando, a mim mesmo muito surpreendeu. De uma hora para outra, sentia-me na posse de espaçoso e mais vasto conhecimento do que me cercava. Enquanto procurava revolucionar a repartição em que trabalhava, era a mim mesmo que revolucionava. Tornava a nascer como escritor? (p. 19)”

Em decorrência de ousadas reformas implantadas no Museu, o narrador sofre retaliações do corpo técnico da instituição e de segmentos políticos da cidade. Acaba preso na “Polícia Central” de Belo Horizonte, num processo manipulado por interesses variados. Recluso, escreve:
“Agora estou aqui, um pouco lerdo, mão pesada, raciocínio embotado, tentando desenferrujar um instrumento de trabalho colocado de lado pelos dramáticos e absorventes acontecimentos dos últimos meses” (p. 19).
O estilo excessivamente formal, solene, retorcido, às vezes tendente ao rococó, se, de um lado, ajusta-se ao cenário e motivo barrocos, por outro lado, resulta monótono e imponente. O recurso de misturar personagens reais e ficcionais (de excelente efeito no romance Boca de chafariz) neste assume um formato algo combalido, meio artificial. A trama envolve à exaustão eventos rotineiros do cotidiano museólogo, correndo o risco de incorrer em insípidos expedientes administrativos, de extração interna, pouco atraentes e impactantes. O discurso ensaístico, ao questionar os rumos da atividade museológica, contribui ainda para dilatar o fosso que distancia a trama do intuito ficcional, aproximando-se do estatuto do relatório.

Sou um admirador da produção ficcional de Rui Mourão, à qual dedico dois artigos no livro Mosaico insólito. Este romance não se alinha, no entanto, no mesmo patamar de títulos anteriores, como Curral dos crucificados, Monólogo do escorpião e Boca de chafariz. Creio haver demonstrado em outros textos a importância fundadora de Curral dos crucificados para a ficção brasileira, a ponto de se apresentar como núcleo gerador de outros grandes romances, como é o caso de A festa de Ivan Ângelo. Não deixa de ser importante contribuição para a ficção híbrida almejada pelos pós-modernos, na tentativa de questionar e documentar o trabalho dos intelectuais, quando circunstâncias complexas os posicionam diante do peso e das vicissitudes da História.

MOURÃO, Rui. Quando os demônios descem o morro. São Paulo: Casa & Palavras, 2008.

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