Embora com foco na literatura e questões relacionadas, este blog não é um registro apenas de matéria ligada às letras. Há absurdos no cotidiano e na política que não podem passar batidos. O mais recente é a nomeação pelo presidente da República de seu advogado para Ministro da Suprema Corte de Justiça do País. Sobre o tema, tomou posição o articulista do jornal O Estado de São Paulo, na coluna de hoje, J. R. Guzzo, em lúcida abordagem da qual a seguir transcrevo algumas passagens.
O título é "Mais um deboche". Pela seriedade do tema, repito, dou-me ao trabalho de transcrever:
"Em que país sério do mundo o presidente nomeia o próprio advogado para a Corte Suprema da Justiça? Em nenhum. Isso é coisa de Idi Amin, ou de alguma dessas ditaduras primitivas... Todo o mundinho oficial, parasita e subdesenvolvido que prospera em Brasília, às custas do erário e em permanente estado de coma moral, vai fingir que não há nada de errado, com mais essa aberração. (...) Pode ser que Zanin não sinta vergonha de nada e apenas diga para si próprio: "Me dei bem". Para o Brasil, e para os brasileiros, em todo o caso, é uma humilhação. (...)
É possível, humanamente, esperar que o novo ministro seja imparcial em alguma decisão que tome a respeito de quem até outro dia era o seu patrão? É claro que não. Se o Brasil tivesse um Senado, Zanin não iria resistir a 15 minutos de sabatina. Mas o Brasil não tem Senado. Tem um escritório de despachantes a serviço do governo. Vai ser mais um espetáculo de hipocrisia, em que os senadores vão fingir que perguntam, e o nomeado vai fingir que responde. Todo mundo, incluindo-se aí a maior parte da mídia e a elite que manda no País, vai fazer de conta de que as "instituições" funcionaram mais uma vez.
O STF tirou Lula da cadeia, alegando que o CEP do processo estava errado. Anulou as quatro ações penais que havia contra ele. Mais que tudo, pelos serviços do TSE, colocou Lula na Presidência. (...) O STF, há muito tempo, deixou de ser um tribunal de Justiça e se transformou numa seita política que trabalha para o Lula - atende a todas as suas exigências e persegue seus adversários. (...) O novo ministro, cujo escritório recebeu R$1, 2 milhão do PT na campanha de 2022, fora o que já havia ganho para cuidar de sua defesa, nunca vai tomar alguma decisão contra Lula. O STF também não - com ou sem Zanin no plenário. Sua nomeação, na verdade, acaba sendo apenas mais um deboche de um presidente que trata o Brasil como uma republiqueta bananeira qualquer."
(GUZZO, J. R. Mais um deboche. O Estado de São Paulo, São Paulo, 04/06/2023, Política, A9)
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