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quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Álvaro Lins

 

       Álvaro Lins surge como crítico literário no final da década de 1930, na esteira da publicação do renomado História literária de Eça de Queiroz (1939), escrito aos 25 anos, coroando os artigos publicados no Diário da manhã do Recife. Assim o fotografa Alfredo Bosi: “Álvaro Lins (1912-1970) foi, entre 40 e 60, um dos nossos críticos mais ativos e percucientes, muito próximo do modo de ler dos franceses pelo gosto da análise psicológica e moral (Jornal de crítica, 9 vols)” [1]. Pioneiro da crítica militante no Brasil, em contexto de rica produção na área, convive com especialistas de envergadura, como Sérgio Milliet, Antônio Candido, Sérgio Buarque de Holanda, Brito Broca, Oscar Mendes, Eduardo Frieiro, Olívio Montenegro, Augusto Meyer, Agripino Grieco, Tristão de Ataíde, Wilson Martins, Adonias Filho. Estes  intelectuais eram os responsáveis pela crítica literária em jornais de São Paulo, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre e, em especial, no Rio de Janeiro, onde Álvaro Lins publica ensaios e resenhas no Diário de notícias e Diários associados.

      Literatura e vida literária, com o subtítulo “Notas de um Diário de crítica”, recolhe depoimentos, confissões, análises, impressões de leitura e reflexões sobre assuntos literários. O livro agrega matéria que complementa a caudalosa série Jornal de crítica, em fragmentos numerados. Comentando a revitalização do interesse pela forma, pelo estilo, observada na evolução do Modernismo, escreve no fragmento XLII: “Que o modernismo, num determinado momento de ímpeto e combate, realizasse verdadeiras aventuras de linguagem e de estilo – isto parece legítimo pelo seu caráter de lida com a necessidade vital de destruição. Mas não será legítimo o propósito de tomar como norma no absoluto, um objetivo momentâneo que fora apenas uma utilíssima e inteligente tática de batalha. (...) O verdadeiro estilo, o que resiste ao olho e à análise de todos os homens, em todos os tempos, este se forma no interior, cristaliza-se com a própria ideia que vai exprimir, completa-se, numa unidade orgânica, com o próprio ser artístico do qual emana.”  No registro CCLXVII, discute elementos articulados à construção do romance: “Ideias não valem, no romance, como abstrações teóricas, sim como móveis das ações dos personagens. As ideias do romance são ideias encarnadas em seres vivos. Este perigo, no entanto, não está ainda diante de nós; não devemos combater moinhos de vento. Ideias não são coisas muito abundantes no romance brasileiro, quase todo feito de sentimentos e observações de costumes.” Ao terminar o livro sobre Eça de Queiroz, anota: “Preocupei-me às vezes em saber que lição haveria a extrair da sua obra. Preocupação inútil. Deveria logo ter compreendido que não haveria ‘ensinamentos’ na sua arte, porque deixar lições ou teorias não será de modo nenhum a missão de um verdadeiro artista. O que há a aproveitar em Eça, além da sua arte, em si mesma, é o exemplo do artista, bem necessário nos tempos de hoje. O exemplo de uma vida inteira dedicada aos ideais da literatura; a concepção da arte colocada num plano de seriedade, de dignidade, de trabalho, que está hoje cada vez mais rara (CXXVI)”.

 

LINS, Álvaro. Literatura e vida literária. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1963.



[1] BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1970, p. 541.



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