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quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

A Flor e a Fonte

 

                  A FLOR E A FONTE


Deixa-me, fonte!” Dizia

A flor, tonta de terror.

E a fonte, sonora e fria

Cantava, levando a flor.


Deixa-me, deixa-me, fonte!”

Dizia a flor a chorar:

Eu fui nascida no monte...

Não me leves para o mar.”


E a fonte, rápida e fria,

Com um sussurro zombador,

Por sobre a areia corria,

Corria levando a flor.


Ai, balanços do meu galho,

Balanços do berço meu;

Ai, claras gotas de orvalho

Caídas do azul do céu!...”


Chorava a flor, e gemia,

Branca, branca de terror.

E a fonte, sonora e fria,

Rolava, levando a flor.


Adeus, sombra das ramadas,

Cantigas do rouxinol;

Ai, festa das madrugadas,

Doçuras do pôr do sol;


Carícias das brisas leves

Que abrem rasgões de luar...

Fonte, fonte, não me leves,

Não me leves para o mar!”

*

As correntezas da vida

E os restos do meu amor

Resvalam numa descida

Como a da fonte e da flor...


            Vicente de Carvalho (1866 - 1924)

                                                                                      (Imagem:vicentedecarvalho.art.br)

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