Álvaro Lins surge como crítico
literário no final da década de 1930, na esteira da publicação do renomado História
literária de Eça de Queiroz (1939), escrito aos 25 anos, coroando os
artigos publicados no Diário da manhã do Recife. Assim o fotografa
Alfredo Bosi: “Álvaro Lins (1912-1970) foi, entre 40 e 60, um dos nossos
críticos mais ativos e percucientes, muito próximo do modo de ler dos franceses
pelo gosto da análise psicológica e moral (Jornal de crítica, 9 vols)” [1].
Pioneiro da crítica militante no Brasil, em contexto de rica produção na área, convive
com especialistas de envergadura, como Sérgio Milliet, Antônio Candido, Sérgio
Buarque de Holanda, Brito Broca, Oscar Mendes, Eduardo Frieiro, Olívio Montenegro,
Augusto Meyer, Agripino Grieco, Tristão de Ataíde, Wilson Martins, Adonias
Filho. Estes intelectuais
eram os responsáveis pela crítica literária em jornais de São Paulo, Belo
Horizonte, Recife, Porto Alegre e, em especial, no Rio de Janeiro, onde Álvaro
Lins publica ensaios e resenhas no Diário de notícias e Diários
associados.
Literatura
e vida literária, com o subtítulo “Notas de um Diário de crítica”, recolhe
depoimentos, confissões, análises, impressões de leitura e reflexões sobre
assuntos literários. O livro agrega matéria que complementa a caudalosa série Jornal
de crítica, em fragmentos numerados. Comentando a revitalização do
interesse pela forma, pelo estilo, observada na evolução do Modernismo, escreve
no fragmento XLII: “Que o modernismo, num determinado momento de ímpeto e
combate, realizasse verdadeiras aventuras de linguagem e de estilo – isto parece
legítimo pelo seu caráter de lida com a necessidade vital de destruição. Mas
não será legítimo o propósito de tomar como norma no absoluto, um objetivo momentâneo
que fora apenas uma utilíssima e inteligente tática de batalha. (...) O
verdadeiro estilo, o que resiste ao olho e à análise de todos os homens, em
todos os tempos, este se forma no interior, cristaliza-se com a própria ideia que
vai exprimir, completa-se, numa unidade orgânica, com o próprio ser artístico do qual emana.” No registro CCLXVII, discute
elementos articulados à construção do romance: “Ideias não valem, no romance,
como abstrações teóricas, sim como móveis das ações dos personagens. As ideias
do romance são ideias encarnadas em seres vivos. Este perigo, no entanto, não
está ainda diante de nós; não devemos combater moinhos de vento. Ideias não são
coisas muito abundantes no romance brasileiro, quase todo feito de sentimentos
e observações de costumes.” Ao terminar o livro sobre Eça de Queiroz, anota: “Preocupei-me
às vezes em saber que lição haveria a extrair da sua obra. Preocupação inútil.
Deveria logo ter compreendido que não haveria ‘ensinamentos’ na sua arte,
porque deixar lições ou teorias não será de modo nenhum a missão de um
verdadeiro artista. O que há a aproveitar em Eça, além da sua arte, em si
mesma, é o exemplo do artista, bem necessário nos tempos de hoje. O exemplo de
uma vida inteira dedicada aos ideais da literatura; a concepção da arte
colocada num plano de seriedade, de dignidade, de trabalho, que está hoje cada
vez mais rara (CXXVI)”.
LINS, Álvaro. Literatura e
vida literária. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1963.
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