O livro de Afonso Arinos M. Franco, Amor à Roma, um tijolão de 520 páginas, atrai o leitor por diversas razões, a relevância histórica, o pendor da erudição, a paixão pela cidade eterna, a curiosidade sobre o reinado dos papas, o entrecruzamento de focos e perspectivas. O autor refere as origens históricas da cidade, no século quinto, as invasões de bárbaros de múltiplas colorações, atraídos pela riqueza e importância da urbe. Cita os fatores favoráveis à descoberta e ao fascínio pelo tema: a viagem, quando era moço, a Roma, no ano de 1925. O interesse pela história de Roma se entrecruza com o conhecimento de alguns diplomatas e intelectuais, como o autor de Procelárias, 1898, livro de versos de Magalhães Azeredo, que viria a ser o primeiro embaixador do Brasil na Santa Sé. Nas primeiras páginas, dedica-se a explicitar a natureza do amor a Roma. “O traço comum, que permite a variedade, consiste em que o amoroso de Roma não se transfere para dentro da Cidade, antes transfere a Cidade para dentro de si. De resto, como transportar-se para ambiente tão vário no tempo, tão variado nas formas? Em que Roma se integrar, em qual delas identificar a representação global de todas, válida para um determinado gosto ou temperamento?” (p.25). Seu fascínio pela cidade dialoga com o de outros intelectuais que também sucumbiram à sedução pela cidade, tendo escrito sobre ela, Montaigne, Taine, Des Brosses, Chateaubriand, Stendhal, Goethe, Byron.
O autor, à medida que expõe os motivos pelos quais se encanta pela cidade, mergulha em sua história e na história dos cardeais e dos papas, sobre os quais se esmera em tecer a cronologia, os principais eventos e juízos. A matéria pesquisada revela-se pródiga em curiosidades, referência às grandes obras executadas, o interesse de marcar cada reinado com construções magníficas e marcantes. Não ficam de fora os escândalos famosos, a evolução de grandes artistas que contribuíram para a grandeza arquitetônica do Vaticano, ao longo dos tempos. Mais do que fria descrição dos monumentos romanos, o livro constitui um esforço em captar o espírito de Roma, a “complexa e indefinível primazia de Roma em muitos setores da História” (p. 488). Paralela à corte papal, florescia outra, a corte frívola das famílias da nobreza italiana ou europeia, com seus casos de ascensão e decadência, as rivalidades entre poderosos e nobres, a competição entre protegidos e fidalgotes. Enumera os grandes beneméritos de Roma: Júlio II, Leão X, Paulo III Farnese, Paulo V Borghese. Dentre as passagens mais expressivas, citem-se as páginas sobre a presença do Padre Antônio Vieira em Roma, à altura dos anos de 1671 a 1675, comentários sobre alguns sermões e cartas, sua aproximação à Rainha Cristina da Rússia, as evocações literárias envolvendo Stendhal, os capítulos dedicados à atuação de Napoleão Bonaparte, os eventos relacionados à família Borghese, as referências às obras de Bernini, as digressões gerais em torno da efervescência artística no âmbito do Renascimento.
FRANCO, Afonso Arinos de Melo. Amor a Roma. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

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