Morreu em Lisboa, no último dia 17, a escritora Nélida Piñon. Conheci-a no Suplemento Literário MG, na década de 80. A imagem que, desde então, guardo revela uma mulher forte, bem disposta, atenta aos menores movimentos ao redor, integrada de forma positiva na engrenagem da existência. Essa boa disposição na época associei ao trabalho literário. O que deve ser a mente de um romancista, arcabouço em que se entrelaçam, vívidos, os fios que, em códigos de letras e alfabeto, adormecem, como se refazendo de esplêndidas jornadas. Profissional emblemática da intricada arte de narrar, exercida em alta dimensão com engenho e arte, Nélida Piñon enriquece a cultura brasileira com seus romances impregnados de aventuras e reações humanas, suor e lágrimas vertidos à deriva de contextos diversos. A vivacidade, o hausto vivificante, a pletora de emoções, a irredutível aragem de vida decorrem do contato diuturno com as palavras e de uma imaginação poderosa e privilegiada.
Deixa uma obra importantíssima, iniciada com o romance Guia mapa de Gabriel Arcanjo (1961), a que se seguiram diversos títulos de contos: Tempo das frutas (1966), Sala de armas (1973), O calor das coisas (1980), A camisa do marido (2014); de romances: Madeira feita cruz (1962), Fundador (1969, prêmio Walmap 1970), A casa da paixão (1972, troféu APCA), Tebas do meu coração (1974), A força do destino (1977), A república dos sonhos (1984, APCA, Pen Clube do Brasil), A doce canção de Caetana (1987, prêmio José Geraldo Vieira, Brasil), Vozes do deserto (2004, Jabuti 2005), Um dia chegarei a Sagres (2020): de memórias: Coração andarilho (2009, prêmio espanhol Terenci Moix), Uma furtiva lágrima (2010); e de ensaio: Aprendiz de Homero (2008, prêmio Casa de las Américas, Cuba, 2010), Filhos da América (2016). Pelo conjunto da obra, foi distinguida ainda por outros prêmios, dentre os quais: Literatura Latinoamericana y del Caribe (1995, México), Rotary Clube do Rio de Janeiro (1997), Iberoamericano de Narrativa Jorge Isaacs (2001, Colômbia), Rosalía de Castro, Pen Club Galiza (2002), Menéndez Pelayo (2003, Espanha), Príncipe das Astúrias (2005), Vergílio Ferreira (2018, Portugal).
(Foto: Correio da Manhã)

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