A insidiosa questão de reconhecer na ficção o reflexo fiel da realidade tem produzido páginas teóricas relevantes, por parte de alguns estudiosos. De imediato, dentre autores que trataram a matéria, escolho Adolfo Casais Monteiro: O Romance (teoria e crítica), um clássico de 1964, quando o autor português já se decidira a se exilar no Brasil, fugindo à ditadura de Salazar. Sem me deter demoradamente, respingo assertivas que me parecem acertadas: nada melhor do que debater a partir de um caso concreto, Graciliano Ramos, analisado pelo crítico luso-brasileiro.Fará o mesmo, depois, com José Lins do Rego, Jorge Amado, Rachel de Queirós, fascinado pela consolidação e qualidade do romance de 1930. Remete o caso para quem produziu romances que superam a média, grandes narrativas, em que "o talento individual ajusta-se a uma experiência, uma realidade capaz de dar o alimento necessário à maturação estética dum surto romanesco", citando de forma adaptada. Evita o refolho de regionalismo, valoriza os temas que deixam de ser exóticos, tornando-se autônomos, capazes de gerar uma expressão na qual o povo se reconhece. O romance nordestino presta-se a ilustrar um produto raro: o retrato de uma realidade que, embora regional, acarreta uma dimensão humana autêntica e universal.
O que outorga credibilidade e legitimidade ao texto teórico de Casais Monteiro é a linguagem clara, ele escreve com uma clareza mediterrânea, digna do luar de Montes Claros, para citar um lugar do sertão. Nada de linguagem rebuscada, repleta de termos eruditos, bizantinos, conceitos obscuros e delirantes. Cabe reconhecer que o núcleo de um conceito deve transparecer uma expressão límpida e pura. O verdadeiro crítico deve impor-se pela capacidade de imprimir aos ideais da inteligência o realce merecido, ser erudito, ter acurado senso de organização e reservas de sensibilidade. É o mínimo que se exige, em país de extrema fragilidade de pesquisadores no campo de ciências humanas, excetuando-se José Guilherme Merquior, Augusto Meyer, Afrânio Coutinho, Benedito Nunes, Antonio Cândido, Álvaro Lins.
As ideias articuladas à fruição estética têm-se mostrado resultantes de mutações sociais, políticas e históricas. São extremamente tênues os limites dos fatores atrelados às constantes diferenças que se vão moldando às noções de caracteres fundamentais e de interesse ligados à receção de produtos artísticos. Por paradoxal que possa parecer, somos mais afeitos às formulações caóticas e intempestivas do que às ordenações calcadas no equilíbrio, no provável e científico.
A fatura de um romance supõe o entrosamento de vetores existenciais delineados num contexto dado, aptos a erigir um enredo agregador de eventos propícios e antagônicos, envolvendo um rol de personagens caracterizadas, - tudo articulado por um eficiente narrador que manipula os fios entrelaçados, convergindo-os numa trama verossímil. Tais fatores estão presentes nos grandes romances nordestinos.
MONTEIRO, Adolfo Casais. O Romance - teoria e crítica. Rio de Janeiro: José Olympio, 1964.

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