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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O conto brasileiro contemporâneo IV


    1. Ivan Ângelo e Silviano Santiago, escritores que viriam a produzir posteriormente em separado trabalhos notáveis em ficção, têm significativa estreia conjunta em Duas faces (1961). Mesmo enveredando depois nas trilhas do romance, os dois não abandonam o conto. Ivan Ângelo a ele retornaria em A casa de vidro (1979) e A face horrível (1986), desvelando com fina ironia e habilidade técnica as armadilhas escondidas sob os disfarces do cotidiano.
   2. Jaime Prado Gouvêa, na sequência de intensa aprendizagem na redação do Suplemento literário do Minas Gerais, lança Areia tornando em pedra (1970), a que se seguiram outros títulos, numa gradação ascendente em qualidade e densidade, sem abandonar a agilidade, o vigor juvenil, como Dorinha, Dorê (1975) e Fichas de vitrola (1986), voltados para a revisitação crítica do passado, a sátira às convenções e o interesse pela condição humana.
    3. João Antônio, após o premiado Malagueta, perus e bacanaço (1962), enfocando a malandragem paulistana, publicou Casa de loucos (1971), Leão de chácara (1975) e Abraçado ao meu rancor (1986), histórias populares, vazadas em linguagem direta. Cultivou exclusivamente o conto, com extremado rigor e poder de síntese. A pesquisadora Regina Dalcastagnè discute o tom paternalista desse narrador: “Em seus contos ele se utiliza daquele sentimentalismo de classe média em relação a determinadas figuras do submundo urbano que não se apresentam como uma ameaça efetiva para as elites. Suas personagens são bonachonas, engraçadas, sofredoras, nunca perigosas” (DALCASTAGNÈ, 2002, p. 49).
     4. Uma mulher, Lucienne Samôr, tira o sono de editores e leitores, com seus contos góticos, algo macabros, habitados por personagens desvairados e tensos, nos relatos sombrios e nervosos de O olho insano (1975).
       5. Luiz Fernando Emediato, em Não passarás o Jordão (1977), Os lábios úmidos de Marilyn Monroe (1978), aborda questões relacionadas à repressão política, a tortura, a violência e o preconceito, numa perspectiva irônica e cética, incapaz de sufocar os arroubos juvenis.
    6. Luiz Gonzaga Vieira publica Aprendiz de feiticeiro em meados dos anos 70, surpreendendo pela proposta refinada e lúcida de adentrar nos subterrâneos da classe média, não apenas em seus aspectos socioeconômicos e políticos, mas com interesse na angústia existencial.
     7. Luiz Vilela, precocemente revelado e premiado em Tremor de terra (1967), seguido de No bar (1968) e Tarde da noite (1970), entre outros, tem papel importante na radical ruptura com técnicas tradicionais, revisão crítica de mitos e valores arraigados, refinada elaboração de material colhido no cotidiano.
    8. Manoel Lobato, mineiro de Açaraí, é conhecido pelos contos de Garrucha 44 (1961), Contos de agora, (1970), Os outros são diferentes (1971), Flecha em repouso (1977), permeados de conflitos gerados pela neurose, submissão a preconceitos e enquadramentos morais. “Aparentemente o conto é uma peça fria, impessoal, que ele leva ao microscópio, uma radiografia que não permite extrapolações. Mas se Manoel Lobato consegue anular a participação de quem escreve, não impede que ela se transmita ao leitor. É difícil não se sentir a angústia de sua pequena e rota humanidade” (PÓLVORA, 1975, p. 155).
    9. Mario Garcia de Paiva, vencedor do Concurso de contos do Paraná (1971), publica livros notáveis, em que o cenário urbano às vezes dá lugar a uma ambientação de ficção científica, como Os planelúpedes (1975), Dois cavalos num fuscazul (1976) e Os agricultores arrancam paralelepípedos (1977).
    10. Nélida Piñon, após algum hermetismo inicial, realiza uma ficção comprometida com a captação de fluxos de consciência, desde Tempo das frutas (1966), passando por A casa da paixão (1972) e Casa de armas (1973). A autora “...cumpre galhardamente, no entanto, o castigo dos que preferem por inclinação de personalidade ou atitude crítica, a análise das impressões ao relato de acontecimentos” alinhando-se, ainda no dizer de Hélio Pólvora, “no grupo de escritores nacionais e estrangeiros que empresta à literatura imaginativa as instrumentalidades da orquestração onírica” (PÓLVORA,1975, p.136-137).
     11. Roberto Drummond, mineiro de Ferros, descobre uma forma arejada de criticar a sociedade de consumo, em textos experimentais, impregnados de sátira política e social e citações do universo pop. Seu principal livro talvez seja A morte de D. J. em Paris (1975), o conto-título é admirável, ao apresentar a inquietante criação de uma Paris imaginária pelo protagonista.
     12. Sérgio Faraco motiva predominantemente seus contos em temática social, abordando os desdobramentos políticos dos anos de autoritarismo, tais como a violência e a repressão, quando não reforça a nostalgia de um passado irreversível, nas coletâneas Depois da primeira morte (1974), Noite de matar um homem (1986), A dama do Bar Nevada (1987), O chafariz dos turcos (1990), Dançar tango em Porto Alegre (1999).
       13. Sérgio Sant'Anna, após a estreia (O sobrevivente, 1969) e de viver uma temporada em Minas, daria continuidade a uma produção literária de elevada consistência criativa, publicando Notas de Manfredo Rangel (a respeito de Kramer) (1973) e O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro (1982), em que tenta captar com lucidez as aspirações e conflitos urbanos. Sobre o seu processo, afirma Hélio Pólvora: “O diálogo é o sistema nervoso do relato. Através dele, as personagens denunciam o que são, o que pensam e por que chegaram à sua dolorosa condição atual. Cenas ágeis, convincentes, como se o ficcionista tivesse o poder de, parando o tempo, eternizar imagens, falas e conflitos que já trazem em si mesmos o diagnóstico” (PÓLVORA, 1975, p. 151).
        14. Silviano Santiago, após as duas novelas enfeixadas em Duas faces (1961), em parceria com Ivan Ângelo, daria a lume os contos experimentais e de estrutura sofisticada de O Banquete (1970), receptivos a uma rebeldia disciplinada e inovações pós-modernas. Renomado teórico da literatura e romancista, o autor volta à narrativa curta em 1997, com Keith Jarret no blue note.
      15. Wander Piroli, egresso do jornalismo policial, aborda, com uma objetividade implacável, a exploração do homem pelo homem, a marginalização social, sem abandonar uma forma sensível e impactante, em obras singulares, como A mãe e o filho da mãe (1966), A máquina de fazer amor (1980).

Referências bibliográficas:
BASTOS, Alcmeno. Ficção: histórias para o prazer da leitura (uma revista literária dos anos 70). Estudos de literatura brasileira contemporânea. n. 23, Brasília, jan./jul.2004, p.136-150.
COUTINHO, Afrânio; SOUZA, J. Galante. Enciclopédia de literatura brasileira. I e II vol. São Paulo: Global Ed./ Fund. Biblioteca Nacional/ Academia Brasileira de Letras, 2001.
DALCASTAGNÉ, Regina. Uma voz ao sol: representação e legitimidade na narrativa brasileira contemporânea. Estudos de literatura brasileira contemporânea. n. 20, Brasília, 2002, p. 33-77.
LUCAS, Fábio. A ficção giratória de Lygia Fagundes Telles. Cult. 23, p.12-15, São Paulo, junho 1999.
MENEZES, Raimundo de. Dicionário literário brasileiro. 2. ed. Rio de Janeiro: Livros técnicos e científicos editora, 1978.
PÓLVORA, Hélio. Graciliano, Machado, Drummond & outros. Rio de Janeiro: Francisco Alves Ed., 1975.
Status, 105-A, São Paulo, abr. 1983.
VENTURA, Zuenir. 1968: o ano que não terminou. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

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