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domingo, 15 de junho de 2025

MATUTANDO SOBRE MATINÊ DE SÁBADO - Resenha de Caio Junqueira Maciel

 

MATUTANDO SOBRE MATINÊ DE SÁBADO


Caio Junqueira Maciel



       Há uns tempos li textos críticos de Silviano Santiago em obra denominada Aos sábados, pela manhã. Agora recebo de Edgard Pereira Matinê de sábado, contendo artigos e ensaios de Literatura. O título vem explicado na epígrafe: “Quando leio alguns livros, um filme passa-me pela cabeça.” E, se compararmos livros a filmes, cumpre destacar que o autor não segue apenas os Fellinis, Pasolinis, John Fords, pois não se prende apenas ao cânone: “Produzir crítica literária corresponde a optar por uma escrita de segunda grau, acerca de um texto, seja de um autor canônico, ou de alguém que merece ser reconhecido” (p.11). O saudoso professor Antônio Sérgio Bueno me disse certa vez que livro de ensaios não se lê de um só fôlego: ele deve descansar na estante e ser beliscado aos poucos. Com todo respeito à memória desse grande estudioso da Literatura, mas não acatei seu conselho: li as mais de 200 páginas da obra em poucos dias, e buscarei ser breve para abordar os filmes que também vi passar. Edgard Pereira foi professor de Literatura Portuguesa na UFMG, possui livros de ensaios, de contos e romances. Não é apenas um teórico: sabe das filigranas da ficção e, como crítico, sua intenção é a de “fugir de piruetas conceituais, descrever o material consultado, enquadrando-o no gênero a que pertence, desvendando-lhe as estratégias e interesses estéticos. [...] A intencional mistura de autores canônicos e estreantes atende a uma ideia de partilha do patrimônio literário” (p.16). E obtém com maestria tal intenção, sem enfadar o leitor, pois não se vale de um vocabulário demasiado técnico, exclusivo dos experts. Seu livro pode ser acolhido tanto por professores, estudantes e apreciadores da boa Literatura.

       Na introdução, atravessada por vozes de vários críticos, debate-se a ideia de nacionalidade, que não deve ser tratada “como fato exclusivo, mas como ingrediente no conjunto dos elementos para a compreensão da obra literária” (p.12). Há referência a um artigo de Adonias Filho, ironizando o então jovem crítico Antonio Candido, já preocupado com aspectos sociais em detrimento do intimismo (p.13). Edgard faz sua profissão de fé: “Considero a crítica como uma atividade propulsora de cultura, ao despertar o interesse pela produção literária em dado contexto. [...] O ato de ler compreende um diálogo a várias vozes” (p.14). O livro é constituído por 32 artigos e ensaios, uns curtos, outros mais longos, nos quais o autor dá beliscadas, beliscões e algumas carícias. A primeira parte, “No jardim das musas”, contempla poesia, dando relevo à presença de Minas e diálogo com a cultura portuguesa. Mas o primeiro texto, sobre Bruno Tolentino, foge desses vetores. Esse polêmico poeta é responsável pelo beliscão que dá em Paulo Leminski, cuja poesia não passa de ““versalhada instantânea e rimas de muleta” (p.19). Edgard aborda A invenção do amanhecer, que considera, “dentre os livros de amor escritos no Brasil, o mais elaborado, ousado, complexo e vigoroso” (p.21). Outros poetas contemplados na primeira seção: Márcio Almeida, com o livro Vesânia, interessado em “entender a sobrevivência do indivíduo orgânico, histórico” (p.25); Geraldo Reis com o livro Pastoral de Minas, que possui “estrutura orgânica e significativa [...] “não se afasta da consciência da História” (p.29); Oswaldo André de Mello, com Imagens imorredouras, poesia de “tonalidades neossimbolistas”, com versos discursivos, vertente erótica, apelo místico e metapoesia (p.31); Anelito de Oliveira, com Desforra, em que “o poeta de múltiplas facetas revela-se um arauto de sujeitos maltrapilhos” e faz “denúncia da degradante condição humana” (p.33). Edgard, afeito à cultura portuguesa, também faz rápida abordagem de uma antologia de poetas brasileiros publicada em Portugal, Oiro de Minas, organizada por Prisca Agustoni, integrando autores como Eustáquio Gorgone de Oliveira, Donizete Galvão, Ricardo Aleixo, Maria Esther Maciel, Júlio Polidoro, Edimilson de Almeida Pereira, Iacyr Anderson Freitas, Wilmar Silva, Fabrício Marques. Alguns nexos são esboçados na análise de expressivas poéticas contemporâneas, como a procura do cotidiano, a vertente erótica e o risco de a adesão ao social se impregnar de tons panfletários. O ensaio mais longo é dedicado a poetas crepusculares, como Fernando Pessoa e os brasileiros Ernâni Rosas e Cruz e Souza. A vertente lusa aparece ainda no poemeto épico de Olavo Bilac intitulado “Sagres”, sobre o isolamento reflexivo do Infante d. Henrique (1394-1460). Há o elogio ao paradigma da castidade feito por poeta marcado por ardente sensualismo. Edgard destaca “a força transfiguradora do sonho como instância das grandes realizações coletivas” (p.67) e o elo com Mensagem, de Fernando Pessoa.

       A segunda seção da sessão dessa Matinê de sábado intitula-se “Entre o passeio público e o sertão”, com 23 textos abordando romances e contos. Há autores de linha intimista e psicológica como José Geraldo Vieira, Marques Rebelo, Lúcio Cardoso, Cornélio Penna, Octávio de Faria. Adonias Filho. Saliento o ensaio sobre “Guimarães Rosa: sertão e narrativas transgressores”: a “ambiguidade erótica” da narrativa, “os polos antitéticos da atração e da repulsa”, “a duplicidade entre o jagunço e a donzela, o demoníaco e o divino” chamam atenção para a rasura da crítica frente ao componente homoerótico, que reflete repressão imposta aos estudos sobre sexualidade; exemplificando com o episódio do morto esquecido dentro da igreja, esboço fantasmático da união entre os protagonistas Riobaldo e Diadorim. Merecem acurada atenção romances como Os servos da morte, de Adonias Filho e Os tambores de São Luís, de Josué Montello, onde há “descrições poéticas sugestivas” e “o sofrido processo da assimilação racial”. Há estudos sobre João Ubaldo Ribeiro de Viva o povo brasileiro, com ênfase à linguagem polifônica, num romance que dialoga com a epopeia. Edney Silvestre em Se eu fechar os olhos agora; Wilson Bueno, em A noite está velha. Além de Guimarães Rosa, outros prosadores mineiros estão na tela da matinê de Edgard: Rui Mourão, com Mergulho na região do espanto, Benito Barreto com sua tetralogia Saga do caminho novo, coincidentemente estou a ler o primeiro volume, Os idos de maio (e não de março, como se vê no cesariano equívoco na nota bibliográfica). Adélia Prado é estudada em Os componentes da banda. Maria José de Queiroz com Homem de sete partidas. Jéter Neves em Fratura externa. E até um certo Caio Junqueira Maciel, em Um estranho no Minho, abordado como exemplo de prosa picaresca, como também Sérgio Mudado e Os negócios extraordinários de um certo Juca Peralta. Luiz Fernando Emediato, com o conjunto de contos reunidos em Trevas do paraíso, “escritos no calor da repressão política, os contos não perderam o frescor e a rebeldia juvenil, nota inconfundível nessa ficção” (p.187).

       Além de Adélia Prado, outras escritoras são estrelas dessa matinê: Nélida Piñon e A república dos sonhos; Maria Adelaide Amaral e Aos meus amigos, que me despertou a vontade de conhecer este “amplo, consistente e ousado mosaico no contexto opressor da ditadura” (p.153); Adriana Lisboa de Azul-corvo. Constam, também, análises de ficções pós-modernas como Fios de Ícaro, de Evaldo Balbino, e Paradoxias, de Luiz Eustáquio Soares. Conclui a sessão e a seção um voo panorâmico sobre o moderno romance brasileiro. Destaque para as obras de Érico Veríssimo, Autran Dourado e Clarice Lispector. Edgard Pereira compartilha sua leitura com seus leitores, provoca nosso desejo de conhecer ainda mais os nossos autores. E, se tal volume de textos abordados chega a dar a impressões de pontos ou manchas isolados, lembremos do que disse Marques Rebelo, em A guerra está em nós, citado por na p. 82, “[...] verão que os interstícios são ilusórios, pura habilidade do artista familiarizado com o pincel do pontilhismo, que as manchas, longe de se repelirem, se fundem coerentemente num quadro só – o quadro que eu desejo.” O certo é que essa matinê, provocando nossos desejos, nos leva a muito matutar sobre as letras que cobrem nossas fatigadas retinas de domingo e sábado.



PEREIRA, Edgard. Matinê de sábado: artigos e ensaios de Literatura. Curitiba: Appris Editora, 2025.

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